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"O que merece que assine autógrafos é o facto de ser músico em Portugal"

O entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto é Boss AC. O artista, que conta com quase 25 anos de carreira, diz que o seu novo álbum - 'A Vida Continua' é uma fotografia dos últimos anos da sua vida. A expectativa é grande depois de sucessos como 'É Sexta-feira', 'Princesa' e 'Tu és mais forte'.

"O que merece que assine autógrafos é o facto de ser músico em Portugal"
Notícias ao Minuto

09/11/18 por Natacha Nunes Costa

Cultura Boss AC

Ao fim de seis anos sem lançar nenhum álbum, Boss AC oferece ao público uma mensagem de superação e persistência com ‘A Vida Continua’. Um trabalho que recorda o passado e que vive o presente com os olhos postos no futuro.

O rapper falou com o Notícias ao Minuto, partilhando que ser músico em Portugal não é fácil, mas que durante estes anos não esteve parado. Depois de muitos meses na estrada, em constantes concertos, Ângelo César, mais conhecido por Boss AC, decidiu dedicar-se à família, escrever para outros artistas e até fazer uma introspeção para perceber o que já fez, o que quer fazer e o momento que vive.

Tal como o próprio descreve, ‘A Vida Continua’ é uma fotografia dos últimos anos de Boss AC. Nem a morte do amigo DJ Bernas deixou de ser relembrada, com a música mais crua e mais emotiva do álbum.

Mas a essência do artista, que conta já com cerca de 25 anos de carreira, também lá está. Este trabalho gravita à volta do hip-hop, com sonoridades desde as mais 'old school' às mais contemporâneas. Há ainda espaço para músicas com influência portuguesa e com um cheirinho a Cabo Verde.

'A Vida Continua' soma 12 músicas e promete não só surpreender os fãs mais antigos do músico, como conquistar um público mais recente e mais jovem. A expectativa é grande.

Hoje é sexta-feira e vai lançar um novo álbum - 'A Vida Continua'. Acha que neste novo trabalho tem algum 'soundbite' tão forte e com tanto potencial como o ‘É Sexta-feira’?

Yieh! [risos]. Espero bem que sim, nada foi feito com esse intuito, até porque não creio que seja uma coisa que se possa prever. O que é certo é que não quis, de forma alguma, repetir nada daquilo que já tinha feito, não quis fazer o Sexta-feira II, nem o Princesa III, nem o Hip-Hop IV, agora se vai haver alguma coisa que fique assim tão presente não sei, o tempo o dirá.

Estive arredado das edições, mas não estive arredado da música. Estive tudo menos paradoDepois de seis anos sem lançar nenhum álbum, por onde continuou a sua vida durante esse tempo?

O que sempre fiz. Estive arredado das edições, mas não estive arredado da música, até porque nos primeiros dois, três anos, logo a seguir a sair o álbum, tivemos uma agenda, muito, muito preenchida. Além disso, tenho feito outras coisas. Dediquei-me à família, a outros projetos que não necessariamente a música, escrevi para outras pessoas, para fado, para o Marco Rodrigues, para a Mariza, etc, etc. Portanto estive tudo menos parado.

E foi em alguns desses momentos que se inspirou para este novo álbum?

Este álbum de certa forma é uma fotografia destes últimos anos, de vários momentos, de várias situações, do meu estado de espírito, daquilo que eu sinto, daquilo que eu sou neste momento.

Quero acreditar que sim, que inovei no sentido de reinventar e não fazer, como dizia há pouco, as coisas que já tinha feito

E que ritmos podemos ouvir? Continua com o mesmo registo, ou tentou inovar?

Isto gravita tudo à volta do hip-hop. Como rapper que sou é normal que assim seja, agora em termos de influências, há muitas influências que vão desde coisas mais 'old school' a sonoridades mais atuais. Há influências de música portuguesa, há um cheirinho de música cabo-verdiana também que advém das minhas origens, como por exemplo o 'Catchupa Sab' e o 'Si Propi'. Portanto, quero acreditar que sim, que inovei no sentido de reinventar e não fazer, como dizia há pouco, as coisas que já tinha feito.

É difícil manter um equilíbrio? Agradar aos fãs que o seguem há 20 anos e ao mesmo tempo chegar a um novo público?

Sim, não é uma tarefa fácil e se calhar também daí a tal pausa, para fazer uma introspeção, uma análise à minha carreira, aquilo que já fiz, aquilo que quero fazer, ao momento em que eu estou. E sim, há sempre uma grande pressão das pessoas, principalmente, quando vens de um super mega sucesso, como foi o último álbum. Contudo, a única pressão que realmente conta neste caso é aquela que eu próprio ponho sobre aquilo que faço. Só ponho o álbum na rua quando estou satisfeito com ele. E assim que estou satisfeito com ele, para mim, o álbum já é um sucesso, independentemente daquilo que possa acontecer. Assim que pomos o álbum na rua, como costumo dizer, as músicas, deixam de ser nossas. E foi o caso! Fiz o álbum, era meu, saiu a  26 de outubro e, de hoje para a frente já não é meu, é das pessoas.

E o que pretende transmitir? Li algures que o conceito para este disco era o minimalismo… porquê?

Também, mas não só. Quis pegar num conceito de tempo, da tal introspeção, porque já são muitos anos. Já fiz muita coisa e tive de fazer também essa análise e esse balanço, ou seja, quero que as pessoas que me acompanham há 20 anos me reconheçam, quero que as pessoas que me acompanham hoje me reconheçam, e quero que as gerações vindouras também me venham a reconhecer. Daí também vem o conceito de tempo e o próprio nome do álbum: ‘A Vida Continua’.

Quis passar essa imagem de que a vida continua, estamos cá, o que eu já fiz, já fiz, agora o que interessa é o que vem daqui para a frente

O nome ‘A Vida Continua’ é forte. Faz-nos pensar no passado, no presente e também no futuro… tem a ver com isso esta denominação?

Sem dúvida! Uma mensagem de superação, no sentido em que, com os seus momentos bons, com os momentos maus, a vida continua e nós temos de ter uma atitude proativa perante isso. Pelo menos eu faço por ser assim, neste caso específico a música acaba também por ser o nome de um tema que é dos mais pessoais e mais queridos, não é que eu goste mais do que os outros, mas é muito pessoal. Quis passar essa imagem de que a vida continua, estamos cá, o que eu já fiz, já fiz, agora o que interessa é o que vem daqui para a frente.

O álbum conta com participações de outros artistas. Quem são eles e de que forma participaram?

Esse tal conceito que eu dizia, do ontem, do hoje e do amanhã acaba também por se refletir nos artistas que escolhi, que convidei e com que tive o prazer de poder partilhar a minha música. Há um leque aqui muito alargado de estilos e de gerações. No primeiro single tenho ajuda do Matay, no ‘Por Favor Diz-me’, tenho a Eleanor num tema que é o ‘Dá-me Atenção’, os Supa Squad estão comigo em dois temas, no ‘Portas e Janelas’ e no ‘Catchupa Sab' que é um daqueles temas que eu dizia com um gostinho de Cabo Verde, das ilhas, tenho os Ferro Gaita, tenho os Black Company, o DJ Ride e por fim o DJ Bernas.

Contudo, este álbum é muito seu, certo?

É nosso, é aquilo que eu dizia, depois de pôr na rua é das pessoas. Foi meu na conceção e na realização porque foi um álbum muito pessoal, não só pelas temáticas, como também pela própria forma como o fiz. Portanto, diria que foi feito, na grande maioria, sozinho, fechado em estúdio, a compor, a escrever, a gravar mas, depois desta forma meia eremita de estar, acabou por ser um álbum que não é só meu, no sentido em que chamei outras pessoas, trabalhei com outras pessoas.

E tem uma música dedicada ao seu amigo DJ Bernas que morreu o ano passado. De que forma é que esse trágico acontecimento influenciou este trabalho?

Quanto à música que fiz dedicada a ele acho que não há muito a dizer, ela fala por si e é uma homenagem. A música foi gravada a cru, num só take, foi gravada mais ou menos uma semana depois daquilo acontecer. Este acontecimento abalou-me bastante, acabou até por atrasar este álbum. Este trabalho já era suposto ter saído há mais tempo. E o tema ‘A Vida Continua’ foi o último tema que fiz com o DJ Bernas. Era uma música que ele adorava e que, até dizia na altura: ‘Até parece que esta música foi escrita para mim’. E ainda que não tenha sido, agora, ao olhar em retrospetiva, parece mesmo que foi escrita para ele e, apesar de ter sido, e ainda é, de certa forma, um choque [a morte do amigo], a própria música dá esta mensagem de que a vida continua e eu quis prestar-lhe essa homenagem de amizade, de toda a partilha, de toda a convivência que tivemos e pensar que ficam as boas memórias e a vida continua.

A sua carreira começou há cerca de 20 anos. Qual o balanço que faz deste número redondo? Achava que ia ter este sucesso todo?

Na verdade já ando no mundo da música há mais de 20 anos, porque se pensarmos que eu gravei o Rapública [a primeira compilação de rap português que contava com os nomes mais sonantes da época] em 94, este ano faz 25 anos. Se eu pensava que ia estar aqui hoje? Talvez não. Obviamente que fazemos sempre as coisas para elas correrem o melhor possível, mas não podia prever que ia ter esta longevidade.

Está diferente de quando começou?

Uns quilinhos a mais [risos], isso é certo, um bocadinho de menos cabelo, mas a essência está cá. Obviamente que as pessoas mudam, amadurecem, têm outras experiências e isso acaba por se refletir na música mas, a essência, aquilo que realmente me caracteriza, aquilo que eu sou, acho que se mantém inalterado.

Quero pensar que os meus maiores sucessos estão ainda todos por vir  E porquê Boss AC?

Ah! Isso tem muitas histórias. Mas para resumir, eu já me chamava AC, que são as minhas iniciais de Ângelo César, e tinha um grupo de amigos, na adolescência, em que eu assumia o papel de uma espécie de porta-voz, e os meus amigos começaram então a chamar-me boss (chefe em português) e quando perguntavam ‘qual boss?’, a resposta era o AC, Boss AC, e ficou.

Quando é que se apercebeu de que era um sucesso?

Não sei, acho que ainda estou em vias de reconhecer isso [risos]. Quero pensar que os meus maiores sucessos estão ainda todos por vir. Na verdade, não consigo responder a essa pergunta de uma forma muito clara, o que eu posso dizer é que quando saiu o ‘Rapública' começamos a fazer concertos pelo país todo e foi aí que comecei a ter a noção de ‘se calhar é isto que eu quero fazer’. E uma coisa levou à outra e os álbuns que eu tenho lançado, felizmente, têm sido sempre em crescendo. Já me posso orgulhar de ter muitas músicas que as pessoas conhecem, que ficaram no imaginário no panorama da música portuguesa, que vem para além do hip hop. E o que eu espero deste álbum é que possa continuar a pôr músicas nesse tal imaginário.

E depois de 20 anos de carreira. Para onde se vai? O que falta fazer?

Ser rico [risos]. Quando fiz este novo álbum, que tem 12 músicas, acabei por tirar estas 12 músicas de muitas mais, isto para dizer que, fiquei com muitas músicas paradas, por assim dizer. E portanto, é provável que, num futuro próximo, muito mais próximo do que os seis anos que demoraram até aqui, tenha um álbum novo, mas é assim… vamos com calma que este álbum acabou de sair, deixem-me primeiro promover este, fazer este, ir para a estrada com este e depois penso no outro.

Sente pressão para mudar ou manter o registo? Das editoras, da sociedade, dos fãs?

Pressão há sempre, agora a questão é se a pessoa sucumbe à pressão ou não, e no meu caso não. Eu faço aquilo que traço. E faço aquilo que acho que é o melhor para mim, numa determinada altura. A pressão existe sim, mas eu sou, não diria completamente alheio, porque um homem não é uma ilha, mas perto disso.

Na verdade, o que merece mesmo que assine autógrafos, é o facto de conseguir ser músico em Portugal, porque não é fácil viver da músicaÉ fácil ser músico em Portugal?

Na verdade não. Até creio uma coisa, quando as pessoas me abordam para pedir autógrafos, e fico obviamente contente porque acho que é uma prova de reconhecimento do meu trabalho, mas na verdade, o que merece mesmo que assine autógrafos, é o facto de conseguir ser músico em Portugal, porque não é fácil viver da música, principalmente, estes anos todos. Ao contrário da ideia romântica que as pessoas têm, e apesar de ser uma vida gratificante, de viajarmos muito e de não haver rotina, algo que gosto muito, também é uma vida muito inconstante e com quase nenhuma certeza. Por isso ser músico em Portugal com certeza que não é fácil.

O que é a música para si? Que lugar ocupa na sua vida?

Profissionalmente é a minha prioridade.

Também tem duas filhas, é casado, tem outros projetos em mãos. Como é que consegue chegar a todo o lado?

Também ando a tentar responder a essa pergunta há algum tempo. Tem de haver alguma gestão. Só a música leva muito, muito tempo. Daí também, uma das razões e, provavelmente, a maior e mais importante de todas, ter feito uma pausa para me dedicar à família, para estar presente fisicamente, que é uma coisa que eu acho que é muito importante. Mas o tempo também é uma coisa que se vai arranjando, sou uma pessoa empreendedora, sou uma pessoa que gosto de estar sempre a inventar e à procura de novos desafios e, portanto, eu prevejo que continue assim mais um tempinho.

Onde são os próximos concertos?

Estou agora a preparar a próxima tour, com um alinhamento novo já muito centrado neste novo álbum. Mas assim que me lembre, no dia 30 de novembro vou estar no Cineteatro D. João V, na Damaia, que vai ser uma coisa muito engraçada porque é um concerto mais intimista. As pessoas vão estar sentadas, vou falar das músicas, vou tocar e contar histórias, ou seja, acaba por ser uma coisa mais descontraída. E no dia 23 de abril, vou estar, pela primeira vez num concerto, em nome próprio, em Paris, já fui a Paris atuar, mas não era numa sala e num concerto só meu.

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