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"Se os meus valores são do croquete, que venham milhões para Alvalade"

Filipe Soares Franco, presidente do Sporting entre 2005 e 2009, é o entrevistado do Vozes ao Minuto esta sexta-feira. O antigo dirigente aborda a atualidade do emblema leonino e não se coíbe de dar a sua opinião sobre alguns dos temas mais prementes que ocupam a atualidade desportiva portuguesa.

"Se os meus valores são do croquete, que venham milhões para Alvalade"
Notícias ao Minuto

01/06/18 por Ricardo Santos Fernandes

Desporto Filipe Soares Franco

Durante os últimos meses temos assistido a um ambiente efervescente no seio interno do Sporting. Enquanto sportinguista e antigo presidente do clube, como tem visto toda esta situação?

O Sporting está a atravessar a sua maior crise institucional de sempre. Portanto, qualquer sportinguista que se preze, que tenha amor e dedicação ao clube, vê estes incidentes com uma grande amargura e tristeza. O conflito permanente a que se tem assistido, sobretudo durante as últimas duas semanas, entre presidente da Mesa da Assembleia Geral e da direção é totalmente inaceitável e inconcebível. É com enorme tristeza e amargura que assisto a estes acontecimentos. 

Os incidentes em Alcochete precipitaram uma escalada de contestação a Bruno de Carvalho. Fazendo um exercício simples, se estivesse na pele do atual presidente do Sporting, sentiria que tinha condições para continuar à frente dos destinos do clube? 

Não preciso de me pôr na pele, primeiro porque não consigo, porque não tenho nem a mesma educação, nem os mesmo princípios, valores ou maneira de estar na vida. [Mas] qualquer presidente que se preze, por muito menos de metade do que aconteceu, já teria pedido a sua demissão.

Não é verdade que Bruno de Carvalho não esteja agarrado ao poder

Existindo tanta contestação interna, tendo Bruno de Carvalho assegurado que a direção não está “agarrada” ao poder, como se explica que não tenha ainda existido uma demissão? Consegue perceber o argumento de que o momento desportivo e financeiro é mais determinante do que a instabilidade interna?

Não se consegue explicar. Não é verdade que Bruno de Carvalho não esteja agarrado ao poder, não só ele como o Conselho Diretivo. Acredito que uma lufada de ar fresco dentro dos corpos sociais do Sporting faria com que fosse muito mais fácil lidar com os temas, mesmo os mais problemáticos. Vou dar-lhe um exemplo. O Sporting está a preparar um empréstimo obrigacionista de 15 milhões de euros, empréstimo esse que tem sido sucessivamente adiado, por duas razões. A primeira é que todos estes acontecimentos que se vêm sistematizando na vida do Sporting têm de ser reportados à CMVM, porque têm de constar no panfleto e no projeto do empréstimo obrigacionista. Como não há um momento de paragem, não se pode emitir o panfleto. Segundo, duvido que haja alguém que com a instabilidade que o Sporting vive, que apenas se aguenta porque tem o número mínimo de elementos no Conselho Diretivo, tenha confiança para investir no clube. Não acredito que haja alguém com bom senso que ache que investir num empréstimo obrigacionista destes, mesmo que remunerado a 6%, é bom e que chegue até ao fim.

Durante o seu 'consulado' enfrentou diversos problemas de ordem financeira no clube. Sente que esta segunda reestruturação que está a ser preparada por Bruno de Carvalho é apenas uma forma de esconder um problema maior? VMOCS, passivo, contratos de direitos televisivos, relação com patrocinadores/força da marca (sem conquista de títulos)...

Primeiro: o passivo do Sporting não são 250 milhões de euros, ou só são 250 milhões se não se se considerarem as VMOCS como passivo, que na prática não são bem. Se as considerarmos passivo, são 385 milhões. O problema das VMOCS é que são obrigações que, no seu termo de maturidade, se transformam em ações. Eu penso que os grandes detentores das VMOCS são os bancos (Millennium e Novo Banco). O problema é que os bancos não estão, salvo erro, autorizados a participar no capital social de empresas desportivas. As ações do Sporting têm sido negociadas entre os 50 e 60 cêntimos. No dia em que se injetarem 135 novos milhões de ações, é óbvio que o preço vai cair. Os bancos fizeram uma coisa muito simples. Estimaram que no dia em que as 135 milhões de ações entrassem no mercado baixavam para 30 cêntimos e voltaram-se para o Sporting e disseram: 'Comprem as ações a este valor e paguem-nos 40 milhões para ficarem com as VMOCS'. Isto não é nenhuma reestruturação financeira. É pura e simplesmente um perdão de dívida, não mais do que isso, mas criando as condições para que o Sporting possa adquirir os 135 milhões de VMOCS por 40 milhões de euros e ficar com uma larga maioria na SAD do Sporting.

Os patrocinadores que querem tirar o patrocínio foram das modalidades. [E] até são patrocinadores que têm tido uma relação conflituosa com o presidente.

E a relação com os patrocinadores?

O maior patrocinador do Sporting, a NOS, já referiu que não ia tirar o patrocínio. Os patrocinadores que querem tirar o patrocínio foram das modalidades. Até são patrocinadores que têm tido uma relação conflituosa com o presidente. É natural que, no meio desta confusão toda, não queiram ver a sua imagem de marca ligada a um clube que, nesta altura, não tem regras e que está descontrolado. O grande patrocinador do Sporting, não patrocina só o Sporting, os outros talvez sim. A NOS tem uma imagem mais global, não a afeta tanto esta situação do Sporting.

Não podemos fugir ao tema. O ataque levado a cabo no passado dia 15 maio na Academia de Alcochete,  provocado por cerca de 50 elementos, 23 dos quais pertencentes às claques, é um dos mais negros da história do clube. Como era a sua relação com as claques?

Enquanto fui presidente, mantive uma boa relação com as claques, isto apesar de algumas vezes não concordar com as manifestações que tinham. Participei em alguns aniversários, fui às suas sedes... quando me despedi do clube fiz um almoço com as claques... Mas as claques têm de ter regras e essas regras têm de ser institucionais e têm de ter uma linha encarnada que não se pode pisar. No dia em que essa linha for pisada tem de haver uma punição. Se não corremos o risco de a relação com as claques se tornar quase anárquica. Uma organização com a dimensão do Sporting, com milhões de adeptos e milhares de elementos nas claques, tem de ter regras, princípios e valores.

As claques pisaram essa linha…

Foram quilómetros para lá da linha, mas já tinham pisado essa linha quando, no jogo do Sporting-Benfica, atiraram tochas contra o [Rui] Patrício. É inadmissível. O Patrício é o jogador mais antigo do plantel do Sporting, é capitão, guarda-redes da seleção, venceu o Europeu, é dos melhores da Europa… Não há direito de que as claques o tratem assim, até pela forma como já mostrou o seu amor pelo clube.

Acredita que as claques têm demasiados ‘poderes’ no seio do clube?

Desconheço totalmente essa questão, estou afastado da vida do Sporting e não tenho qualquer noção do poder que têm dentro do clube, por isso não faço qualquer comentário.

Mas que medidas deviam ser tomadas para evitar tudo o que se passou?

Que eu saiba, a direção do Sporting já deliberou tirar o apoio à Juventude Leonina. É um passo positivo, severo, mas que eventualmente não poderá ficar para sempre, se não a claque não perdurará. Tem de haver regras muito especificas entre as claques e os clubes. Se pisarem muitas vezes essa linha é natural que lhes sejam tirados os apoios e não tenham forma de sobreviver.

Referiu em declarações proferidas anteriormente que o “Sporting está de luto”. Quando e qual a forma para o clube sair deste “luto”?

Eu penso que a forma de o Sporting sair desta situação é, inequivocamente, proceder a eleições antecipadas e criar, desta forma, novos órgãos sociais de forma a que a vida do Sporting possa ser diferente, se possa virar esta página e fazer nascer um novo capítulo.

O Sporting tem que ter à sua frente esta geração que agora orienta o Sporting, não a minha

Neste sentido, sente que algum dos nomes que têm apresentado a sua disponibilidade para concorrer à presidência o ‘representam’ de alguma forma? Ou acha que há um ‘vazio’ de figuras de topo?

Não acho que haja esse vazio. É prematuro falar de possíveis candidatos se houver eleições. Primeiro, as eleições não estão marcadas e, segundo, a direção ainda está em funções. O Sporting tem que ter à sua frente esta geração que agora orienta o Sporting, não a minha, que tem entre os 60 e 70 [anos]. Dentro dessa geração, há pessoas muito competentes, que inequivocamente já deram provas nas suas vidas profissionais que têm valor, que são bons líderes e que têm prestigio. Não é apenas o nome de uma pessoa que me fará ter uma opinião sobre se uma candidatura é válida ou não. O presidente encabeça uma lista, mas tem de ter uma equipa. Até posso ter uma opinião pessoal sobre uma figura, como pessoa, mas o que nos cabe avaliar é o potencial da equipa que essa figura possa ter para ter para apresentar.

Ainda é, portanto, cedo para fazer essa avaliação...

Não posso ter uma opinião sobre essa matéria. Num dos casos não conheço a vida profissional do Dionísio Castro. Conheci-o como atleta, e foi um grande atleta e grande sportinguista... o Frederico Varandas era o diretor clínico do Sporting. É um salto qualitativo muito grande, é outra barreira completamente diferente. Uma coisa é ser diretor clínico, dentro da sua especialidade – e aí tem reconhecidos méritos – e outra coisa é ter as valências para ser presidente de uma instituição onde é preciso ter mais valências que ser um diretor clínico.

Equaciona voltar a ser presidente do Sporting, já alguém o abordou nesse sentido, fazendo pressão para que avançasse?

Não! Ninguém me abordou, mas também posso dizer que não dou a menor das hipóteses a ninguém para me fazer essa abordagem, por três razões fundamentais: Já não pertenço à geração que entendo que deve estar à frente dos destinos do Sporting; a vida ensinou-me que quando passámos por um lugar e gostámos desse lugar não devemos voltar porque vamos ter uma desilusão; a terceira razão, e é arrasadora, é porque não quero.

Sente que estando o clube a viver este momento, o Sporting já tem, em termos desportivos, a próxima época seriamente comprometida?

O Sporting não vai começar da melhor forma a preparação da próxima época. Já devia estar a ser preparada, não sei se está ou não. Não há informações que saiam cá para fora. Mas estes conflitos internos entre direção, jogadores e equipa técnica, não se sabendo se vão ficar ou ser vendidos… Até agora só o Rui Patrício, tanto quanto se sabe, tem um acordo firmado, provavelmente com o Nápoles. Não se sabe a situação do técnico Jorge Jesus… Portanto, para quem é adepto e não tem informação interna, assiste a este início de preparação da próxima época com alguma preocupação.

Bruno de Carvalho tem praticado uma política populista e foi eleito pelo populismo. Ora, sabemos que o populismo é perigoso, não tem regras, não tem princípios nem valores, não obedece a um estatuto… é incontrolável

O atual presidente referiu a existência de sportinguistas e sportinguados, estando o clube vinculado a uma ideia de existência de barões e viscondes. Bruno de Carvalho não acabou por criar maior divisão dentro do mundo leonino, mais ainda depois de perseguir antigas figuras do clube, como foi o caso de Soares Franco? Sente que se está a perder alguma identidade dentro do clube?

O presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, gosta de ser popular, mas também gosta de ser populista. Tem praticado uma política populista e foi eleito pelo populismo. Ora, sabemos que o populismo é perigoso, não tem regras, não tem princípios nem valores, não obedece a um estatuto… é incontrolável. A questão de atacar os antigos órgãos sociais, os viscondes, os croquetes, devo dizer o seguinte. Para além da educação que recebi em casa, aos dez anos fui para o Colégio Militar. Com essa idade, levantava-me às 6h30, fazia a minha cama, engraxava os sapatos, areava os botões, tomava banho de água fria… aprendi o que era disciplina, hierarquia, solidariedade. O lema do Colégio Militar é 'um por todos e todos por um'. Se isto é regra do croquete, que venham milhões para dentro de Alvalade. Apelidarem-me de Visconde, que não tenho título nenhum, ou de croquete… não faz diferença absolutamente nenhuma. Ser uma pessoa bem-educada não faz com que uma pessoa não se saiba dar com toda a gente, antes pelo contrário. Se isto são os valores do croquete, que venham milhões para Alvalade.

Depois de um primeiro momento em que as decisões da direção foram defendidas por diversas figuras institucionais do clube, a guerra interna que fez, por exemplo, contra o presidente da MAG, terá contribuído para o declínio do atual presidente?

Foi e não foi. A culpa não foi só do presidente Bruno de Carvalho, mas também de Jaime Marta Soares, porque já vacilou mais do que uma vez. Retirou o apoio, disse que tinha de se ir embora, depois fez as pazes com ele e ficou tudo bem. Depois voltou manifestar-se contra ele e agora quer fazer uma Assembleia Geral Extraordinária para o destituir. Ele também atirou achas para a fogueira. Não teve uma posição e conduta firme. De certeza que se isso tivesse acontecido, o clube não estava nessa situação.

Poucos clubes no mundo mantêm a existência de órgãos consultivos como o Grupo Stromp ou o Conselho Leonino. Sente que estas eram forças de equilíbrio dentro do clube que perderam relevância, mas que seriam essenciais para resolver os problemas que o Sporting agora enfrenta?

São dois organismos completamente diferentes. O Conselho Leonino era um órgão social do Sporting que era eleito, o Grupo Stromp é um grupo de reflexão que não pertence aos órgãos sociais e que tem uma função completamente diferente. Não encontrei nenhum problema, quando fui presidente, no Conselho Leonino, até porque é eleito pelo método de Hondt, ou seja as várias listas que concorreram estão representadas. É sempre bom ter um órgão com 40 ou 50 elementos em que podemos consultar a sua opinião, mesmo que essas opiniões estejam alinhadas com a posição que as pessoas tiveram nas eleições. Relativamente ao Grupo Stromp, tem todo o tipo de pessoas, de todas as origens e facções, e é um grupo que se reúne mensalmente ou quinzenalmente, onde penso que todos têm um trato muito civilizado e educado sobre como vivem o momento do Sporting. Não sou do Grupo Stromp, mas sei que é um grupo que está seriamente preocupado com o futuro do Sporting.

Bruno de Carvalho aproveitou grande parte do trabalho já feito e fez melhor. Mas, logo ao início, deu sinais de instabilidade. O primeiro sinal foi a má relação que teve com Leonardo Jardim e Marco Silva.

Bruno de Carvalho entrou no Sporting como figura de esperança, uma espécie de salvador da pátria que iria tirar o clube de um poço sem fundo. É possível ‘dividir’ o mandato de BdC em duas fases, como tem sido veiculado em diversas opiniões? Sente-se ‘agradecido’, enquanto sportinguista, pelo trabalho de Bruno de Carvalho?

Vamos distinguir não são só duas fases, mas também a forma como Bruno de Carvalho entrou para o Sporting. Durante a era do engenheiro Luís Godinho Lopes, que foi uma era terrível, para ser eleito, Godinho Lopes acabou por juntar todos os gatos no mesmo saco. Aquilo não podia correr bem e não correu bem. De facto, Godinho Lopes entregou o Sporting numa péssima situação, mas onde já tinha iniciado um programa de reestruturação da dívida do Sporting, que até já vinha do tempo do tempo do final de mandato do doutor José Eduardo Bettencourt. O responsável pela reestrutuação é um sportinguista e grande amigo meu, que infelizmente já morreu, que é José Filipe Nobre Guedes. Bruno de Carvalho aproveitou grande parte do trabalho já feito e fez melhor. Não há dúvida nenhuma que fez melhor. Tomou uma posição de força, hoje percebe-se que é uma pessoa de querer extremar posições, levou a dele avante e ganhou. Conseguiu obter a emissão de VMOCS, períodos de carência e fez uma aposta muito séria no ecletismo do Sporting, nas modalidades e no reforço da equipa de futebol profissional. Mas, logo ao início, deu sinais de instabilidade. O primeiro sinal foi a má relação que teve com Leonardo Jardim e Marco Silva. [E] não teve e não tem uma grande relação com o Jorge Jesus. Há uma capa que está por detrás disto, até porque o Jorge Jesus tem um contrato dourado e a desvinculação ou era de mútuo acordo ou tinha custos muito onerosos para a parte que quisesse quebrar o acordo… Dito isto, Bruno de Carvalho fez o Pavilhão João Rocha, é um mérito, mas também o fez porque no meu tempo e no mandato seguinte se conseguiu aprovar pela Câmara o terreno onde está o Pavilhão. Aquele terreno, quando eu entrei, não podia ser utilizado para edificar um pavilhão. Teve de haver uma negociação onde se acabou por autorizar a edificação.

Eu não sei em que estado financeiro se encontra o Sporting atualmente, mas sei que nas duas realidades que o Sporting tem, clube e SAD, a saúde financeira não pode ser muito boa. Explico porquê. O clube não tem fonte de receita para se equilibrar, um clube como clube, o que tem são as quotas dos sócios e os patrocínios das modalidades. O Sporting, além de ter mais de 50 modalidades, tem equipas superiormente equipadas e bem pagas em modalidades que são muito caras, leia-se: atletismo, futsal, hóquei em patins, andebol, voleibol… são muito caras. Eu não acredito que o Sporting tenha uma gestão financeira de tesouraria e económica equilibrada. Só pode ser equilibrada através de resultado da Sporting SAD. A Sporting SAD publicou agora o resultado do último trimestre, e o ano de uma SAD começa em julho, e apresentou um resultado de 1,1 milhões positivos, tendo tido, salvo erro, mais-valias de jogadores na ordem dos 30 milhões de euros. Isto quer dizer que, operacionalmente, o Sporting perde nove milhões por trimestre. Se não vender nenhum jogador até 30 de junho deste ano, vai vender o Rui Patrício, seguramente, só consegue o resultado por causa do milhão positivo. Vai perder dez milhões neste trimestre, fica com um prejuízo de nove, se vender Patrício por 18, ganha oito ou nove milhões de euros. Isto significa que fez, em mais-valia de jogadores, 48 milhões de euros em vendas. O Sporting tem o resultado de uma atividade operacional muito, mas muito, desequilibrada. Isso tem que deixar preocupações.

Bruno de Carvalho colhe louros de ter reestruturado financeiramente o clube, até porque, segundo disse quando chegou ao Sporting, tinha salários de vários atletas em atraso…

Sim, é possível que o clube estivesse nessa situação. O engenheiro Godinho Lopes deixou uma situação muito má. Godinho Lopes foi empurrado para se demitir, até porque estavam a ser recolhidas assinaturas para uma Assembleia Geral Extraordinária, nessa fase, já de grande instabilidade, é óbvio que a situação com os financiadores não podia ser boa…

Mas a situação financeira do Sporting, agora, não é perigosa?

Não lhe posso responder com completa certeza, porque não tenho acesso ao detalhe dos números, mas é um facto que o Sporting aumentou significativamente as suas receitas. Primeiro, nos patrocínios, desde logo o patrocínio da NOS. Há uns anos esse tipo de patrocínio rondava dez ou 12 milhões, hoje é perto de 40 milhões, é uma diferença abismal. Em segundo, teve o mérito de aumentar a receita de bilheteira, com 30 a 40 mil pessoas a ver os jogos no estádio. Mas, também é um bocadinho chapa ganha, chapa gasta. Temo que o Sporting esteja a atravessar um período de tesouraria difícil e desequilibrado. 

A atual direção fez uma grande aposta nas modalidades. Porém, Portugal é um país relativamente pequeno onde a aposta nas modalidades acaba sempre por ser financeiramente um risco. Este projeto e investimento são viáveis?

Eu não sei se se tem de terminar novamente com algumas modalidades, o que eu acho é que há modalidades com um custo elevado para o Sporting. Acho que é um custo exorbitante. Mas, como não tenho os números em detalhe, também não posso fazer uma referência mais objetiva do que esta que já fiz.

Mas como se reduzem estes custos que diz poderem ser excessivos?

Reduzindo nos jogadores com contratos com custos tão elevados. Portanto, se calhar teríamos de diminuir a capacidade competitiva da equipa, mas manter a modalidade e equilibrar mais as contas do clube.

Diria que 80 a 90% dos sócios do Sporting gostam do clube porque são amantes do futebol. É no futebol que querem ver os títulos. De facto, aí, Bruno de Carvalho não tem tido grande sucesso

Bruno de Carvalho foi o presidente que mais investiu no futebol, todavia não alcançou o título de campeão. Acaba por ser um projeto falhado ou o sucesso desportivo nas modalidades acaba por camuflar e ajudar à sua continuidade?

Os títulos das modalidades valem o que valem pelo eclestismo que o Sporting tem. Agora, eu diria que 80 a 90% dos sócios do Sporting gostam do clube porque são amantes do futebol. É no futebol que querem ver os títulos. De facto, aí, Bruno de Carvalho não tem tido grande sucesso. Ganhou uma Supertaça e uma Taça de Portugal, mas nem sempre conseguiu, por exemplo, que o clube se apurasse para a Liga dos Campeões, nomeadamente este ano. Portanto, não pode ser considerado um período de sucesso no futebol. No meu mandato, ganhei duas Taças de Portugal, duas Supertaças e qualifiquei sempre o Sporting para a Liga dos Campeões e sempre fui acusado de nunca ter conquistado um título de campeão nacional. É a vida.

Disse que uma das palavras que define o Sporting é ecletismo e, atrevo-me a dizer, a outra será formação. Porém, a formação do clube não vive o momento de há uns anos, porque depois de termos duas bolas de ouro que saíram da Academia, hoje vemos um desinvestimento na saída de jogadores formados pelo clube. Acha que houve um virar de página na aposta na formação e sente alguma preocupação pelo facto de se produzirem hoje menos talentos em Alcochete?

Um virar de página na Academia houve de certeza. Todos os dirigentes que estavam na Academia antes de Bruno de Carvalho já lá não estão. Houve um virar de página significativo. Foram esses elementos que lá estavam, anteriores ao presidente Bruno de Carvalho, que fizeram a Academia. Por outro lado, também é natural que o Sporting, com o prestígio que angariou na sua Academia, fosse ‘copiado’ pelos seus rivais. Quer o Benfica, quer o FC Porto, olharam para o Sporting e disseram: ‘isto é um trabalho que tem de ser feito nas nossas organizações porque isto dá resultado’. O Sporting ainda tem resultados desses. Se olhar para o Patrício, para o William de Carvalho, para o João Mário, Rafael Leão… há vários jogadores que ainda dão frutos na equipa principal do Sporting. Não acho importantes os títulos ganhos nas camadas jovens, aliás, penso que a formação não serve para ganhar títulos mas antes para formar jogadores que se enquadrem com o estilo de jogo da equipa quando chegam à fase adulta. É para isso que serve a formação. Não é para ganhar títulos em juniores ou juvenis, com esquemas táticos ou técnicos totalmente diferentes do utilizados na equipa principal.

Então, para si, a génese de clube formador está sob ameaça?

Acho que não. Daquilo que eu conheço e não retirando mérito a Jorge Jesus, que acho que é um belíssimo treinador, todos sabemos que é um treinador conhecido por gostar de jogadores maduros. É a maneira como ele gosta de conduzir e trabalhar as suas equipas, até para chegar ao sucesso mais rapidamente. Não é uma crítica, é uma constatação. Isso obviamente não vai espoletar a integração total na equipa principal, ou melhor, espoleta uma integração mais lenta.

O primeiro garante de uma equipa estável é ter um treinador estável

O seu treinador sempre foi Paulo Bento. Na altura referiu que gostaria que se tornasse o ‘Ferguson do Sporting’. Acredita que Jorge Jesus tinha condições para assumir esse estatuto?

As condições têm de lhe ser dadas e ele tem de se sentir confortado para ter essas condições. Tenho a certeza que os órgãos sociais que eu dirigi, e com a administração da SAD, até pela minha própria relação pessoal, tenho a certeza que Paulo Bento se sentia confortável no Sporting. Da mesma maneira  que quando foi presidente do Estoril, Fernando Santos também foi sempre o meu treinador. É uma questão de princípio. O primeiro garante de uma equipa estável é ter um treinador estável.

Sente que Jorge Jesus era a figura que o Sporting precisava para se ‘aproximar’ dos rivais?

Tinha imensa consideração pelo Marco Silva e sinto que fez um trabalho brilhante no clube, como também acho que Leonardo Jardim fez um bom trabalho. Acho que pura e simplesmente não tiveram tempo para consolidarem a sua filosofia e os seus métodos para provarem que eram bons. Não tiveram tempo...

Disse que Bruno de Carvalho nunca tratou bem os seus treinadores. Teme que o próximo treinador também corra um 'risco' como os seus antecessores?

Não sei se é fácil arranjar um bom treinador para o Sporting com a personalidade que o presidente do Sporting tem. Acho que não será fácil um bom treinador aceitar uma oferta do Sporting olhando para a realidade dos últimos cinco anos.

Sente que pode um ‘sim’ ou um ‘não’ de um possível novo técnico está dependente da permanência de Bruno de Carvalho?

Os treinadores são profissionais como todas as outras pessoas. Nas negociações impõem as suas condições e a sua remuneração. O que eu digo é que um bom treinador tem lugar em muitos clubes e não será seguramente o Sporting, com a instabilidade que tem vivido, a melhor figura padrão para um treinador de renome vir para Alvalade.

O Sporting tem o treinador mais bem pago do país e Jorge Jesus, segundo as notícias, estaria inclusivamente disposto a abdicar de salários para deixar o clube no imediato. O lado humano também importa?

Tudo o que disser a mais é puramente especulativo e não tenho por hábito falar de temas que não conheço bem.

Noutro ponto, pode dizer-se que atualmente os diretores de comunicação assumem no futebol português uma posição de primeiro plano. É benéfico para os clubes continuarem a manter este “discurso de guerrilha”?

Toda esta guerrilha institucional não é só provocada pelos diretores de comunicação. Em grande parte deve-se aos comentadores televisivos. Isto não é benéfico para nada, nem para a afirmação do futebol como desporto-rei na sociedade. Cria-se um clima praticamente de ódio entre clubes. Há uma grande diferença entre ódio e rivalidade. É bom que existam rivais, não é bom que haja um clima de intimidação entre clubes que lutam pelo mesmo título ou que são rivais na mesma cidade.

Pinto da Costa referiu nos últimos dias que a sua saída poderá estar para breve. Que tipo de relação manteve com o presidente do FC Porto durante o seu mandato? Acredita que a sua saída irá provocar mudanças no futebol português?

A minha relação com o presidente Pinto da Costa foi boa. Ou seja, acabou por ser boa. Era má, mas acabou por ser boa, tendo nós, penso eu, conseguido uma relação cordial que ainda hoje perdura. Não é fácil, eu que não sou portista, olhar para o FC Porto e ver o clube sem Jorge Nuno Pinto da Costa. Mas também acredito que um presidente que já tem 80 anos sinta vontade de gozar a vida fora do futebol. Também percebo isso. Provavelmente, já lhe faltarão algumas forças e energia para a função e para o desgaste que a função obriga. Se ele decidir sair, sai em beleza porque foi campeão.

Mas sente que uma decisão dessas impacto no clube e no futebol em geral?

Com certeza terá impacto.

Disse que mantiveram uma relação que começou má e acabou boa. Qual foi o ponto de viragem?

Era má antes de ser presidente do Sporting. Houve depois um pedido mútuo que as relações se transformassem em cordiais, até porque o presidente do FC Porto é uma pessoa civilizada, educada e culta. Quando ele quer, não é difícil chegar a um entendimento.

O FC Porto vai ter um incremento de receitas a rondar os 45 milhões de euros, provenientes da Liga dos Campeões, e o Benfica pode registar números similares caso chegue à fase de grupos. Isso pode afetar o Sporting e contribuir novamente para uma hegemonia bicéfala do futebol português?

Não sei se vai contribuir para uma situação bicéfala no futebol português porque basta olhar para o Sporting de Braga, que tem um terço ou um quarto do orçamento dos grandes e consegue lutar para estar no pódio. Mas é óbvio que cria um desequilíbrio que era bom que não tivesse sido criado. O Sporting teve a faca e o queijo na mão, mas deixou fugir a entrada na Champions.

Um grande em Portugal não é um grande na Europa. A disparidade que existe entre o financiamento dos grandes da Europa e os grandes Portugal também é enorme e provoca um desequilíbrio enorme

De que forma a Liga portuguesa pode lutar contra esta terrível diferença entre os ditos três grandes e as restantes equipas. Os grandes parecem cada vez mais grandes e os pequenos cada vez mais pequenos?

Um grande em Portugal não é um grande na Europa. A disparidade que existe entre o financiamento dos grandes da Europa e os grandes Portugal também é enorme e provoca um desequilíbrio enorme. Não é só por se atirar dinheiro para cima da mesa que se forma uma grande equipa. O Sporting foi exemplo disso quando, no tempo de Paulo Bento, chegou a entrar em campo com sete jogadores da formação. Não foi por isso que não deixou de estar na Liga dos Campeões e que uma vez até chegou a passar a fase de grupos. A diferença de orçamentos era um disparate.

Resultados combinados, pressão sobre árbitros, caso e-toupeira, e-mails, esquemas de manipulação, agressões a jogadores e treinadores. De que forma é possível acreditar numa Liga transparente com um lado tão obscuro nos bastidores do futebol português?

É difícil, para não dizer que é impossível. Enumerando os casos tristes que têm vindo a público ao longo destes últimos tempos, obviamente que é preciso ter uma enorme fé para acreditar que é possível dar a volta. Tem que se ter disciplina, rigor e princípios. Tem de se começar do zero e ter um objetivo para três, quatro ou cinco anos, para ter um futebol são. Seria uma grande vitória. O futebol português está severamente doente. Com tudo isto que tem acontecido é impossível dizer que não está doente.

Consegue perspetivar uma forma de acabar de vez com os sucessivos esquemas de corrupção no desporto nacional?

A palavra corrupção faz-me pele de galinha. Também devo dizer que a corrupção é das coisas mais difíceis de provar. Até agora nada ficou provado de que houve corrupção, embora existam, como todos sabemos, indícios. Indícios são só factos que não estão completamente provados. Como disse numa resposta anterior, não gosto de comentar temas que não domino na totalidade. Acho triste esta imagem toda que está a ser passada do Sporting, com sucessivas situações que vão aparecendo, e tenho pena que essa imagem até tenha chegado lá fora, como foi o caso deste acontecimento na Academia do Sporting. É absolutamente lastimável.

Sente que Governo, Liga e Federação deveriam ter um papel mais ativo ou o futebol é um ‘negócio/mundo à parte’?

Claro que deviam. Já falei disso há pouco tempo. Em Inglaterra também existiu um ambiente muito nocivo na altura dos hooligans e foi um governo da senhora Thatcher que se acabou com o hooliganismo… mas também se acabaram com as claques. Hoje em dia, em Inglaterra, só se pode entrar no estádio com cachecóis ou com a camisola do clube. São proibidas faixas, tochas, tudo o que possa agitar o ambiente.

Foi dos presidentes que mais lutou pela transparência e pelo combate à corrupção, fazendo uma dura perseguição aos seus rivais. Qual era a sua relação com Benfica?

Simplesmente institucional. Não tinha nenhuma relação privilegiada com o Benfica, como não tinha com o FC Porto. Talvez em alguns casos tenha sido mais difícil com o Benfica, o que é natural porque o Benfica é de Lisboa. Há uma maior rivalidade entre Sporting e Benfica do que há entre o Sporting e o FC Porto.

Benfica e Sporting serão sempre rivais, mas não será possível, como já chegou a ser pedido publicamente, que os dois presidentes se sentem à mesa? É uma situação utópica?

Não. Mas tenho a certeza que hoje não estão criadas essas condições. As arestas estão muito afiadas e são cortantes. Acho que sentarem-se à mesa hoje não era saudável. Primeiro têm de se limar muitas arestas.

É verdade que ainda nada ficou provado, mas acredita que os valores do clube estão a ser delapidados na sequência da operação cashball? Um clube como o Sporting, que apresentava a ‘ficha limpa’, acaba por ser agora confundido com os seus rivais?

Nada está provado e enquanto assim for não me atrevo a comentar nada. O meu desgosto, se se vier a confirmar alguma coisa, será tão grande que não tem dimensão. Tal como referiu, o Sporting tinha uma página imaculada em relação a essas matérias e isso era um grande orgulho para todos os sportinguistas, pelo menos para mim era. Mas volto ao início: enquanto nada estiver provado e apurado, não faço comentários sobre essa matéria.

Num momento em que existe tanta crispação interna, que mensagem, enquanto antigo dirigente do clube, gostaria de deixar aos sportinguistas?

Que se tentassem acalmar, que pensassem, que tivessem bom-senso e que o mais rapidamente possível existisse um ambiente calmo e tranquilo para que houvessem eleições transparentes e tranquilas e eleger os novos órgãos sociais do Sporting.

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