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Alto do Pina confiante na revalidação do título nas marchas de Lisboa

Os serões são há cerca de três meses dedicados aos ensaios, porque nada pode falhar no desfile no pavilhão e na descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa. A marcha do Alto do Pina "tem tudo" para revalidar o título alcançado em 2019.

Alto do Pina confiante na revalidação do título nas marchas de Lisboa

São 22:00. Depois de uma espera para entrar no pavilhão da Escola Básica Patrício Prazeres, onde ensaiam, os 25 homens e 25 mulheres que desfilam na marcha do bairro do Alto do Pina faz uma 'rodinha' a ouvir as primeiras orientações do ensaiador Bruno Vidal.

O início é de grande concentração. Não se ouve nada após a indicação de silêncio, seguida dos primeiros acordes da música e do grito 'Alto do Pina' por cinquenta vozes bem afinadas.

Entram as mulheres, marchando ao som de um rufar de tambor, algumas delas descalças, e assumem a sua posição.

Logo depois é a vez dos homens. Ninguém fala. Só se ouve a voz de Bruno. O padrinho, Madjer, considerado o melhor jogador de futebol de praia, e a madrinha, a apresentadora Teresa Guilherme, entram compenetrados no seu papel.

A "energia boa" dos marchantes sente-se no ar. Teresa Guilherme explicou à Lusa que são "miúdos com muita garra" e que se sente muito bem ao estar a seu lado "a apoiar e, ao mesmo tempo, a divertir-se".

Já não é nova nestas andanças, sendo madrinha da marcha "há alguns anos". Apesar de reconhecer o trabalho que as coreografias dão, é com gosto que passa os seus serões diários nos ensaios.

"Há dois tipos de padrinhos, os que entram, dizem adeus e dão o seu apoio. E há aqueles, como eu e o Madjer, que dançamos e cantamos e temos de vir aos ensaios", disse a apresentadora, reconhecendo que um dos "grandes desgostos" que teve foi o facto de estar parada dois anos, devido à pandemia de covid-19, e não sair para a rua a desfilar.

Orgulhoso do convite para padrinho, Madjer reconheceu ser "mais fácil jogar à bola do que marchar", embora admita que teve de "treinar muito", tanto para uma coisa como para outra.

"Temos tudo para ser campeões. A fasquia está muito elevada. Eles têm uma entrega, assim como nós, para nada falhar. Queremos estar ensaiadíssimos com os marchantes, que já são batidíssimos nestas andanças", afirmou, frisando que é com "muito orgulho e brio" que está a defender a marcha do Alto do Pina.

Apesar de ser angolano e morar na margem Sul, Bruno Vidal vive as marchas populares de Lisboa com o verdadeiro espírito bairrista desde 2015, altura em que chegou ao Alto do Pina a convite de um amigo.

"Era bailarino há mais de 25 anos e nunca tinha feito marchas", disse à Lusa, explicando que é "viver com amor" o que sente ao estar à frente de uma marcha, que foi das primeiras a participar nas Marchas Populares de Lisboa, em 1932.

"É viver com amor, com paixão, viver com muita responsabilidade. É o Alto do Pina, uma das marchas pioneiras, já para não falar que é campeão em título e que, graças a Deus, o foi comigo em 2019", disse, reconhecendo a responsabilidade de voltar a pôr estes marchantes "maravilhosos" vestidos com uma t-shirt 'Alto do Pina campeão em 2022'.

Bruno Vidal lembrou que o facto de as marchas não terem saído dois anos seguidos para a rua "tirou o pão da boca" a muitos dos seus marchantes, que há 25 anos "ininterruptamente" defendiam as cores do bairro.

"Quem não conhece Lisboa não sabe que é vivido com muita intensidade. Até me arrepio só de falar. E essa é a responsabilidade acrescida que eu tenho. São pessoas que deixam famílias, filhos, os maridos, alguns metem férias de propósito para fazerem isto", salientou, grantindo estar a dar o seu melhor para conseguir que os marchantes deem tambem o seu melhor e consigasm revalidar o título de campeões.

Em relação às coreografias, tema e figurinos, nada foi aproveitado do que estava planeado para sair à rua em 2020, tendo havido uma reestruturação.

Bruno Vidal lembra que "não se pode passar por cima de dois anos e do que aconteceu no mundo" e que o papel das marchas também deve ser "contar em história" isso mesmo.

Dos primeiros ensaios em que todos frisavam como "era bom estar de volta", agora a responsabilidade "começa a apertar um bocadinho", contou o ensaiador, que vê muitas vezes o semblante dos marchantes nestes quase três meses de ensaios a ficar "mais pesado".

Esse semblante, contudo, deve ser "transformado em garra" para ficarem com "mais vontade de brilhar e fazer o nome do Alto do Pina chegar mais alto".

Marco Campos é um dos marchantes mais antigos, com 33 anos de experiência. É também o presidente do Ginásio do Alto do Pina, responsável pela marcha. Disse à Lusa que a sua vida é em torno do bairro, das marchas e do clube, reconhecendo que sofreu mais nestes dois anos, "sem sair para desfilar, do que propriamente com a própria doença, quando apanhou covid-19".

"Isto é a nossa segunda casa, senão mesmo a primeira para mim, que estou cá todos os dias. Já não passo sem o clube, sem a marcha. Não haver marcha, chegar àquela data e não haver aquela euforia que durante o ano andamos à procura foi um sofrimento muito grande", desabafou Marco Campos.

A provar que a vida do bairro, do clube, se confunde com a família está o facto de uma das suas filhas, Nicole, de 14 anos, estar este ano a estrear-se na marcha dos mais velhos, depois de anos na marcha infantil dos "Alto Pininhas".

Nem o facto de ter de se levantar cedo para ir para a escola depois de ensaiar todas as noites até bem tarde demovem a mais jovem marchante, confessando que o faz por gosto e como tal, não se importa.

Apesar de a pandemia não ter terminado e de o perigo de contágios fazer baixas no grupo, Bruno Vidal mostrou-se confiante com o facto de as regras da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), organizadora das marchas, não terem mudado: continuam a ser 48 marchantes, 24 mulheres, 24 homens e um par suplente.

"Acho que faz falta o amor, faz falta isto para a nossa sanidade mental. Temos de nos juntar e voltar a abraçar-nos. A pandemia conseguimos passar, mas [ficar sem] os afetos não conseguimos, fica marcado para a vida toda. [As marchas] fazem falta, a Portugal, à cidade de Lisboa e ao meu bairro", disse Bruno Vidal.

As Festas de Lisboa tiveram início sábado com um concerto de Tito Paris, depois de dois anos de paragem forçada devido à pandemia de covid-19, com as marchas a descer a Avenida da Liberdade na noite do padroeiro da cidade, de 12 para 13 de junho.

Leia Também: Marchas. 'Campo de Ourique, Arraiais, Fado e outras coisas tais'

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