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Envelhecer como cidadão de pleno direito deve ser novo paradigma

O modelo de lares para idosos está obsoleto e é necessário apostar em cuidados que privilegiem a autonomia, defendem especialistas, que realçam o papel da escola numa mudança geracional que olhe para os mais velhos "como iguais".

Envelhecer como cidadão de pleno direito deve ser novo paradigma

Para José Carreira, mestre em Trabalho Social e pós-graduado em Direito do Envelhecimento e fundador do projeto Envelhecer, é urgente atualizar o modelo obsoleto das estruturas residenciais para idosos, os lares, e criar um novo modelo de cuidados, integrados e individualizados.

"Embora pareça uma utopia, temos de criar um espaço-casa dentro destas organizações. Dar a cada pessoa o seu espaço, intimidade e autonomia, e permitir que continue o seu projeto de vida", defende o fundador do projeto Envelhecer, que promove um envelhecimento ativo, feliz e saudável.

Além da transformação institucional, defende que é necessário um "novo pacto comunitário, intergeracional" em que reconhecemos e valorizamos os mais idosos como iguais e parte da mesma comunidade.

José Carreira calcula que a mudança poderá começar nas escolas, para que a próxima geração tenha já um novo olhar sobre as pessoas mais velhas, num combate à discriminação.

"Ao atingir a idade da reforma, as pessoas não passam, como que por magia, a estar na prateleira dos inúteis da sociedade. A solução também não é uma intervenção paternalista. O que as pessoas mais velhas precisam é de ser vistas como cidadãs de pleno direito, respeitadas como tal", afirmou José Carreira.

O especialista observa que até no contexto da atual pandemia de covid-19 há um tratamento que parece apontar para a discriminação dos idosos: "O número de mortes na pandemia é uma brutalidade, e parece que o normalizámos. No início ouvíamos "dez, vinte óbitos" e arrepiávamo-nos. Agora são 200 e parece não passar de um número. Só quando morre alguém com 40 anos é que percebemos que afinal também nos afeta, afinal também morremos", declarou.

Óscar Ribeiro, investigador nas áreas da psicologia e geriatria, e coordenador do AgeingC do CINTESIS -- Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, também concorda com a urgência da reestruturação das respostas institucionais e da valorização de quem trabalha com os mais idosos.

No entanto, sublinha a importância da família, e do tempo que a família necessita, para uma inclusão bem-sucedida dos idosos e defende que são a pobreza e a falta de suporte familiar os fatores agravantes da marginalização dos mais velhos.

"Estamos a um ritmo frenético, o tempo para interagir com os nossos pais e avós é cada vez menor. Exigimos estruturas de apoio para a população mais velha quando não somos capazes de as providenciar dentro de casa. Temos de repensar que futuro queremos para os nossos velhos, e para nós enquanto velhos", disse o investigador e psicólogo.

Os centros de dia, uma resposta comum para a ocupação do quotidiano desta população, antes vistos como centros de convívio, são hoje a "antecâmara de uma possível institucionalização, associada às instituições de longa permanência -- os lares".

Numa perspetiva de contrariar a institucionalização como solução dominante, José Carreira entende que o apoio domiciliário deverá ir além dos cuidados mais básicos de saúde e higiene, e incluir o apoio psicossocial, para que as pessoas possam ficar o máximo tempo possível no seu domicílio.

"Os recursos são escassos e continuamos a olhar para as pessoas mais velhas como um custo, e não como um investimento", disse.

Se nada mudar, e numa sociedade com uma pirâmide etária invertida, a falta de profissionais disponíveis para cuidar de quem precisa será cada vez maior, mesmo após a pandemia.

"Quem é que vai querer fazer carreira de auxiliar num lar? Os salários são baixos, a responsabilidade é brutal, os riscos são enormes, e há uma grande carga emocional e física", argumentou José Carreira.

O índice de envelhecimento, que contabiliza o número de pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 pessoas menores de 15 anos, disparou nas últimas décadas: em 1961 era de 27,5%, crescendo para os 161,3% em 2019, o que se traduz num país com mais idosos do que crianças e jovens, de acordo com dados da Pordata.

Os dados mostram ainda que Portugal piorou no índice de sustentabilidade potencial, definido pela relação entre a população em idade ativa e a população idosa. Em 1961 a relação era de quase um idoso para cada oito pessoas em idade ativa. Em 2019 passou para um idoso para cada três pessoas em idade ativa.

A 14 de dezembro, a Organização das Nações Unidas proclamou a Década do Envelhecimento Saudável, de 2021 a 2030.

"Penso que a principal condição para o envelhecimento ativo, saudável e feliz, seja a pessoa continuar a sentir-se incluída. Sentir que é importante junto de quem gosta e uma mais valia para a comunidade a que pertence", afirma José Carreira.

Para que Portugal cumpra as metas da Década, dificultadas pela pandemia, como a aposta na investigação sobre envelhecimento saudável e a garantia dos recursos humanos necessários para um sistema de cuidados integrados, José Carreira deixa o apelo para que o Governo promova fóruns de debate com especialistas da área da saúde, da área social, e da investigação.

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