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Mais de três mil pessoas vivem em bairro clandestino em Almada

Foi há cerca de 40 anos que o Segundo Torrão se começou a formar ilegalmente.

Mais de três mil pessoas vivem em bairro clandestino em Almada
Notícias ao Minuto

06:00 - 19/08/18 por Lusa

País Habitação

Perto da praia de São João e com vista privilegiada para Lisboa, o Segundo Torrão, na freguesia da Trafaria, em Almada, distrito de Setúbal, é um bairro clandestino onde mais de três mil pessoas vivem em condições precárias.

Foi há cerca de 40 anos que o Segundo Torrão se começou a formar ilegalmente, uma condição que se mantém, assim como as carências habitacionais, a falta de luz, de esgotos ou de limpeza nas ruas.

"É surreal, porque o bairro tem características de uma favela, não tem infraestruturas, é um bairro de génese ilegal, não tem praticamente limpeza camarária, só temos dois ou três pontos de recolha de caixotes do lixo para uma zona gigante, com quase três mil pessoas. Estamos a falar de 500 fogos precários", contou à agência Lusa Alexandra Leal, coordenadora da Associação Cova do Mar e do ATL gratuito Fábrica dos Sonhos.

Ainda assim, o presidente da Associação de Moradores do Bairro do Segundo Torrão, Paulo Silva, mostra-se orgulhoso pelo seu bairro e não deixa de referir que as condições têm vindo a melhorar.

Há, no entanto, uma pergunta que se impõe: porque é que continua clandestino?

"Sendo um bairro ilegal, não há forma, porque isto tem um dono e ainda por cima são terrenos de proteção ambiental e não se pode legalizar", explicou Paulo Silva.

Alexandra Leal referiu, por sua vez: "A informação que tenho, que aprendi no ano passado com o executivo anterior [da Câmara Municipal de Almada], é que não é um bairro que possa ser transformado em génese legal, tem mesmo que ser realojado".

A vereadora da Intervenção Social e da Habitação, Teodolinda Silveira, confirmou à Lusa que os moradores terão de ser realojados.

"O Segundo Torrão é uma das nossas grandes preocupações e a câmara tem tentado ajudar a melhorar as condições de vida. É um bairro clandestino que está implantado sobre terrenos que pertencem à administração do Porto de Lisboa e a privados. Não é um terreno onde se possa construir. O que temos de fazer é começar a resolver aqueles problemas aos poucos e arranjar forma de realojar", informou.

Maria Almada, com 53 anos, mora no bairro desde 2009, numa casa é pequena onde grande parte das paredes são feitas em contraplacado, o que não ajuda a um conforto térmico. As suas queixas focam-se, porém, na eletricidade

"Ficamos sem luz muitas vezes, às vezes mais de 15 dias. Eu gostava de mais luz, porque uma pessoa no escuro é muito complicado", disse.

Segundo Paulo Silva, este é um problema que está a ser resolvido.

"Temos uma ligação entre a EDP e a câmara municipal para pormos a eletricidade em todas as casas como deve ser. Tivemos umas falhas de energia, principalmente no inverno, mas estamos a tentar ultrapassar essa situação", indicou.

António Silva, também morador, mantém-se descontente: "Primeiro que tudo, a luz, que não está a andar nada. Isto parou, estagnou outra vez. Depois as condições da água, que só fizeram de um lado e o meio do bairro continuou sem água. Foi só para certas pessoas".

No seu entender, o principal problema é a acumulação de lixo, pelo qual responsabiliza autarquia e alguns moradores.

"Não se vê a recolha do lixo, vem de vez em quando um camião e as pessoas em vez de meterem o saco, mandam para o lado. Em vez de terem cinco ou seis contentores, só têm três", frisou.

Sobre a limpeza das ruas, o presidente da associação de moradores admitiu que os serviços "demoram alguns dias" e que às vezes se acumula muito lixo. "Mas quando insistimos um bocado e pedimos um SOS a câmara responde, assim como a Junta de Freguesia da Trafaria", contrapôs.

São poucos os postes de eletricidade. Os que existem são em madeira e estão ligados por um grande emaranhado de cabos, que, quando anoitece, não são suficientes para iluminar as ruas.

"Estamos a falar de um bairro que não tem iluminação nenhuma à noite, portanto, ficam becos autênticos", frisou Alexandra Leal.

A coordenadora da Fábrica dos Sonhos assume um importante papel na vida de cerca de 50 crianças que, de terça-feira a sábado, podem brincar e aprender no ATL -- o único na zona e que se apresenta como "espaço comunitário".

A responsável contacta diariamente com os problemas do bairro e alertou para o perigo da mata que o cerca.

"A mata é também um dos grandes perigos que temos aqui e que nos tira muitas vezes o sono, que é: será que [um fogo] pega uma árvore e vamos todos? Porque não há forma de sair e é difícil que os bombeiros consigam cá chegar se for numa casa dentro do bairro. Como é que um bombeiro vai lá chegar? É muito complicado", explicou, referindo-se às ruas muito estreitas, onde só consegue passar uma pessoa.

Na quarta-feira de agosto em que a Lusa visitou o bairro, as crianças da Fábrica dos Sonhos encontravam-se radiantes por receberem mochilas e material escolar para o novo ano letivo.

Já os adultos dividiam-se entre os mais revoltados com as condições do bairro e os que, como Maria Almada, têm esperança num futuro melhor: "Nós aprendemos a desenrascar-nos, é assim a vida".

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