Votos de domingo em Itália e Áustria podem criar efeito dominó na Europa

Os resultados do referendo em Itália e das eleições na Áustria podem provocar um "efeito dominó" na UE, considera uma especialista em geopolítica europeia, que acredita haver razões para a Europa estar "muito preocupada" com o crescimento do populismo.

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Mundo Analista

Numa entrevista à Lusa em vésperas de italianos e austríacos irem às urnas, em ambos os casos no domingo, Shada Islam, diretora de geopolítica do "think tank" Friends of Europe, com sede em Bruxelas, aponta que o fenómeno do populismo não é apenas europeu, sendo antes "uma doença que se está a espalhar mundo rapidamente pelo mundo ocidental", como o demonstra o triunfo de Donald Trump nos Estados Unidos, mas pode efetivamente ganhar maiores dimensões na UE "se Matteo Renzi perder Itália e a extrema-direita ganhar na Áustria".

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"Pode criar-se uma bola de neve. E sim, devemos estar muito preocupados e não limitarmo-nos a assistir sentados ao que se está a passar", diz a analista, que defende que os líderes da UE deveriam "combater o fogo com fogo" e dirigir-se de forma convincente à população - que acredita ser maioritária na Europa - que não é xenófoba mas que necessita de ouvir palavras "tranquilizadoras e inspiradoras".

Com o mundo a viver "uma era de grandes incertezas, guerras, terrorismo, globalização e a crise de migrações e refugiados, que está a deixar muita gente nervosa", Shada Islam responsabiliza a atual liderança política europeia pela ausência de respostas eficazes a "uma narrativa muito tóxica, assente no ódio, que apresenta soluções fáceis, e falsas, para questões muito complexas".

"Penso que os políticos que temos atualmente não estão a contrariar esse discurso, mas sim a amplificá-lo, até porque há votos a disputar e eleições a ganhar", diz, observando que o fenómeno provavelmente começou em França com o antigo Presidente Nicolas Sarkozy, "que adotou uma agenda populista para tentar combater Marine Le Pen", cuja popularidade está novamente em alta em França, a poucos meses das eleições presidenciais (abril de 2017).

Para esta analista, o que a Europa necessitava era de uma classe política rejuvenescida cujo discurso não seja baseado no medo, até porque o sistema político atual e os políticos que estão no poder "ainda estão presos num paradigma do século XX" e visivelmente a perder a batalha das redes sociais, por exemplo.

Também a nível da UE, onde, sublinha, seria mais fácil adotar posições anti-populistas já que os responsáveis da União "não têm o peso de eleições", a mensagem não passa porque é "demasiado tecnocrata", permitindo assim a expansão do movimento populista, que se tornou "uma verdadeira plataforma internacional".

Apontando que os populistas são por norma "muito xenófobos, mas também anti-UE e anti-globalização", a responsável do Friends of Europe observa ainda que o aumento da sua popularidade na Europa representa para o autodenominado Estado Islâmico a vitória que estes radicais não conseguem alcançar no campo de batalha.

"Não é segredo que Daesh tem uma agenda muito específica. Como não podem vencer no campo de batalha, estão apostados em dividir a sociedade ocidental, marginalizando e estigmatizando os muçulmanos no ocidente, e desse ponto de vista estão sem dúvida a vencer essa batalha, porque quanto maior estigmatização houver, mais poder dá ao ISIS", adverte.

A outra "tragédia" que receia vir a resultar de uma eventual subida de forças de extrema-direita ao poder nas sociedades ocidentais é a nível económico, pois, argumenta, "eles não apresentam verdadeiras soluções", como é o caso dos defensores do Brexit (a saída do Reino Unido da UE).

"Sim, estou pessimista, porque as pessoas parecem estar a caminhar a dormir para o desastre e não vejo ninguém ter a força para dizer 'vamos combater o fogo com fogo'. A única líder que vejo esboçar uma reação é (a chanceler alemã) Angela Merkel, mas também ela está sob pressão no seu país e no seu partido", diz.

Como nota positiva e de esperança, Shada Islam confia na sensatez dos cidadãos, até porque "o problema reside na crise de liderança política, não nos povos, e eles é que têm que acordar" e erguer-se, à imagem do que fizeram grandes cidades como Londres e Nova Iorque, que se mobilizaram para defender os seus valores após os triunfos do Brexit e de Trump, respetivamente, aponta.

 

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