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Guiné-Bissau vive "época perigosíssima" de grande divisão política

A historiadora luso-guineense Joacine Katar Moreira alerta que a Guiné-Bissau vive hoje uma "época perigosíssima", em que a sociedade está dividida "como nunca" por questões políticas.

Guiné-Bissau vive "época perigosíssima" de grande divisão política

"Estamos numa época perigosíssima, em que há uma divisão da sociedade guineense como eu nunca assisti", disse a investigadora, em entrevista à Lusa, quando a Guiné-Bissau celebra 48 anos de independência.

Autora do livro "Matchundadi: Género, Performance e Violência Política na Guiné-Bissau", cuja segunda edição foi recentemente lançada, Joacine Katar Moreira diz que os guineenses estão divididos, com famílias desavindas e "irmãos que não conseguem comunicar", independentemente de viverem ou não no país.

"Tenho imenso receio de que entremos num buraco sem saída ou que -- porque sou otimista e não acredito que não haja saída - para sairmos dali vamos magoar-nos uns aos outros como nunca nos magoámos".

Para a historiadora e ativista, ex-deputada na Assembleia da República Portuguesa, vive-se atualmente "um retrocesso politico" na Guiné-Bissau.

"Deveríamos estar com óticas renovadas do século XXI e não com óticas do início do século XX", lamentou Katar Moreira, para quem a atual elite politica guineense "não é refrescante em termos das ideias, da ótica para o país", o que se nota, nomeadamente, na ausência de políticas para a juventude, que corresponde a mais de metade da população.

Recordando as eleições legislativas de 2014 como um período de "muita esperança", em que os guineenses esperavam uma mudança no rumo da política guineense, a historiadora vê o momento atual como "uma decapitação de todos os desejos" e lamenta que o povo guineense ande há antes entre "ilusão e desilusão".

Questionada sobre as eleições legislativas antecipadas marcadas pelo Presidente guineense para 18 de dezembro, Katar Moreira disse que os guineenses "não têm receio de novas eleições", porque vão a votos "de dois em dois anos há mais de 40 anos".

"O que está em causa é saber se essas eleições irão ser eleições transparentes e justas. E isso, eu não sei", afirmou.

A historiadora questionou ainda o papel dos observadores internacionais, que "consideram todas as eleições justas e transparentes".

"Estou a falar das eleições gerais em África, em que a comunidade internacional considera que houve eleições transparentes e justas, o que às vezes impossibilita a exigência de uma recontagem dos votos, limita a reivindicação de algo", alertou.

Katar Moreira alertou ainda ser uma falácia que as eleições sejam uma solução para a instabilidade política.

"A instabilidade política não se resolve com eleições. A violência política não se resolve com eleições. O autoritarismo não se resolve com eleições. Porquê? Porque normalmente é uma época de grande tensão", disse a investigadora, lembrando que isto não acontece só em África, mas também no resto do mundo.

Exemplificou com as campanhas eleitorais nos Estados Unidos, em que "qualquer coisa é usada. Quem tem mais capacidade de meter o outro para baixo, usa a sua capacidade para pôr o outro lá para baixo", seja acusações de corrupção, orientação sexual, casos familiares.

"As épocas de eleições não são épocas de paz em nenhuma parte do mundo".

O caso da Guiné-Bissau "é paradigmático", porque um dos elementos da constituição de um sistema democrático é o multipartidarismo, que existe, outro é a rotatividade política, que não falta.

"Nós correspondemos a todos os preceitos de um sistema democrático, exceto a parte da separação dos poderes, porque oficialmente existe, mas que na prática o poder político sobrepõe-se ao legislativo e ao judicial".

O Presidente guineense, Umaro Sissoco Embaló, dissolveu a Assembleia Nacional Popular no passado mês de maio, formou um Governo de iniciativa presidencial e marcou eleições legislativas antecipadas para 18 de dezembro.

A oposição guineense e organizações não-governamentais têm acusado as autoridades da Guiné-Bissau de perseguição política, detenção, rapto e espancamento de opositores, assim como de ataques à liberdade de imprensa.

Leia Também: Instabilidade na Guiné-Bissau deve-se a "cultura de masculinidade"

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