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Portugueses deixam Caracas para tratamento médico e reencontro familiar

Reencontrar-se com a família, fazer tratamento médico e viver em Portugal foram alguns motivos apontados por alguns dos 264 portugueses repatriados da Venezuela para regressarem ao país no voo de sexta-feira organizado por Lisboa.

Portugueses deixam Caracas para tratamento médico e reencontro familiar

Para os lusos, Portugal representa segurança e estabilidade, ao contrário do país de acolhimento, a Venezuela, que continuam a "amar", mas onde lhes falta a "esperança".

Há 65 anos, Francisco Ferreira, natural do Campanário, Madeira, emigrou para a Venezuela onde, dois anos depois quase perdia a vida nos acontecimentos que levaram à queda da ditadura de Marco Pérez Jiménez (presidiu o país entre 1953 e 1958) e hoje acredita que o melhor é regressar.

"Fui comerciante no Mercado de Coche [o maior de Caracas] durante 45 anos, mas há cinco anos reformei-me porque o mercado [economicamente] ia muito mal", explica à agência Lusa.

Com a bagagem na mão, desabafa: "agora a necessidade obriga-me a emigrar para o mesmo sítio de onde eu vim há 65 anos. Se é para morrer de fome na Venezuela, eu morro em Portugal". E recorda: "em 1967 quando derrocaram Pérez Jiménez quase me mataram e graças a Deus estou vivo por um milagre".

"Eu amo muito a Venezuela, é o país mais belo do mundo. A sua gente é boa. Mas chegaram uns criminosos a mandar, que nunca mais deixarão o poder. Eu não tenho esperança e é por isso que vou embora", frisa.

José Adelino dos Santos Marques, comerciante, era outro português ansioso por chegar a Portugal.

"Sou comerciante e estou aqui porque a covid-19 prejudicou-nos a todos. Vou porque consegui este voo. Tive um acidente, no dia 14 de maio. Uns funcionários do Governo chocaram forte contra o meu carro. Estou mal (...), não posso caminhar e vou a Portugal me operar", disse.

Natural da Maia, Porto, agradece ao Governo português por este ter organizado o voo.

"Não podia continuar aqui porque ninguém se pode operar aqui, os hospitais não servem e as clínicas tampouco. E agora com a covid-19 na Venezuela isto é um perigo. Em Portugal, pelo que temos visto está um pouco melhor", disse.

Sónia de Pita, doméstica, viajou para a Venezuela, em novembro de 2019 e previa regressar em maio, mas não pôde devido à pandemia.

Na Venezuela, afirma, consegue-se muito poucos remédios, mas alegra-se porque "trouxe quase todos os medicamentos de lá [de Portugal], e lá pagava uma 'tontería' [valor simbólico] pelos medicamentos", explica à Agência Lusa.

Agradece à embaixada, à agência de viagens e diz que "tudo caminhou bem, com uma pandemia, é muito o que se conseguiu fazer".

O marido, Jorge Pita, comerciante, meteu-se na conversa e explica que casaram em 1977, que comprou casa há dois anos e que decidiu ir viver definitivamente para Portugal.

"Na Madeira, há muita segurança com relação à covid-19. O funcionamento hospitalar é uma maravilha. Muita gente que vive em Portugal não se dá de conta disso e alguns teriam que viajar ao estrangeiro para dar-se de conta de que aquilo [lá] é bom", disse.

Para a Madeira vai também Arturo Calderón, um venezuelano, radicado há três anos naquela região autónoma, que em fevereiro viajou para a Venezuela por motivos comerciais e "foi apanhado pela pandemia".

"Graças a este voo, estou saindo para poder ver a minha família de novo, para nos reencontrarmos. Conheço muitas pessoas que estão presas aqui e não podem sair, porque não há voos, todo o espaço aéreo está fechado", disse este comerciante.

Calderón, agradece à agência de viagens, ao Centro Português de Caracas e ao consulado "que deu uma mão para obter todas as autorizações e poder chegar ao voo".

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