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Dia Mundial do Cancro do Pulmão. "Esta doença não é sentença de morte"

Quem o diz é o cirurgião Paulo Calvinho, que coordena a unidade de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, que defende a implementação, em Portugal, de um rastreio ao cancro do pulmão.

Dia Mundial do Cancro do Pulmão. "Esta doença não é sentença de morte"
Notícias ao Minuto

09:35 - 01/08/23 por Ana Rita Rebelo

Lifestyle Entrevista

Ano após ano, o cancro do pulmão continua a ser a doença oncológica que mais vítimas mortais faz em Portugal. São cerca de 4.800 mortes por cada 5.300 casos que surgem anualmente. A elevada mortalidade associada a esta patologia levou já muitos países da Europa a avançarem com rastreios, ou projetos-piloto, de modo a antecipar o diagnóstico e, assim, aumentar as hipóteses de sobrevivência dos doentes. Já Portugal, um dos países da União Europeia que menos gasta em cuidados com o cancro, segundo dados da OCDE, ainda não está a dar nenhum passo nesse sentido.

Em entrevista ao Lifestyle ao Minuto, no Dia Mundial do Cancro do Pulmão, o cirurgião Paulo Calvinho, que coordena a unidade de Cirurgia Cardiotorácica do Hospital de Santa Marta, em Lisboa, frisa que a elevada mortalidade desta doença se deve, sobretudo, ao diagnóstico tardio. Apesar de já ter sido anunciado pela tutela, "a logística necessária para a realização de um rastreio e o acompanhamento destes doentes pós-rastreio está longe de estar disponível", admite ainda.

Notícias ao Minuto © Paulo Calvinho

Ainda assim, considera que "caminhamos no sentido de transformar o cancro do pulmão se não numa doença curável, pelo menos numa patologia crónica". Enaltece também a "investigação epidemiológica que tem sido feita no sentido de validar programas de deteção precoce/rastreio de forma a que possamos inverter o número de doentes com doença avançada vs doença precoce". "A grande dificuldade é o decisor acompanhar esta evolução e aprovar as novas armas terapêuticas."

Quais as diferenças entre cancro do pulmão e metástases pulmonares?

Cancro do pulmão é um tumor maligno que tem como origem as células do próprio pulmão. As metástases pulmonares são tumores malignos com origem em outros órgãos e que migraram e se fixaram no pulmão. Estas são doenças muito diferentes e com tratamentos igualmente desiguais.

Os homens continuam a ter mais cancro de pulmão que as mulheres e esta doença é mais prevalente depois dos 50/55 anos de idade

Por que razão é que o cancro do pulmão ainda é um dos que mais mata, tanto em Portugal como no mundo? 

Esta doença não é sentença de morte. E cada vez mais, mesmo em fases avançadas da doença, temos os chamados 'longos sobreviventes'. Este facto deve-se à rápida evolução do conhecimento da biologia tumoral e ao desenvolvimento de novas armas terapêuticas com ganhos consideráveis, tanto na sobrevida como na qualidade de vida com a doença. Mas, mesmo assim, a mortalidade relacionada com o cancro do pulmão continua elevada, sobretudo devido ao diagnóstico tardio da doença. Na sua fase inicial, esta doença é praticamente assintomática, sendo que a sua deteção em estádios precoces é, normalmente, acidental. Apenas 30% dos doentes que têm cancro do pulmão acabam por receber um diagnóstico numa fase precoce.

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Quantos casos existem, atualmente, em Portugal?

Em 2018, foram reportados 4424 novos casos de cancro da traqueia e brônquios em Portugal. Já a Organização Mundial de Saúde estima que, em 2020, tenham sido diagnosticados 5284 novos casos de cancro do pulmão em Portugal, o que representa um aumento de cerca de 20%.

E quais as previsões para os próximos anos? 

Que continue a aumentar de forma significativa. Aliás, os dados publicados no Plano Nacional de Saúde 2021-2030 reforçam esta ideia e salientam-na em comparação com as outras causas de mortalidade. Na análise da variação das taxas de mortalidade prematura (idade inferior a 75 anos), dos triénios 2007-2009 e 2017-2019, o tumor maligno da laringe, traqueia, brônquios e pulmão passa para o primeiro lugar de todas as neoplasias. No seu global, nas taxas de mortalidade padronizadas pela idade entre os mesmos triénios, existe uma variação positiva no sexo feminino de 29,1% para todas as idades e de 2,7% no sexo masculino. Apesar desta subida no género feminino, os homens continuam a ter mais cancro de pulmão que as mulheres e esta doença é mais prevalente depois dos 50/55 anos de idade.

Como é que podemos salvar mais vidas? De que forma seria possível diagnosticar mais precocemente o cancro do pulmão? 

Esta doença aparece de forma 'silenciosa'. Precisamos de encontrar estratégias para diagnosticá-la o mais precocemente possível, pois assim conseguimos aumentar as hipóteses de uma maior sobrevida. Nos estádios iniciais temos sobrevidas superiores a 90% aos cinco anos. Estas estratégias passam, primeiramente, pela prevenção. Cerca de 17% da população portuguesa era fumadora em 2019 (aproximadamente 1 700 000 portugueses em risco muito aumentado de patologia respiratória e cardiovascular). Dados recentes mostram uma inversão na tendência de diminuição do consumo de tabaco, com cerca de 20% dos jovens portugueses a fumarem diariamente. Em 2021, Portugal desceu da 20.ª para a 30.ª posição do Tobacco Control Scale, havendo necessidade de implementar medidas públicas de controlo do tabagismo, como a obrigatoriedade de espaços públicos livres de tabaco. Esta recomendação já tem tradução legislativa com a nova alteração à lei de tabaco de maio deste ano. A prevenção é um trabalho contínuo e que deverá ser intensificado. Está longe de estar terminado.

Existem vários estudos a defenderem o rastreio do cancro do pulmão. Um dos mais populares é o ensaio 'NELSON

Quais são os sintomas que devem fazer alguém procurar um médico?

É essencial a identificação de sinais de alerta, principalmente em grupos de risco, como fumadores e doentes com doenças pulmonares de base. Estes sinais - como alterações no padrão de tosse, um cansaço mais intenso que o habitual, expetoração com sangue, perda de peso, dores de cabeça, dores ósseas ou outro sintoma de novo e inespecífico - devem ser reportados ao médico. Igualmente importante é a deteção precoce e rastreio. Por definição, o rastreio tem uma população de risco como alvo. O rastreio para o cancro do pulmão implica a realização de uma TAC [tomografia computadorizada] de baixa dosagem e a capacidade de análise destes exames de forma que o diagnóstico seja o mais correto possível.

Considera que é essencial termos um rastreio nacional do cancro do pulmão?

Existem vários estudos a defenderem o rastreio do cancro do pulmão. Um dos mais populares é o ensaio 'NELSON', sendo que a necessidade da validação da sua pertinência a nível populacional é defendida por alguns.

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O que está a travar a sua implementação?

A logística necessária para a realização de um rastreio e o acompanhamento destes doentes pós-rastreio está longe de estar disponível, mas certamente o debate público nesta área deverá ser considerado, já que o cancro do pulmão é uma das principais causas de morte precoce no país. A deteção precoce é um outro conceito que não tem como alvo a população, mas sim todos aqueles que, com fatores de risco, procurem ajuda médica. Falamos, por exemplo, dos fumadores que procurem a consulta de desabituação tabágica e que lhes possa ser oferecida a possibilidade de fazerem uma TAC, aumentando assim a probabilidade de detetar precocemente um cancro do pulmão (90% dos doentes com cancros de pulmão foram ou são fumadores). A prevenção e o rastreio/deteção precoce não devem ser excludentes na sua implementação, com o argumento de que o investimento numa área retira a oportunidade de investimento na outra. Se pensarmos bem, a oportunidade que se dá de cuidados médicos poderá, por si só, ser um momento de prevenção. Estas duas estratégias deverão ser simbióticas na sua aplicação de forma a aumentar o número de doentes diagnosticados precocemente e, simultaneamente, diminuir os fatores de risco, reduzindo assim também o número de doentes.

Quais os principais desafios que esta doença coloca? 

Claramente existem desafios de ordem técnico-científica, relacionados com a dificuldade em chegar-se a um diagnóstico correto, em saber em que estádio de propagação está a doença, a identificação correta das alterações biológicas daquele tumor em específico, o tratamento ideal para o doente com aquela doença e a descoberta da cura. Na realidade, como fazer o melhor possível por aquele doente, agredindo-o o menos possível. Este é o grande desafio técnico-científico. Depois, temos os desafios da pólis.

Podemos fazer a diferença se estabelecermos um diálogo sério e competente, integrando todos os intervenientes centrados na jornada no doente

No que toca ao acesso a tratamentos, qual a situação de Portugal?

Cada um de nós, profissionais de saúde, só consegue tratar um doente de cada vez, mas como responsáveis temos de alertar para a necessidade da criação de condições para que, atempadamente, se possa tratar todos aqueles que nos procuram. Nós sabemos já os números. Basta perceber o que é que fica mais caro. O cancro do pulmão é uma doença evolutiva que não espera por vagas para que sejam feitos exames (são precisos muitos para se poder oferecer o tratamento certo) e não espera que haja vaga nos blocos operatórios para as suas cirurgias. Fica mais caro tratar na fase precoce estes doentes, que não precisam de tratamentos dispendiosos de quimioterapia, ou esperar que a doença progrida, enquanto aguardam vaga, com necessidade de tratamentos sistémicos? Os tempos da marcha diagnóstica, estadiamento e de oferta terapêutica são muito dilatados em todos os centros nacionais, sem exceção. Acredito que a concentração integrada e em rede dos recursos para o manuseamento dos doentes com cancro do pulmão, privilegiando o contacto com centros de alto volume, em vez da sua dispersão, possa permitir uma maior eficiência na gestão desta doença. Talvez seja este o grande desafio do momento.

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Como é decidido o tratamento?

A neoplasia maligna primária do pulmão é uma doença complexa e cuja abordagem mostra o paradigma da multidisciplinaridade. Podemos fazer a diferença se estabelecermos um diálogo sério e competente, integrando todos os intervenientes centrados na jornada no doente. De uma forma precoce e integrada, um doente com cancro de pulmão precisa de um apoio multidisciplinar que não passa só pelo tratamento da sua neoplasia. Defendemos o apoio social e psicológico a todos, em fase precoce ou avançada da doença.

Sabe-se que o tabaco é um dos principais fatores de risco do cancro do pulmão. Todavia, não é o único. Quais são os restantes?

Claramente o tabaco está no topo da lista, mesmo que se trate de tabagismo passivo. Dito isto, as grandes metrópoles, com elevados índices de poluição e má qualidade do ar, têm uma incidência aumentada de cancro do pulmão. Mas sabemos também que existem famílias com maior probabilidade de desenvolverem esta doença, uma vez que pode existir um componente genético associado ao cancro do pulmão. Conhecemos já alterações genéticas associadas, mas a transmissão ainda não está categoricamente demonstrada. Estas famílias também vivem nos mesmos sítios e partilham os mesmo hábitos, por isso a componente genética fica difícil de demonstrar.

Que avanços têm sido feitos na investigação do cancro do pulmão?

As grandes inovações prendem-se com a manipulação imunológica do tumor em fases mais precoces da doença, bem como o uso de terapia personalizada às alterações genéticas também num momento mais precoce da doença. Com estas novas armas terapêuticas, a própria cirurgia tem um papel mais ativo, mesmo nos estádios em que anteriormente não haveria benefício para a intervenção cirúrgica. Caminhamos no sentido de transformar o cancro do pulmão se não numa doença curável, pelo menos numa patologia crónica. Por outro lado, de sublinhar a investigação epidemiológica que tem sido feita no sentido de validar programas de deteção precoce/rastreio de forma a que possamos inverter o número de doentes com doença avançada vs doença precoce. A grande dificuldade é o decisor acompanhar esta evolução e aprovar as novas armas terapêuticas.

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