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Solidão na era das redes sociais. Por que nos sentimos tão sós?

O Lifestyle ao Minuto esteve à conversa com o investigador Rui Miguel Costa, a propósito do estudo 'Solidão as Redes Sociais', feito em Portugal pelo Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida e pelo Observatório Social da Fundação La Caixa.

Solidão na era das redes sociais. Por que nos sentimos tão sós?
Notícias ao Minuto

07:34 - 20/07/23 por Ana Rita Rebelo

Lifestyle Entrevista

Num mundo cada vez mais online e em que é normal usar o Facebook, o Instagram, o Twitter, o Reddit ou o TikTok para comunicar com outras pessoas, um estudo ('Solidão nas Redes Sociais') realizado em Portugal pelo Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (ISPA) e pelo Observatório Social da Fundação La Caixa mostra que os portugueses que passam muito tempo nas redes sociais se sentem mais sozinhos. Só que os investigadores também descobriram que o sentimento de solidão mantém-se mesmo quando o tempo passado online não interfere com os contactos frente a frente. 

Então, o que está em causa? "As pessoas com mais contatos sociais online até costumam ter mais contatos cara a cara, mas ao fazerem muito uso da comunicação online têm tendência a sentir-se sós", explica o investigador Rui Miguel Costa ao Lifestyle ao Minuto.

O responsável entende que isto ocorre "porque o cérebro humano evoluiu de forma a que só sintamos plena conexão social quando os outros estão fisicamente presentes".

Se a comunicação online for muito frequente, os sentimentos de solidão e vazio amplificam-se

São os solitários que procuram as redes sociais ou são as redes sociais que os tornam solitários?

Ambas as situações são possíveis. As pessoas mais solitárias tenderão a recorrer mais às redes sociais e as redes sociais podem aumentar os sentimentos de solidão, mas não necessariamente o isolamento social. Ou seja, as redes poderão fazer os seus utilizadores sentirem-se mais sós, mesmo quando têm muitos laços sociais. O que está aqui em causa são sentimentos de solidão em pessoas que não estão solitárias. É a chamada solidão subjetiva. Na verdade, as pessoas com mais contatos sociais online até costumam ter mais contatos face a face, mas ao fazerem muito uso da comunicação online têm tendência a sentirem-se sós. Isto ocorrerá porque o cérebro humano evoluiu de forma a que só sintamos plena conexão social quando os outros estão fisicamente presentes. No fundo, a comunicação online nunca suprime completamente a necessidade de conexão social. Mais: se a comunicação online for muito frequente, os sentimentos de solidão e vazio amplificam-se. Ao tentar ultrapassar esse sentimento de vazio com mais comunicação online, gera-se um círculo vicioso.

Notícias ao Minuto© Rui Miguel Costa

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Em traços gerais, o que mostra o estudo feito pelo ISPA e pelo Observatório Social da Fundação La Caixa?

O estudo confirmou, numa amostra de cinco mil portugueses, que há uma relação entre solidão e dependência das redes sociais e que não é algo somente explicado pela insatisfação com a situação vivida com os amigos, família e na relação amorosa. É também explicada pelas comparações sociais negativas com o que os outros publicam nas redes sociais e pelo desapontamento por não se ter a atenção desejada dos outros nas redes. Uma interpretação dada por nós é que, para não se sentir só, o ser humano precisa, por um lado, de relações satisfatórias com um pequeno número de pessoas próximas e, por outro, de um sentimento de pertença a um grupo mais alargado. Tradicionalmente, isto é conseguido através de atividades culturais que promovem este sentimento de pertença a uma sociedade e permitem conhecer novas pessoas. Com as redes sociais, vem a promessa de um contacto fácil com um grupo alargado de pessoas. Só que, com alguma frequência, isto desencadeia comparações sociais negativas e deceção com a falta de mensagens positivas e tudo isto poderá causar solidão. Para além disto, mesmo que só venham mensagens positivas de apoio, a solidão não é inteiramente eliminada, uma vez que não há pessoas fisicamente presentes a transmiti-las. Ainda de acordo com o nosso estudo, a probabilidade de os sentimentos de solidão ocorrerem vai aumentando à medida que a dependência das redes sociais aumenta, independentemente do sexo e da faixa etária.

A solidão pode resultar numa série de doenças e reduz o tempo de vida

O tempo passado online interfere com o que passamos com pessoas frente a frente, fora da Internet?

Poderá interferir, mas não necessariamente. Com os smartphones podem levar-se as conexões virtuais para os encontros presenciais, só que com alguma frequência a atenção dada aos smartphones interfere com a atenção aos outros que estão ali ao lado. Isto também pode provocar dificuldades nas interações sociais e nos relacionamentos pessoais. Um uso muito frequente das redes sociais pode interferir na produtividade laboral e académica, nas atividades do dia a dia e na vida social. As redes sociais também podem servir para reduzir o stress e não pensar em problemas, mas isto não permite que as contrariedades sejam enfrentadas de forma construtiva. Atualmente, há vários estudos a demonstrarem que o uso frequente das redes sociais aumenta o risco de depressão, ansiedade, stress e solidão.

Que efeitos físicos tem a solidão?

A solidão pode resultar numa série de doenças e reduz o tempo de vida. Já existem muitos estudos a demonstrar que as pessoas que se sentem mais sós tendem, de um modo geral, a morrer mais cedo.

No seu entender, o que deve ser feito para travar o aumento da solidão, principalmente tendo em conta que as redes sociais são praticamente indispensáveis na sociedade em que vivemos, quer seja para lazer ou para trabalho?

Há uma grande margem para reduzir o uso de redes sociais e reencontrar formas de nos mantermos ocupados. Vários estudos mostram que é possível reduzir a utilização das redes com benefícios para a saúde mental e para diminuição dos sentimentos de solidão. Paralelamente, é perfeitamente fazível começarmos a dar mais importância às interações sociais face a face, tanto com pessoas mais próximas, como menos próximas, incluindo também não estar permanentemente a olhar para o smartphone quando se está a falar com alguém. É igualmente possível perceber que quando estamos sem nada para fazer não precisamos de nos ir logo agarrar ao telemóvel e que, em vez disso, podemos focar mais a atenção nos nossos pensamentos e sentimentos, nas nossas sensações corporais e no mundo à nossa volta, tudo isto sem nenhum objetivo particular em mente. Em inglês, chama-se a este processo 'mind-wandering' - poderíamos traduzir como o vaguear da mente. É algo que tem o potencial de ser benéfico para a criatividade, para o planeamento das nossas atividades, para uma maior consciência de nós mesmos, mas que é incompatível com a permanente atenção ao telemóvel.

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Há países que já têm um Ministério da Solidão. Faria sentido em Portugal?

Penso que sim. Pelo menos, uma secretaria de Estado da solidão. Aliás, isso tem sido proposto pelo diretor do Observatório da Solidão, o professor Adalberto Dias de Carvalho. A solidão é um problema em si mesmo e um problema pelos riscos que tem para a saúde.

Há investigação a mostrar que as videoconferências causam um tipo particular de cansaço e não podem substituir totalmente os encontros presenciais

Este problema tem uma dimensão muito maior do que imaginamos? Diria que a solidão é uma crise de saúde pública?

Só muito lentamente é que se tem começado a despertar para este problema, mas os confinamentos aceleraram esta consciência, ironicamente num mundo de hiperconetividade digital. Mas a ironia é só aparente, uma vez que esta hiperconetividade é uma das causas da solidão, obviamente entre muitas outras coisas, desde questões económicas à forma que as cidades estão a tomar em que a distância entre casa e locais de diversão e convívio pode ser muito grande; os próprios locais de convívio podem escassear, principalmente para pessoas mais velhas. Só que ficar em casa agarrado à televisão e à Internet não são soluções. E o problema não é somente o isolamento social de bastantes pessoas, são também os sentimentos de solidão que afetam mesmo quem tem muitos contatos sociais. É a tal solidão subjetiva que é exemplificada pela sensação de estar no meio de muita gente, mas sem sentir sintonia com ninguém. Por outro, lado o estar sozinho não implica necessariamente que nos sintamos sós. Há uma palavra pouco usada, mas que deveria ser mais: solitude. Refere-se àqueles momentos em que estamos sozinhos, mas não nos sentimos sós. Antes pelo contrário. Já há alguma investigação a mostrar que a capacidade para a solitude está associada a menos solidão, mas às vezes parece que a solitude é estigmatizada. Cultivar estes momentos de bem-estar a sós, obviamente sem esquecer os laços sociais, poderá ser uma maneira de reduzir o uso compulsivo das redes sociais e aumentar o bem-estar.

As gerações nascidas neste século vivem de forma diferente de quem sabe efetivamente a diferença entre um mundo mais online e o offline. Que efeito terão as redes sociais em quem nasceu nos últimos anos?

É difícil responder a esta questão. Os mais jovens estão mais dependentes das redes sociais e essa dependência é um fator de risco para a solidão. Por outro lado, têm fatores protetores pelo facto de que, com a juventude, é mais fácil estabelecer relações sociais. Há um grande deslumbramento com as tecnologias, por prometerem um novo mundo maravilhoso de inteligência artificial, realidade virtual e metaverso, mas que, por muitas utilidades que estas tecnologias possam ter, estarão sempre limitadas por uma barreira intransponível: a comunicação humana só é plena quando estamos face a face, sem membranas digitais pelo meio. Foi assim que o nosso cérebro evoluiu. Atualmente, já há investigação a mostrar que as videoconferências causam um tipo particular de cansaço e não podem substituir totalmente os encontros presenciais. Ou seja, será sempre mais saudável privilegiar o presencial em vez de andarmos ansiosamente atrás de modernidades quiméricas. 

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Serviços telefónicos de apoio emocional em Portugal

SOS Voz Amiga (entre as 16 horas e as meia-noite) -  213 544 545 (número gratuito) - 912 802 669 - 963 524 660 

Conversa Amiga (entre as 15 e as 22 horas) - 808 237 327 (número gratuito) e 210 027 159

SOS Estudante (entre as 20 horas e a uma da madrugada) - 239 484 020 - 915246060 - 969554545

Telefone da Esperança (entre as 20 e as 23 horas) - 222 080 707 

Telefone da Amizade (entre as 16 e as 23 horas) – 228 323 535

Todos estes contatos garantem anonimato tanto a quem liga como a quem atende. No SNS24 (808 24 24 24), o contacto é assumido por profissionais de saúde. Deve selecionar a opção 4 para o aconselhamento psicológico. O serviço está disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.

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