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"Tinha que me ir superar ao Dakar, se não ia morrer com medo"

Depois da edição de 2020 do Dakar, onde Joaquim Rodrigues viu morrer o cunhado e amigo Paulo Gonçalves, o ano de 2021 começou com a prova de fogo da sua vida. Após ter caído em depressão, o piloto português quis combatê-la, decidiu regressar ao deserto da Arábia Saudita e cumpriu o objetivo: terminar o rali mais duro do mundo. Como bónus, foi o melhor português em prova em todas as categorias.

"Tinha que me ir superar ao Dakar, se não ia morrer com medo"

Joaquim Rodrigues terminou o Rali Dakar 2021 à porta do top10. O piloto de motos da HeroMotorsport ficou no 11.º lugar da geral, mas a sua luta era outra. Como o próprio disse, o objetivo era enterrar os traumas trazidos das areias do deserto da Arábia Saudita, e esse objetivo foi cumprido com distinção.

Não foi fácil. Entre noites mal dormidas, lágrimas que escorreram pelo rosto e lembranças do cunhado e amigo Paulo Gonçalves, Joaquim Rodrigues teve de se superar a cada etapa. Foram, no total, 12 batalhas travadas por 'J-Rod' naquele deserto, umas mais complicadas do que outras.

Numa entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o piloto de 39 anos, natural de Barcelos, confessou-nos tudo sobre este Dakar, provavelmente, o mais difícil da sua vida. O apoio da família foi fundamental para o início de cada etapa, mas a grande arma no rali mais duro do mundo foi a força psicológica.

Joaquim Rodrigues foi o melhor português no Dakar'2021, mas é caso para dizer que ,na luta pela própria qualidade de vida, foi o grande vencedor da prova.Mal passei a linha de meta começaram a correr-me as lágrimas. Deu-me uma quebra, mas de alívio.

Vou voltar a enfrentar aquele 'dragão' que é o Dakar. O meu objetivo é enfrentá-lo, superá-lo e chegar ao fim”. Disseste-me estas palavras em junho do ano passado, lembras-te?

Lembro-me. Era esse o objetivo que tinha metido na cabeça para ultrapassar aquilo que estava a atravessar. Felizmente, as coisas correram bem e consegui chegar ao fim.

Num Dakar especialmente difícil para ti, o que é que pensaste mal cortaste a meta na última etapa? Qual foi o sentimento?

Basicamente foi um alívio. Do tipo, acabou… Aquela batalha diária de subir à moto, enfrentar aquele deserto e tudo que passei por lá. Mal passei a linha de meta começaram a correr-me as lágrimas. Deu-me uma quebra, mas de alívio.

Acabar um Dakar é sempre uma proeza. Contudo, este ano assistimos a vários candidatos à vitória acabarem por desistir. Sentiste, por isso, que te saiu um peso das costas?

Não é bem assim. Muitos desistiram por acidente ou por avarias, coisas que fazem parte da prova. Eu poderia não ter acabado também por uma avaria ou uma queda, mas o meu objetivo era apenas e só terminar, independentemente do resultado dos outros. Era uma prova minha e interior. A minha batalha foi essa, combater aquele ‘dragão’ e os traumas com que fiquei.

Notícias ao MinutoJoaquim Rodrigues a apontar para o céu, em homenagem a Paulo Gonçalves© ASO/Dakar

E tens noção do excelente resultado que fizeste? Foste o português com melhor resultado nesta edição de 2021.

Tenho, mas era o que eu dizia lá muita vez: É estranho que desde início tenha começado a fazer bons resultados, mas ficava mais contente por terminar uma etapa do que, por exemplo, com aquele meu sexto lugar. Fico contente por um resultado como esse, obviamente, sinto que ainda tenho velocidade, que sou um bom piloto, no entanto a minha batalha era tão maior do que isso que já ficava contente só por ter terminado.

Muito se fala na dureza física do Dakar. No entanto, este ano o rali foi mais complicado a nível psicológico do que físico?

Bastante… Foi difícil gerir o meu psicológico. Cada etapa, cada ligação. Muita coisa me passava pela cabeça, principalmente naqueles dias específicos que me faziam lembrar do passado. Desses aí nem se fala.

Na 9.ª etapa disseste inclusivamente que não sabias se ias arrancar. Foi a mais dura etapa da tua vida?

Foi… o dia 12. Para mim foi terrível, foi o dia do acidente [de Paulo Gonçalves, no ano passado] e nesses 200 quilómetros de ligação tudo parecia uma eternidade. Custaram-me imenso. Acordei, dormi muito mal nesse dia, mas meti-me de pé para arrancar e só me vinham as lágrimas aos olhos. Sabia que era aquele dia e custou-me bastante arrancar, mas felizmente consegui combater esse dragão e consegui ultrapassá-lo.

Todos os dias tive que tomar um comprimido para conseguir dormir alguma coisaTodo o apoio de adeptos portugueses, nas redes sociais e Internet, foi também importante para ti? Sentiste aquela força extra?

Vou ser sincero, nem quis ver as redes sociais. Quis estar sossegado e concentrado no meu canto, sem ver comentários, publicações, etc. Quis mesmo estar completamente afastado de tudo para tentar estar o máximo concentrado possível. Evitei mesmo pegar nessas coisas, queria estar comigo.

Houve algumas mudanças em termos de segurança dos pilotos em comparação com a edição de 2020. Airbags nos fatos dos pilotos, menos pneus utilizados, limitação nas trocas de pistão… Sentiste que isso fez diferença?

Umas sim, outras não. Cada um tem a sua opinião. Obviamente que algumas coisas vieram alterar a estratégia de corrida, mas sendo sincero não veio alterar o ritmo de corrida, em nada!

Este ano houve alguma polémica com o roadbook. O Carlos Sainz chegou mesmo a dizer que nem parecia um Dakar, mas sim uma gincana. Vocês recebiam-no apenas 20 minutos antes da prova. Isso causou-te grandes dificuldades?

A mim não me causou qualquer dificuldade, assim foi igual para todos. Até deixou as coisas mais igualitárias para todos. Supostamente as melhores equipas, com mais poder financeiro, tinham outras informações e outras capacidades quando recebiam o ‘roadbook’ no dia anterior. Tinham lá os seus ‘map-man’s’, que faziam o percurso todo. Basicamente, eles faziam um ‘roadbook’ novo, mais rápido e mais informativo para esses pilotos. Para mim foi melhor e deixou as coisas mais niveladas para todos, o que se notou. Um piloto tanto ganhava como depois ficava em 20.º lugar.

Notícias ao MinutoJoaquim Rodrigues na moto #27 nesta edição do Rali Dakar© Reuters

E olhando para toda a tua participação, qual foi o momento mais marcante deste Dakar?

(Suspiro) Todas as etapas foram marcantes, sinceramente. Principalmente, aqueles dias específicos que tive de superar. Mas a etapa onde foi o acidente, que foi de Wadi para Riade, andei praticamente o dia todo sozinho, naveguei como nunca o tinha feito na minha vida e fiz 6.º. Esse foi um dia particularmente complicado para mim e eu consegui fazer esse resultado. Marcou-me… não estava à espera e superei-me a mim mesmo. Depois disso, consegui sempre andar ali perto do top10 e isso marcou-me, não vou dizer que não. Mas a minha batalha era outra.

Como foi essa batalha nos momentos em que não estavas em cima da moto?

O que eu tentava fazer era relaxar ao máximo e não pensar no pior. Tentava abstrair-me, antes de me deitar preparava as coisas para o dia seguinte, mas para dormir foi sempre a comprimidos. Todos os dias tive que tomar um comprimido para conseguir dormir alguma coisa.

O apoio da família foi importante para ti durante todos estes dias?

Todos os dias falava com a minha família e todos os dias liguei à minha irmã. Todos os dias de manhã ao acordar eles mandavam-me uma mensagem. Quando chegava também falava com a minha família e com as pessoas mais importantes para mim.

Não coloco fora de hipótese regressar ao Dakar em 2022Não te queria deixar de perguntar isto. Como está o teu companheiro na Hero, o Santosh? Continua em coma?

Ele está bem. Já está na Índia, já está em casa. Bateu com a cabeça e ficou com um pequeno coágulo de sangue. Os médicos optaram por colocá-lo em coma porque ele estava muito stressado. Ele não podia estar assim e, por ser melhor para ele, os médicos quiserem pô-lo a dormir para estar mais relaxado. Agora, está bem.

Regressado a Portugal depois de ultrapassares esta prova de fogo para ti, o que dirias àquele homem que esteve durante quatro meses sem reagir?

Esse Joaquim é um Joaquim do passado. Vou ser sincero e dizer que não estou 100% curado, nem nunca vou estar. Ainda assim, superei-me e naquele dia que meti na cabeça que não queria ser mais aquele Joaquim foi o dia em que comecei a mudar. Tive que ir batalhando cada batalha que me ia aparecendo e esta batalha do Dakar foi talvez a mais importante de todas. Mal terminei a última etapa foi um grande alívio. Quebrei nesse momento, caíram-me lágrimas, mas sou um Joaquim muito mais forte do que era naquela altura. Tenho perfeita noção de que é algo que nunca vou superar, é uma condição com a qual estou a aprender a lidar e a controlar.

Foi uma grande demonstração de força e uma ‘super atitude’ de superação…

Não vejo as coisas dessa forma. Não fiz nada para outros verem. Não quero que me interpretem mal, não quis ser nenhum herói. Desculpa o termo, mas eu estava na merda e tive de fazer alguma coisa para sair da merda. Percebes? Senti que tinha de ir ao Dakar para enterrar todos os traumas lá. Tinha que me ir superar porque senão ia morrer com medo e nunca mais ia viver bem comigo próprio.

Foi a tua quinta participação no Dakar. E agora, o que se segue na carreira do J-Rod?

Para já quero uns tempos completamente desligado das motos. É tempo de respirar, de programar o futuro e depois vou pensar bem. Se calhar voltarei ao Dakar. Não coloco fora de hipótese regressar em 2022.

Notícias ao MinutoJoaquim Rodrigues ao lado de Paulo Gonçalves na edição de 2020 do Dakar© Reprodução Joaquim Rodrigues Facebook

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