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  • 18 JANEIRO 2020
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Márcio Sampaio: O homem que põe o Mengão de Jesus a correr para títulos

Márcio Sampaio, preparador físico de 40 anos, natural de Almeirim, é um dos rostos menos conhecidos do sucesso de Jorge Jesus no Flamengo. Porém, por trás de um grande treinador há sempre um exemplar preparador físico, e, por isso, quisemos ouvir o homem que segue Jesus desde o Sporting de Braga e que agora pôs o Mengão a lutar pelo Mundial de Clubes, já com a Libertadores e o Brasileirão na bagagem.

Márcio Sampaio, 40 anos, é um dos elementos da equipa técnico de Jorge Jesus, equipa técnica essa que na última semana fez história no Brasil. Depois de ter conquistado a Libertadores, numa final em Lima, no Peru, perfeitamente imprópria para cardíacos, este homem celebrou ao lado de Jesus, no autocarro que desfilou pelas ruas do Rio, também o Brasileirão.

Chegámos à fala com este protagonista algo desconhecido e que nos dá o seu ponto de vista sobre todo o processo de conquista e afirmação do trabalho dos treinadores portugueses no Brasil, falando das críticas que enfrentaram, mas também do gosto especial de provar que estavam certos.

Numa conversa que se prolongou por 45 minutos, houve espaço para um regresso ao passado, abordando a etapa deste sportinguista convicto por Alvalade, uma casa onde viu nascer um dos talentos de quem esperava outra sorte: Gelson Martins.

Tiveram um início de trabalho aí no Brasil marcado por críticas e dúvidas sobre a vossa valência, mas acabaram, meses depois, com o Brasil aos vossos pés. Como tem vivido as emoções dos últimos dias?

Foram emoções muito boas, porque era algo desejado por todos quando chegámos. Todos sabem das críticas de que fomos alvo. Apesar de termos sido bem recebidos, o mister, em particular, teve muitas críticas por parte de algumas pessoas que o trataram mal. Desvalorizaram o trabalho feito por ele no nosso país, quase tratando Portugal como um país do terceiro mundo. Esta conquista foi um pouco o culminar de muito trabalho e sofrimento em silêncio. Fomos ouvindo essas críticas e não podíamos falar enquanto não conseguíssemos ganhar nada. Percebemos que tínhamos de responder em campo e foi isso que tentámos fazer.

As críticas que sofreram acabaram por ser motivação para mostrar a validade do trabalho que estavam a desenvolver?

Não fazíamos o nosso dia-a-dia de trabalho a pensar nas críticas. Obviamente que líamos, ouvíamos e faziam chegar até nós todas as críticas, mas nunca tivemos outra ideia que não fosse provar em campo o valor do nosso trabalho. Penso que o grupo nos acolheu bem e comprou a ideia, entre aspas, do que queríamos fazer, daquilo que o míster trouxe para a equipa e a ideia do nosso percurso para o sucesso. O grupo uniu-se à volta do míster e sentiu que ele era o treinador certo para atingirmos os objetivos que tínhamos. Acabámos por calar as críticas com o nosso trabalho. Tentámos provar em campo que éramos melhores do que os outros e acabámos por conseguir prova-lo.

Já tinha trabalhado com Jorge Jesus no Sporting de Braga, depois voltou a trabalhar com ele no Sporting, passou pelo Al-Hilal e agora está num país com uma massa imensa de adeptos de futebol. Como foi esse crescimento seu, pessoal e profissional, passando por tantos projetos com foco de conquista de títulos? Como tem sido essa experiência?

Eu estive com ele no Sporting de Braga e depois não fui com ele para o Benfica, porque o Benfica já tinha recuperadores físicos na altura e, por isso, não sendo possível rescindir, ele não me conseguiu levar. Mas mantivemos sempre contacto e assim que se proporcionou trabalharmos de novo para mim aceitei logo o desafio. Estar este período separado de Jesus foi benéfico para mim porque pude trabalhar noutros contextos, noutros países e com outros treinadores. Quando ele foi para o Benfica acabei por trabalhar com o míster Manuel Cajuda, Jaime Pacheco ou Jesualdo Ferreira. Acabei por ir ao Sporting por duas vezes e, na primeira vez, foi um processo complicado. Eu saí do Sporting e tive de procurar outros contextos fora do país. Quando tive oportunidade de regressar ao Sporting fiquei muito feliz, porque era o reconhecimento do trabalho que tinha feito no Sporting de Braga com Jorge Jesus e que ele tinha apreciado esse trabalho.

Mas trabalhar com ele, como vem tantas vezes no jornais, é de uma exigência especial?

Trabalhar com ele é uma exigência constante. Na minha perspetiva, há duas formas de encarar a exigência: uma é sentirmo-nos pressionados, e ao sentirmo-nos dessa forma condicionarmos o melhor de nós; a outra é exigirmos de nós o máximo para sermos cada vez melhores para corresponder à exigência dele. Sem dúvida que a exigência que ele incute no dia-a-dia de trabalho faz de nós melhores. Começamos a perceber isso quando vamos para outros países. Estamos habituados a uma exigência, com processos muito profissionais, e quando não temos isso acabamos por sentir falta. É a exigência que nos leva ao sucesso. Ele tem muita atenção aos pormenores.

Enfrentaram uma onda de lesões que se tornou um célebre episódio de Jesus numa conferência de imprensa. Havia frustração nesta altura pela forma como eram tratados pelas equipas de arbitragem?

Há aqui várias coisas que temos de entender e que a comunicação social disse e que não correspondeu à verdade. Quando começaram a existir as lesões, pelo facto de sermos portugueses, tentaram pôr a circular notícias que não eram verdade. As nossas lesões nem eram tanto musculares. Tivemos algumas lesões musculares, fruto da mudança de metodologia de treino, da exigência transmitida aos jogadores… Eles passaram a correr mais no treino, nos jogos r a trabalhar sempre com mais intensidade. Aquilo que é exigência do modelo de jogo que trouxemos provocou uma série de situações, mas a maior parte de lesões que tivemos foram traumáticas. Tivemos desde jogares com fraturas nas pernas, com fratura por contusão, jogadores com fratura do maxilar… Outras situações que se passaram, como o Arrascaeta, que faz um carrinho e rompe o menisco, nós não controlamos. Uma entrada mais agressiva de um adversário que provoca uma entorse ou uma fratura, como foi o caso do Diego, também não podemos controlar. Esse ciclo foi complicado, porque tínhamos acabado de chegar e tínhamos períodos de muitos jogos. Circulou na comunicação social que tudo isto era fruto de termos mudado uma série de coisas, mas não é verdade. Não mudámos nada, mas adaptámos a metodologia de treino do míster e empregámos um método de treino diário que se veio a provar certo. Não voltámos a ter muitas lesões.

Rodaram também pouco o onze base, algo que também mereceu algumas críticas e muita desconfiança…

No Brasil, uma coisa que era impensável para eles, era o facto de rodarmos pouco a equipa. E, de facto, rodámos pouco. Nós praticamente jogávamos com os mesmo jogadores e eles não tinham esse hábito. Diziam que era impossível jogar sábado ou domingo e quarta com a mesma equipa… Mais uma vez, veio a provar-se que tínhamos razão. Houve um trabalho de equipa, um método que trouxemos para o Flamengo, que acabou por provar que é possível trabalhar assim. No caso do professor Mário Monteiro e do meu, criámos condições de treino e de fortalecimento muscular que nos permitiram ter uma melhor performance em campo. Uma coisa que não se falou muito aqui foi o facto de os jogadores que vinham lesionados reintegrarem o treino com uma taxa de sucesso de 100% na reintegração desses atletas.

Acabámos mesmo por ver um Diego, que veio de uma lesão grave, a ser fundamental na viragem do resultado na final da Libertadores. Como é para um preparador físico, que lida tantas vezes com a frustração dos atletas, ver depois um jogador recuperar e ter este sucesso como ele teve?

No caso do Diego, como em quase todos os processos de reabilitação de jogadores, existe a componente mental do jogador. O posicionamento mental do atleta é fundamental para que o processo de recuperação seja um sucesso. Isso só se consegue com jogadores mentalmente muito fortes. Os casos do Diego, do Arrascaeta, do Rafinha, do Filipe Luís e do Rodrigo Caio, tiveram muito que ver com a força mental que eles tiveram para ultrapassar aquelas etapas. Isto é 80% do caminho a percorrer. Depois há 10% que tem que ver com o trabalho do departamento médico, e dizer 10% não é minimizar o trabalho, é 10% para bem. Após esse trabalho, pegamos no jogador, damos-lhe capacidade muscular para que, quando possível, possa voltar a fazer aquilo que já tinha mostrado. Se o jogador não tiver uma componente mental forte, pode ser um entrave ao processo. Estes atletas provaram que têm uma capacidade mental muito grande, recuperaram mais rápido do que o previsto, algo que, sem a força mental de cada um deles, seria praticamente impossível.

Quando Jesus diz que as suas equipas rendem mais do que as mesma na mão de outros técnicos, isto também tem que ver com o trabalho físico que é feito durante a época? É esse o segredo?

O treinador tem 90% de culpa em todos estes processos, como também tem 90% de culpa quando as coisas não correm bem.  Agora, os 90% de culpa no sucesso está relacionado com o modelo que é trazido para as equipas, os processos implementados, a forma de trabalhar. Os jogadores, consoante vão treinando e se vão adaptando, acreditaram na ideia que Jorge Jesus trazia. Acreditaram que era com aquela ideia que iam evoluir. Pode haver a melhor metodologia de treino ou ideia de jogo, mas, se os jogadores não acreditarem, é impossível ter sucesso. Os jogadores acreditaram na ideia para a equipa e trabalhámos como um todo. Lembro-me de uma vez o Mathieu dar uma entrevista e dizer que no Barcelona a linha defensiva defendia mas do que aqui, no Sporting. Era mais fácil porque todos defendiam. Havia uma ideia de equipa que tornava tudo mais fácil para todos. O jogador tem de saber o que fazer com bola, mas sobretudo sem ela. A partir daí, a qualidade individual faz a diferença naquilo que é o sistema da equipa. O sucesso tem muito que ver com o treinador, mas porque o treinador é a pessoa que faz um jogador acreditar ou não no que está a fazer. O treinador tem de entender o que o jogador pode dar e mostrar-lhe o caminho. Não é dizer o que está mal e não mostrar porquê. É como a frase que ficou célebre aqui no Brasil, de Jorge Jesus a gritar com o Arão: ‘Tá mal, Arão, tá mal’. Mas não adianta dizer que está mal se não lhe mostrar como ele tem de fazer para fazer bem. Quando chegámos, os adeptos não podiam com o Arão, insultavam, chingavam, como se diz aqui, e neste momento o estádio canta pelo nome dele. O jogador tinha qualidade, acreditou no conceito do treinador e foi melhorando.

Notícias ao MinutoMárcio Sampaio ao lado de Jorge Jesus após a conquista da Libertadores no Peru© Reprodução

Vamos virar aqui um bocadinho para os títulos conquistados pelo Flamengo. Ainda estavam a fazer a festa da Libertadores, no autocarro nas ruas do Rio, e mesmo ali ganharam o Brasileirão. Como foi viver todas essas emoções… As ruas cheias de adeptos, os cânticos por vocês, pelo míster, como viveu tudo isto?

O que senti nunca vou conseguir descrever em pleno. É uma sensação única. Podemos ganhar o que quisermos, mas vencer aqui, no Brasil, com aquela festa, é impossível de qualificar. Não sei se não estavam cerca de dois milhões de pessoas na rua. Acho que foi uma coisa que ninguém conseguia imaginar, mesmo perspetivando aquele momento. Muitas das imagens que circularam de nós a gritarmos 'Campeões' no autocarro, era connosco já a caminho para casa. Portanto, já tínhamos percorrido aquelas avenidas, e foi aí que percebemos que éramos campeões. Foi uma alegria, mas foi pena não termos sabido quando estávamos com os adeptos. Acabámos por festejar entre nós e esta quinta-feira festejámos em casa, no Maracanã, com a entrega da Taça. Eu preferia, e os meus colegas também, tenho a certeza, festejar com uma vitória em campo, mas a verdade é que também nos retirou um pouco de pressão do que tínhamos de conseguir e que vínhamos a fazer jogo a jogo. Mas foi tudo incrível. Não sei se algum dia vou voltar a viver uma coisa assim. Vimos ali situações muito marcantes. Vimos pessoas penduradas em andaimes, pessoas a três metros de altura, penduradas em semáforos, vimos paragens de autocarro com 50 pessoas por cima e o mesmo número por baixo, aquilo a abanar por todo o lado… Vimos crianças com um ou dois anos, no meio de muita, muita gente, todos amassados, vimos pessoas com feridas, foi uma loucura.

Foi um libertar de muitas emoções, sobretudo para os adeptos…

Veja, atravessámos aquela avenida em seis horas. É uma avenida como se fosse a avenida da Liberdade e, só por aí, pode ver a quantidade de gente que ali estava. Foi uma sensação incrível podermos festejar com as pessoas e sabemos que fizemos felizes milhões de pessoas. O Flamengo passou uma situação muito complicada, já era gozado por não ganhar títulos, mas é o clube do povo, o clube com mais adeptos, e as pessoas sentiram-se orgulhosas por tudo o que conquistaram este ano. Por incrível que pareça, um clube tão grande como este só tinha uma Libertadores. Foi muito mais motivo de orgulho para os adeptos voltarem a vencer depois de tanto sofrimento.

Focando agora um bocadinho no jogo da Libertadores. Foram para intervalo a perder, com o River a controlar o jogo e a dar algum espetáculo. O que é que mudou ao intervalo? Foi o discurso, foi a união dos jogadores?

O intervalo foi bom para entendermos o que estava a acontecer. Foi benéfico para o treinador ajustar algumas coisas que não estavam a correr tão bem e os jogadores também sentiram nesse momento que podíamos ser felizes naquele dia. Foram ditas palavras muito marcantes, o que fez com que a seguir ao intervalo entrássemos com outra atitude. Obivamente que o River não é uma equipa qualquer, era o detentor do título. A segunda parte mudou um bocadinho porque eles caíram do ponto de vista físico, não aguentaram as mudanças táticas ao longo do jogo e não se encontraram com aquilo que preparámos para a segunda parte. Fomos obrigados a fazer duas substituições, por incapacidade física dos atletas, e essas substituições viraram o jogo porque do ponto de vista tático também a estratégia teve de mudar. Tudo isso fez com que a segunda parte fosse muito melhor. Começámos a ter oportunidades e a acreditar, e esta equipa provou que tem muito isto: acreditar até ao último minuto. Já ganhámos jogos a um minuto do fim, a dois minutos do fim, simplesmente porque a equipa acredita muito naquilo que faz. A reviravolta não foi surpresa para nós porque sabemos a equipa que temos e que até ao fim podemos fazer golo.

Ontem [quinta-feira] também vimos um pouco isso com o Ceará. Uma primeira parte em que foram a perder para intervalo, mas depois um segundo tempo arrasador em que fizeram quatro golos. Havia aqui alguma fatura a pagar pela festa da conquista do título da Libertadores e do Brasileirão?

Na primeira parte acusámos um pouco a parte de termos festejado. Não do ponto de vista físico, mas de tudo o que estava a acontecer, das bancadas cheias… É sempre muito difícil. Isto acontece até na Europa, em que uma equipa que joga a Champions, vence, e depois no jogo interno, com um adversário mais fraco, não ganha ou tem mais dificuldades. Acho que tivemos um pouco dificuldade em mudar o chip. Falámos disso ao intervalo, não queríamos ter um resultado menos positivo neste jogo. Queríamos abrilhantar a festa, queríamos bater recordes e manter o foco para prosseguirmos neste clima de invencibilidade até final do campeonato. Os jogadores também sentem que podem e querem dar mais, eles querem continuar a fazer história.

Notícias ao Minuto© Reprodução

Por falar em história e recordes… Ainda há etapas a cumprir no Brasileirão, mas já há um Mundial de Clubes no horizonte. Como perspetiva esta experiência? Acha que é possível vencer e conquistar mais este troféu?

Já conseguimos o mais difícil, que era o apuramento para o Mundial. Mas não nos podemos esquecer que são dois. Para chegarmos à final temos de passar uma meia-final. O nosso objetivo é chegarmos à final e acho que temos qualidade para isso, independentemente de quem formos defrontar. Depois de estar na final, tudo é possível. Sabemos que o Liverpool é o Liverpool, mas nas finais nem sempre ganha quem é teoricamente mais forte. Eles também têm de ter receio de nós porque ganhámos a Libertadores. Não vai ser um jogo fácil para eles, como também não será para nós. Se sentimos o sonho de ganhar? Estando lá, quem é que não vai sentir esse sonho? Temos de ter esse objetivo, mas primeiro temos de passar as 'meias'.

Voltando um bocadinho ao seu percurso. Teve uma passagem recente pelo Sporting, com um chegada plena de ilusão e um final trágico com o ataque à Academia. Vê-se a voltar ao futebol português ou agora está com Jorge Jesus até ao fim e irá com ele para onde ele for?

Nós, equipa técnica, não temos nenhum contrato assinado com o treinador. Pode acontecer seguirmos com ele ou não. A minha intenção é seguir com ele, mas muitas vezes isso não acontece e eu aprendi isso por experiência própria. Um treinador pode ir para um clube e não ser possível levar toda a gente. Óbvio que estou a 100% com ele. Já tive propostas para sair para outros clubes e não fui porque me sinto bem a trabalhar com ele. Não sei o futuro e se ele não irá para algum lado onde não me possa levar.

E voltar ao Sporting?

Não penso voltar, mas não quer dizer que um dia não volte. Sou sportinguista de coração, mas não sei se as coisas se vão proporcionar novamente. Passei duas vezes por Alvalade e o sucesso que tive no Sporting é relativo, porque muitas pessoas acham que não o tivemos. Não ganhámos o campeonato, ficámos a um ponto de o ganhar, mas quando chegámos ao clube, nesta última vez, as pessoas esquecem-se que o Sporting não ganhava a Supertaça há 10 anos, e nós ganhámos. O Sporting nunca tinha ganho a Taça da Liga, e nós ganhámos a primeira Taça da Liga para o clube. Perdemos a Taça de Portugal, e toda a gente sabe porquê. A conjuntura, depois do que foi o ataque à Academia, fez com que as coisas não tivessem um bom desfecho. Se fizermos esta análise: Jogando dez vezes com aquela equipa frente ao Aves, o Sporting ganharia quantas?

O campeonato que não conquistaram foi uma frustração? O que faltou?

Podíamos ter ganho o campeonato? Podíamos! Mas houve muita coisa que fez com que não ganhássemos. Houve muita coisa que fica entre nós. Agora, quem não quer voltar ao Sporting, ao Benfica ou FC Porto? Todos sentimos vontade de ir para clubes grandes, mas acho cada vez mais difícil voltarmos a Portugal, porque as portas também estão um pouco fechados. Os três grandes têm treinador e o míster irá prosseguir a sua carreira fora de Portugal.

Agora, uma inconfidência: Já têm alguma indicação do que como será o vosso futuro desportivo, se vão embarcar noutra aventura ou ficar no Flamengo?

Tudo o que sabemos tem sido pela imprensa. O míster tem uma particularidade: nunca nos vai dizer que tem o clube A ou B, se não tiver nada em concreto. Temos contrato até junho e, até agora, temos intenção de ir passar o Natal a Portugal e voltar para o Brasil. Podemos ir passar o Natal a Portugal e as coisas mudarem. Tive uma experiência semelhante com ele. Estávamos no Sporting, tinha acabado de comprar casa no início de maio e, a 15 desse mês, aconteceu o ataque. Em junho estávamos a ir para a Arábia Saudita… Nem dormi na casa que tinha acabado de comprar. Para fechar este tema: estamos felizes aqui, gostamos muito de cá estar, temos contrato, mas não sei o que pode acontecer.

É uma perda grande para o campeonato português ter ficado sem Jorge Jesus?

É uma perda de várias formas. A primeira tem que ver com a qualidade de jogo que têm as suas equipas, e isso é unânime. Podem criticá-lo por várias coisas, gostarem dele ou não, mas todos reconhecem que ele põe as equipas a jogar futebol de uma forma que é agradável para quem vai ao estádio. A intensidade da sua maneira de estar no dia a dia, as suas conferências de imprensa, as frases, tudo o que envolve a máquina Jorge Jesus na forma como ele é, também vende. As pessoas sentem falta disso. Acho que o futebol português precisa de Jorge Jesus. Não sei o futuro e não tenho indicação nenhuma se voltará, mas eu gostava de o ver de volta.

E como tem visto o seu Sporting?

Acho que o Sporting está a passar uma situação que mais nenhum clube português está a viver. Vem de uma situação complicada, teve relativo sucesso no ano passado e não se esperava que fosse acontecer o que está a acontecer. Muitas vezes as equipas, como se diz nas empresas, precisam de três anos para ter retorno daquilo que foi investido. Eu penso que este grupo de trabalho do Sporting já demonstrou alguma confiança nos últimos jogos. Perdeu com o Tondela, mas com tantas mudanças à volta do clube, eu acho que agora os jogadores estão mais confiantes e acho que têm condições para fazer uma temporada mais tranquila.

Já trabalhou com alguns dos maiores e históricos treinadores do futebol português, este percurso ajudou-o a encarar esta fase com Jorge Jesus de outra forma? Jesus foi o que o marcou mais?

É o técnico com que eu trabalho há mais anos, já vão sete ou oito anos. É, por essa razão, o treinador com que mais me identifico. Mas todos eles me marcaram. Todos foram importantes no meu crescimento e todos me ensinaram coisas. Recordo-me de todos com amizade e carinho, mas tenho de recordar um episódio particular: Quando deixei de trabalhar com Jorge Jesus, quando ele foi para o Benfica, o míster Manuel Cajuda cruzou-se comigo no Algarve e ele disse-me que daquele dia a um ano me iria convidar para trabalhar com ele. Entretanto eu fui para a Suíça trabalhar com o míster João Alves, e o míster Manuel Cajuda, no ano seguinte, levou-me para ir trabalhar com ele. Foi algo que me marcou. Para além disso, foi também uma grande surpresa trabalhar com o míster Jaime Pacheco, um homem por quem tenho mesmo muita admiração. As pessoas têm muito má impressão dele e eu posso dizer que é dos melhores treinadores com quem já trabalhei. É um grande senhor e também me ajudou muito. Mas há mais. O professor Jesualdo Ferreira ensinou-me tanta coisa em tão pouco tempo. Ele é mesmo professor. Promove questões para que as suas equipas possam pensar. Até com os jogadores fazia isto.

Em termos de jogadores, há algum que se tenha destacado e que tenha pensado logo ‘este é craque’?

Tenho vários. Tenho tido a sorte de encontrar jogadores que já passaram por grandes clubes, mas que, acima de tudo, são profissionais. Não consigo dizer o melhor jogador com quem já trabalhei. Não tinha problemas em dizê-lo, mas não consigo. No primeiro ano no Sporting tínhamos uma equipa muito forte, com grandes jogadores…  Um jogador que achava que ia ter um percurso completamente diferente do que tem agora chama-se Gelson Martins.

Porque diz isso?

Apanhámos o Gelson muito novo e já nessa altura os jogadores da equipa principal pediam ao Gelson para ter calma, porque ele vinha com um andamento fora do normal. Eu achei, bem como 95% das pessoas que estiveram naquele encontro, que a seguir do jogo com o Real Madrid ele já era jogador do Real. Depois dos jogos que fez com Barcelona, com grandes equipas, achei sempre que ele ia parar a um clube destes. Ele tinha tudo. Tinha velocidade, técnica, fazia coisas com a bola completamente diferentes… Não esperava vê-lo no Atlético Madrid, mas obviamente que sei que as condições com que foi para lá foi fruto do que aconteceu na Academia. Isso talvez tenha feito estancar o que podia ser o futuro dele. Sempre achei que o Gelson podia estar hoje num Barcelona ou num Real Madrid, nunca num Monaco, sem qualquer desprimor. Sei pelo Filipe Luís que o Simeone também não apreciava muito as qualidades de Gelson como jogador, isto depois de já o ter lá. Ele não sentiu confiança para progredir ou não teve oportunidades suficientes, mas Gelson tinha capacidades para estar no melhores clubes do mundo. 

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