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"Para os meus filhos, Esquerda é não guardarem brinquedos só para eles"

Ana Drago é a entrevistada de hoje do Vozes ao Minuto

"Para os meus filhos, Esquerda é não guardarem brinquedos só para eles"
Notícias ao Minuto

05/05/17 por João Oliveira

Política Entrevista

Com 41 anos de vida e muitos deles passados na esfera política, Ana Drago é hoje uma ex-deputada que continua a ser abordada na rua por pessoas que dizem "conhecer a sua cara de algum lado".

Deixou o Parlamento, do qual diz não ter saudades, há quatro anos, tendo com isso conquistado "anos de vida". Continua a exercer uma responsabilidade cívica, que se materializou na criação da Fórum Manifesto e se prolongou com a atividade de comentadora política que exerce semanalmente.

Prestes a acabar uma tese de doutoramento, Ana Drago recebeu-nos em sua casa onde nos contou como tem sido a sua vida a seguir à Assembleia da República.

Estão quase a fazer quatro anos desde que decidiu abandonar o Bloco de Esquerda. Tem saudades de ser deputada, do Parlamento, do trabalho político do dia-a-dia?

Não muitas. Eu estava bastante exaurida no momento em que saí. Já estava no Parlamento há quase uma década e aquilo é um trabalho interessante mas de alguma forma rotineiro, e uma pessoa tem sempre que ter uma espécie de distanciamento, perceber que aquilo não é a vida real, não é o resto do país e que aquilo é uma espécie de aquário. Mas, em particular, a partir da crise de 2011, foi particularmente duro porque nós sentíamos o país a desfazer-se à nossa volta.

Senti que quando as pessoas vinham ter comigo eu não tinha alternativa. Uma pessoa sentia-se uma espécie de fraudeDisse até numa entrevista que se sentia “profundamente infeliz nos últimos anos” em que esteve no Parlamento. Quer falar um pouco sobre isso?

Nós tínhamos a perceção de que a vida das pessoas estava a fragmentar-se. As pessoas conheciam-me na rua e vinham ter comigo a dizer que tinham perdido o emprego, que iam entregar a casa ao banco e ainda ficavam com a dívida, que os seus filhos iam emigrar e que não tinham esperança no futuro. Era uma sensação de que o país se estava a desfazer e, enquanto representante político no Parlamento, sentia uma enorme impotência. Acima de tudo, o que eu senti nesses anos era a impossibilidade de dizer a essas pessoas que havia um caminho de alternativa rápido que conseguisse responder à vida das pessoas. Nessa altura, isso devia-se à incomunicabilidade que existia entre os partidos da Esquerda e de não haver nenhuma perspetiva de que o mais importante era tirar a Direita do poder. Como isso não era possível dentro do meu partido [Bloco], com o PCP e com o Partido Socialista, eu senti que quando as pessoas vinham ter comigo eu não tinha alternativa. Uma pessoa sentia-se uma espécie de fraude.

Isso também teve a ver com a chamada ‘liderança bicéfala’ dentro do Bloco na altura?

A liderança bicéfala foi um processo de coordenação que o Bloco encontrou na altura. Tinha a ver com a estratégia do Bloco em dizer que queria defender a vida das pessoas, mas para isso era necessário – como eu creio que a Geringonça está a provar – estar disponível para fazer diálogos à esquerda que encontrassem os mínimos comuns. Isso é que defendia a vida das pessoas e dessem alguma esperança ao país. Na altura, esse debate não era possível no Bloco, não havia essa maioria dentro do partido.

Um hipotético regresso à política ativa é algo completamente fora de questão? 

Quando entrei para o Parlamento, aos meus 20 anos, prometi a mim mesma que não quereria fazer toda a vida política. Agora estou aqui e estou muito bem [risos]. Claro que sinto sempre a responsabilidade em ser parte ativa e fazer intervenção cidadã.

Mesmo tendo abandonado o Bloco, integrou a Fórum Manifesto, encabeçou o Livre/Tempo de Avançar e é comentadora política. É gosto pela área ou necessidade de continuar a ser uma voz ativa na sociedade?

Na verdade, o Tempo de Avançar foi quem possibilitou a articulação entre os partidos à Esquerda. A dois dias das eleições, nós propusemos isso mesmo aos partidos. Hoje faço comentário político e continuo a sentir essa necessidade. Não creio é que a participação política esteja restrita aos partidos e à representação nas instituições. Há muito para além disso e a democracia portuguesa sofre desse estreitamento no campo partidário.

Quando fala nesse estreitamento, rapidamente nos lembramos da ideia assente sobre o distanciamento entre o povo e os políticos. Tem havido um esforço para colmatar isso?

Há momentos em que os partidos tentam fazer isso para alargarem o campo de debate e diálogo. Apesar de tudo, creio que isso não tem sido assim tão óbvio nos últimos anos. Os partidos acabam por ter sempre coisas para resolver e tratar. Fazem as suas realizações mais para dizerem o que querem fazer e menos para receber um input que venha de fora. Isso restringe o campo de participação e envolvimento das pessoas na prática política. As redes sociais e os mecanismos de hoje permitem um acesso mais direto dos cidadãos a um político. Mas não chega. É preciso criar movimento social, organizações que sejam capazes de sustentar reivindicações dos cidadãos e isso continua a faltar na sociedade portuguesa.

Como tem corrido o trabalho da Fórum Manifesto?

Tem corrido bem no sentido em que é uma nova proposta de intervenção política, muito mais ligada a outras organizações sociais, a determinados debates políticos. Temos feito o debate sobre a Europa e vamos agora fazer outro sobre as eleições francesas e o que elas significam no contexto europeu. Fizemos uma universidade de outono em que debatemos estas questões, vamos fazer outra sobre questões de trabalho, precariedade e novas formas de trabalho. Acho que vamos estabelecendo um menu de debates de sociedade que entendemos que têm de ser feitos e isso é bastante positivo.

Na altura da criação da Fórum Manifesto, descreveu-a como “um aliado do Governo” que podia “ajudar a encontrar pontos de convergência entre os partidos”. Isso tem sido conseguido?

A negociação do Governo é feita entre os partidos que o suportam e não vale a pena ter ilusões sobre isso. O que eu acho é que, no momento político que estamos a viver, não se pode circunscrever essa atuação estritamente centrada sobre as instituições e os partidos políticos. Nó precisamos de criar massa crítica e cidadania participada que consiga pensar o que é que o país deve ser no futuro. A sociedade portuguesa sempre foi fraca nesses movimentos da sociedade civil e a Fórum Manifesto gostava de poder mudar um pouco isso.

Há dois anos aventurou-se numa tese de doutoramento sobre ‘Conceções da sociedade democrática no pós-25 de Abril’. Como é que está a correr? Já a acabou?

Não me fale nisso, por favor [risos]. Estou naquele período em que estou com a sensação de que estou perdida e ao mesmo tempo fascinada com o trabalho, mas enfim, vai andando [risos].

Mas está confiante?

Se me pergunta agora, não, de modo algum [risos]. Pode ser que daqui a uns meses esteja melhor. É um tema muito apaixonante, vamos ver no que dá.

Há pessoas que me dizem ‘Faz falta!’ e eu digo logo ‘Não não! Isto tem de se fazer um período de missão na política e não podemos estar lá sempre’Tirando a política, com o que é que tem ocupado o seu tempo? Conseguiu arranjar mais tempo para si?

Sim. A política exerce uma enorme pressão sobre o nosso quotidiano e agora sou uma pessoa mais calma, com mais tempo para as crianças, para os amigos.

As pessoas ainda a abordam na rua como se fosse deputada?

Sim, embora agora seja sempre de ‘Eu conheço a sua cara de algum lado’ [risos].

O que é que lhe costumam dizer?

Depende… Há pessoas que me dizem ‘Faz falta!’ e eu digo logo ‘Não não! Isto tem de se fazer um período de missão na política e não podemos estar lá sempre’ e eu acho que as pessoas entendem isso.

Um dos meus medos, quando saí do Parlamento, era imaginar-se por volta dos 45 ou 48 anos, ainda no Parlamento. Estar 20 anos no Parlamento não faz nem pode fazer bem, nem aos próprios nem à Democracia. A ideia de fazermos um período de missão na política e depois construirmos a nossa vida é importante. Mas sinto sempre esta espécie de responsabilidade, portanto quero estar sempre envolvida na política, mas isso não significa estar sempre dentro das instituições.

A saída do Parlamento devolveu-lhe anos de vida no que toca ao tempo que tem disponível, por exemplo, para os seus filhos?

Sem dúvida [risos]. A política, quando é levada a sério, é muito exigente porque tem de se ouvir muito, estar em muitas reuniões para juntar trabalho e discutir. Isso consome muito tempo e por isso, sim, deu-me anos de vida.

Os seus filhos já falam de ‘politiquices’ à maneira deles?

Sim [risos]. Vamos sempre tentando ensinar-lhes uma espécie de responsabilidade e de bem comum e portanto eles vão sempre dizendo umas coisas, desde reclamarem com as pessoas que atiram lixo para o chão até as coisas que têm de ser partilhadas. Às vezes brinco com eles a dizer que a minha ideia de Esquerda é o que lhes ensinaram no jardim de infância, ou seja, a partilhar com os outros, todos terem a possibilidade de participar, discutir uns com os outros, não serem maus, não guardarem os brinquedos só para eles. Essa é a ‘politiquice’ deles [risos].

Mesmo quando as coisas parecem difíceis, vale a pena arriscar para defendermos o que entendemos ser importantes

Já lá vão mais de 40 anos de vida e metade deles foram passados na vida política. Quais são as principais lições aprendidas até aqui?

Uma das principais lições é que vale a pena arriscar. Mesmo quando as coisas parecem difíceis, vale a pena arriscar para defendermos as coisas que entendemos serem importantes.

O meu processo de saída do Bloco foi doloroso e foi uma escolha difícil porque colocava em choque duas lealdades: Uma para com as pessoas com quem trabalhei durante 15 anos e outra para com um projeto político. Isso é difícil porque escolhemos entre as pessoas ou aquilo que acreditamos ser bom para o país. Eu escolhi aquilo que achava ser bom para o país e isso é doloroso mas eu acho que é aquilo que nos permite dormir à noite e achar que não desistimos daquilo que entendemos ser importante.

Mais do que fazer parte de uma máquina que vai gerindo uma espécie de cenário político, mesmo que aquilo que estamos a dizer dentro dessa máquina seja justo e as pessoas nos deem palmadinhas nas costas a dizer ‘Gostei muito de a ouvir’, interessa respeitarmos aquilo que achamos ser necessário fazer a cada momento para transformar, de facto, as coisas. Não basta ter-se razão, é preciso mesmo querer transformar as coisas e ter lealdade a essa luta política porque muita gente lutou para que hoje tivéssemos a liberdade que temos. Acho que essa é a minha lição de vida.

Pode ler a primeira parte desta entrevista aqui.

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