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"Uma nova Revolução seria ótimo. Hoje, o povo tem os olhos mais abertos"

A revolução? “Valeu a pena”, mas nem tudo correu como Otelo Saraiva de Carvalho, o nosso entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto, sonhou.

"Uma nova Revolução seria ótimo. Hoje, o povo tem os olhos mais abertos"
Notícias ao Minuto

24/04/17 por Patrícia Martins Carvalho

País Otelo S. de Carvalho

Atualmente, garante, uma nova revolução seria feita de outra maneira e teria consequências diferentes, pois o povo está mais informado e interessado em política.

O herói do 25 de Abril garante que lhe apraz a 'Geringonça'. O mesmo não se aplica a Pedro Passos Coelho, a quem tece duras críticas. 

Mas o líder do PSD não é o único a ser criticado. A “bandalheira” da banca também é alvo do descontentamento de Otelo Saraiva de Carvalho que garante que os “banqueiros nasceram todos para a corrupção”.

Valeu a pena fazer a Revolução?

Valeu. Não tenho dúvida nenhuma de que valeu, apesar de ter havido em muitos setores um retrocesso muito grande nos últimos anos. Quando se inicia o processo revolucionário após o 25 de Abril, a minha perspetiva começa a ser muito diferente daquela que tinha quando aderi ao programa político elaborado pelo Melo Antunes que colocava o poder a ser exercido numa democracia representativa.

A democracia representativa nunca o convenceu…

Eu aderi à democracia representativa, embora tivesse uma desconfiança grande por parte dos partidos. Pareceu-me que eram grupos que iam procurando angariar sócios para ter uma base política e isso não se enquadrava bem naquilo que eu pensava. A minha ideia era obter a participação do povo. O povo tinha de ser o seu próprio representante e não um advogado ou médico conhecido.

A partir do 25 de Novembro o país regressou à normalidade burguesa, o povo deixou de abrir a boca e está subjugado outra vez

Então não lhe agrada este regime?

Não concordo com o regime que está implementado desde o 25 de Novembro. Até pode ser resultado do 25 de Abril, mas só no papel. O processo revolucionário fez isto sofrer uma volta muito grande. A partir do 25 de Novembro o país regressou à normalidade burguesa, o povo deixou de abrir a boca e está subjugado outra vez. Portanto é um regime que não me agrada, nem a mim, nem a milhões de portugueses.

Confirmou a desconfiança que tinha dos partidos?

Sim, os partidos foram aquilo que eu tinha a sensação que podiam ser: grupos políticos que vão alargando porque vão tendo mais militantes que estão interessados em pertencer ao partido porque o partido lhes dá a possibilidade de progredir na carreira. Os partidos políticos dizem que representam o povo no seu todo, mas só se representam a eles. O partido está a importar-se mais em conseguir obter boas colocações para os seus militantes do que em obter emprego para o povo.

Uma nova revolução seria ótimo, seria excelente. Hoje o povo tem os olhos mais abertos, sabe mais sobre política e quer participar mais ativamente 

Hoje é preciso uma nova revolução?

Isso seria ótimo, seria excelente. Hoje o povo tem os olhos mais abertos, sabe mais sobre política e quer participar mais ativamente na política. Uma revolução hoje teria outro caminho que não foi o caminho que tivemos de cruzar a partir do 25 de Abril e que terminou abruptamente a 25 de Novembro.

Concorda com a solução governativa que temos atualmente?

Concordo. É uma solução que vai minorar aquilo que é um desgaste profundo da classe trabalhadora. Foi um ato de audácia por parte de António Costa.

Audácia de Costa impediu a permanente aprovação de leis que lixam os trabalhadores

Audácia?

Sim, é ele que a tem ao criar uma maioria face à ameaça da vitória eleitoral do PSD/CDS, impedindo assim uma permanente aprovação de leis de Direita que lixem os trabalhadores. É uma audácia muito grande por parte de António Costa.

Só por parte de António Costa? E o PCP? E o Bloco?

É também uma audácia grande por parte do PCP e do Bloco de Esquerda que, perante os seus militantes, vão ter dificuldades em explicar determinados assuntos em que terão de concordar com o PS. Mas ainda assim acho que até agora tem funcionado. O PCP e o Bloco não perdem a sua independência, nem estão hipotecados porque não se trata de uma coligação e têm colaborado, até onde é possível, com o Governo.

O que lhe parece o trabalho de Marcelo Rebelo de Sousa?

Gosto muito dele e tenho uma boa relação com ele desde que era jornalista do Expresso. Acho que está a fazer um bom trabalho. Isto é completamente contrário ao perfil de qualquer outro Presidente, desde a compostura e rigidez de um Eanes, passando pela bonomia aparente de um Mário Soares que vai fazendo as suas sacanices como líder do PS e contra elementos do PS.

O Mário Soares tinha, no caráter dele, coisas que não me agradavam, mas era um 'politicão' bestial

A sua relação com Mário Soares não foi a melhor…

O Mário Soares tinha, no caráter dele, coisas que não me agradavam, mas era um ‘politicão’ bestial. Foi várias vezes preso pela PIDE, faz parte do currículo dele, mas nunca foi torturado porque era o filho do senhor conselheiro. Depois tive contacto direto com ele quando, após o 25 de Abril, ele foi enviado ao Lusaka para garantir que a Frelimo parava a sua ação armada em Moçambique. ‘Eu não confio nada neste gajo’, disse-me o então presidente, o general Spínola. A missão do Soares era trazer o cessar-fogo, a minha era vigiá-lo.

Mas ele admirava-o pelo seu papel na Revolução.

Eu reconheci nele essa admiração. Mas como político convinha-lhe ter uma aproximação a mim. Politicamente comecei a ver nele uma perfídia política de bastidores, defendendo coisas pelo povo que não iam ao encontro daquilo que eu pensava que o povo devia ter acesso.

Houve coisas boas durante a governação de Mário Soares?

Houve. A criação do Sistema Nacional de Saúde é uma coisa boa, pá. Mas havia também um colocar de pessoas do PS próximas a ele em funções-chave.

Foi ao funeral dele?

Não. Não compartilhei dessa dor do desaparecimento dele.

Devemos desconfiar totalmente a respeito das intenções de Passos Coelho. Ele está-se nas tintas para o povoVoltemos à atualidade. O que acha de Pedro Passos Coelho?

Francamente não gosto dele. Quando é eleito adquire uma altivez grande. Aquilo que ele diz é que é a razão, toda a gente no partido se subordina a ele. A submissão dele à Alemanha e à Comissão Europeia leva-me a considerar que ele é um elemento de quem nós devemos desconfiar totalmente a respeito das intenções dele que são para melhorar o estatuto dele próprio. Ele não pensa minimamente no povo, está-se nas tintas. O que lhe interessa é dar satisfação aos grandes industriais, à banca… Depois, quando finalmente perde, começa a perder terreno dentro do próprio partido. Um caso flagrante foi agora a autarquia de Lisboa.

A escolha para cabeça de lista fê-lo perder terreno?

Ele perde terreno porque é já demasiado tarde quando faz a escolha e fá-la contra a distrital do PSD de Lisboa. A Teresa Leal Coelho encabeça a lista porque é amiga de Passos Coelho, é feita vice-presidente do partido e, portanto, aceita do mestre participar nessa fantochada.

Não lhe agrada a Teresa Leal Coelho?

Ela disse logo que dentro de meses vai ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa... Nós não acreditamos, mas às vezes há milagres.

E José Sócrates?

Não tenho grande opinião sobe ele. Se tudo aquilo que é dito pelo Ministério Público é verdade, então ele merece uma punição exemplar, pá!

Parece-lhe que é verdade?

Julgo que o Ministério Público não ia arriscar o prestígio enquanto elemento fundamental para aplicação da Justiça se não tivesse indícios muito fortes.

Mas este constante adiamento dos prazos…

Vai adiando prazos porque vai recolhendo mais indícios. Não é só a questão do Carlos Santos Silva, é uma cadeia de corrupção que não para.

A banca tem sido uma dor de cabeça para os portugueses…

Isto é uma bandalheira e o ‘zé povo’ é que paga, pois está à mercê destes vivaços que vão para o governo e nós a vermos pensões e salários a serem diminuídos.

Então, onde está o problema?

O problema é que a banca nunca foi fiscalizada. O próprio Banco de Portugal, que depende diretamente do Governo, não foi fiscalizado, sendo que tem a seu cargo importantes missões de fiscalização. Quando o Vítor Constâncio, do PS, era governador deu-se o caso BPN. Ele não devia ter permitido que aquilo acontecesse.

Considero que os banqueiros todos nasceram para a corrupçãoMas o BPN não é caso único…

Não, não é. Tivemos o BES… O Processo Revolucionário em Curso conseguiu pôr o Ricardo Salgado e a família toda no Brasil. A nossa intenção foi a de colocar a banca de facto ao serviço do povo. Naquela altura foi um escândalo enorme quando se fez a nacionalização da banca. Eu considero que os banqueiros todos nasceram para a corrupção. Vivem luxuosamente como mais ninguém vive em Portugal e têm sempre a possibilidade de comprar os governantes.

*Pode ler a segunda parte desta entrevista aqui.

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