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"Temos vidrões e velhões. Depositamos os velhos no lar e deixamo-los lá"

A convidada do Vozes ao Minuto desta sexta-feira é Carmen Garcia, enfermeira, autora da página de Facebook 'A Mãe Imperfeita', e ainda colunista do Público. O mote da conversa é o lançamento do seu novo livro, 'A Última Solidão', que pretende colocar Portugal a falar de "velhos".

"Temos vidrões e velhões. Depositamos os velhos no lar e deixamo-los lá"
Notícias ao Minuto

04/11/22 por Natacha Nunes Costa

País Carmen Garcia

A enfermeira Carmen Garcia, conhecida também por 'A Mãe Imperfeita', nas redes sociais, acaba de lançar um livro sobre velhos. Sim, sobre velhos. É que a colunista do jornal Público não gosta da palavra ‘idoso’, considera-a condescendente. No livro 'Última Solidão' aposta numa linguagem crua, próxima e genuína. O objetivo é pôr o país a falar de velhos, que a sociedade tenha a coragem de enfrentar a velhice e que quem manda altere, urgentemente, o modelo de lares que hoje temos e que Carmen considera ser antiquado.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, a enfermeira com uma década de experiência em lares de idosos, conta como escolheu as 12 histórias contidas no livro. "Foi difícil", garante. Tinha muitas mais apontadas nos cadernos, que utiliza desde criança, para anotar o que de mais importante se passou no seu dia-a-dia. 

Escolheu, portanto, uma dúzia de pessoas - que já morreram e cujos nomes não são os verdadeiros - para mostrar o estado a que chegou o envelhecimento, num dos países mais envelhecidos do mundo.

Além das práticas desadequadas e desatualizadas que ainda se executam nos lares, em 'A Última Solidão' vamos encontrar "histórias de amor e mágoa". Histórias de solidão, abandono, demência, doenças mentais, violência doméstica e até abusos. No livro, a profissional de saúde fala-nos também de como é difícil para os portadores de deficiência cognitiva chegarem a velhos e da mágoa que sente por ter sido enfermeira de dois dos avós que já partiram.

'A Última Solidão' já está à venda nas principais livrarias nacionais. Depois de ter sido apresentado no dia 28 de outubro, Dia Internacional dos Idosos, no lar Raízes do Tempo, em Vendas Novas, onde Carmen trabalha e de onde é natural, será, às 18h30 da próxima terça-feira, dia 8 de novembro, apresentado no El Corte Inglês de Lisboa.

Há muitos casais que vão juntos para o lar e, no seio deles, há episódios de violência. Algo que ninguém acredita que pode acontecer num lar

Lançou no passado dia 28 de outubro o livro ‘A Última Solidão’, onde conta uma dúzia de histórias de "amor e mágoa" com as quais lidou, enquanto enfermeira, nos lares em que foi passando. Escolheu essas 12 pessoas por espelharem, cada uma à sua maneira, o que mais chocante existe na velhice?

Tenho sempre uns cadernos onde vou apontando as coisas mais importantes da minha vida, é uma coisa meio tonta, mas faço-o desde muito pequena e acho que piorou quando comecei a trabalhar com pessoas com demência. A partir dessa altura, comecei a achar que, de alguma maneira, aqueles cadernos podiam preservar a minha memória no futuro. Entretanto, com o passar dos anos, percebi que era necessário falar dos velhos em Portugal. Primeiro, foi difícil convencer alguém a acreditar que um livro sobre velhos podia dar certo. Os velhos estão um bocadinho esquecidos, as pessoas até preferem nem se lembrar. Portanto, não foi fácil. Mas quando finalmente alguém acreditou, fui buscar o tal caderno e escolhi 20 histórias. Só que ia ficar muito grande -  o preço do papel está um despropósito autêntico -, o livro ia ficar mais caro e ser lido por menos pessoas. Então, fui obrigada a encurtar. Foi difícil para mim escolher as histórias. Deixei de fora algumas muito bonitas. A mais feliz de todas, por exemplo, deixei de fora e até gostava de um dia a poder contar, mas o que tentei foi dar a realidade mais abrangente possível e falar de coisas que habitualmente não se falam.

Como por exemplo, a velhice de uma pessoa portadora de deficiência física e intelectual...

Sim, escolhi um utente com uma deficiência física e intelectual profunda porque se já é difícil ser deficiente em Portugal, ser deficiente e velho é duplamente difícil. A maioria das pessoas com deficiência não tem uma esperança média de vida igual às das outras pessoas e não são assim tantas as que chegam a idades mais tardias. Por isso, as que chegam estão quase numa terra de ninguém. Não há uma resposta adaptada.

Quis falar também da violência de género nos lares porque há muitos casais que vão juntos para o lar e, no seio deles, há episódios de violência. Algo que ninguém acredita que pode acontecer num lar. Escolhi ainda dois casos de demência um bocadinho diferentes entre si. Escolhi um caso de absoluta solidão. Tentei mostrar uma realidade abrangente do que se passa e falar das práticas que mais me preocupam e incomodam nestes locais. Tentei escolher histórias que permitissem falar sobre elas como a imobilização, a contenção, a falta de apoios na saúde mental no idoso. Tentei fazer o livro mais completo que consegui, sabendo que este tinha de ter 200 páginas para ter um preço minimamente simpático.

Em 2080, vamos ter 317 velhos por cada 100 jovens. Isto é um rácio completamente desequilibrado. Se agora temos 180 velhos por cada 100 jovens e já não temos resposta...

Na introdução do livro, garante que "em Portugal, é uma merda ser-se velho" e que o nosso país não está preparado para honrar quem o antecedeu. Que mudanças são necessárias, nos lares e na sociedade, para se dar aos "velhos" um fim de vida digno?

Nós sabemos pelos dados do Instituto Nacional de Estatística que, em 2080, vamos ter 317 velhos por cada 100 jovens. Isto é um rácio completamente desequilibrado. Se agora temos 180 velhos por cada 100 jovens e já não temos resposta, quando tivermos 317 a bolha vai rebentar com uma força que, se não mudamos as coisas agora, é para esquecer. Acho que as coisas têm que começar a mudar exatamente nessas duas coisas [lares e sociedade] e não isoladas. Não podem ser só os lares a mudar, nem pode ser só a sociedade a mudar. Vamos ter de mudar em conjunto. Em primeiro lugar, acho que se deve aproximar gerações, diminuir o intervalo entre elas. Temos de voltar a meter os velhos perto das crianças. As crianças e os jovens perto dos velhos. E como é que isso se faz? Com modelos diferentes de lares. É por isso que tudo tem de mudar em conjunto. Nós, enquanto sociedade, temos de passar a olhar para os velhos e perceber que, com sorte, um dia aqueles velhos vamos ser nós. E temos de passar a olhar para eles exatamente como os ciganos olham para os seus velhos, como poços de sabedoria, como a maior força de sabedoria que nós temos. Nós temos muito aquela ideia que a sabedoria vem toda nos livros de ciência e matemática e muita vem, mas há uma sabedoria que não vem nos livros e os velhos são os depositários. Nós temos que voltar a olhar para os velhos com respeito e temos de encontrar, urgentemente, um modelo de lar que satisfaça estas necessidades. O modelo de lar que nós temos não presta, não serve, porque, mesmo os nossos melhores lares não são adequados.

Porquê?

Temos uma esperança média de vida cada vez mais alta. A esperança média de vida subiu nos últimos anos e isso quer dizer que nós vivemos mais e mais doentes. Nos anos 90, a média de idades de entrada num lar rondava os 70 anos. Hoje em dia temos utentes a chegar perto dos 90. Há pessoas nos lares com 10 ou 20 doenças. O que não acontecia antes, porque morriam antes disso. Há 30 anos não tínhamos tantas pessoas acamadas, a alimentarem-se por sonda nasogástrica, algaliadas. Não tínhamos. Isso não acontecia. As pessoas não viviam tanto. Viver mais não é sempre sinónimo de viver melhor. É, muitas vezes, até sinónimo de viver mais dependente. E o que acontece, muitas vezes, nos nossos lares é que utentes independentes, que precisam de alguma pequena ajuda, estão misturados no mesmo espaço com os mais dependentes. Isto faz com que os lares não sejam bons nem para uns nem para outros.

Quebrou-se o convívio entre os velhos e a sociedade e esse convívio tem de existir porque quanto menos a gente vir os nossos velhos, menos nos lembramos deles

Então que modelo devíamos adotar?

O que eu defendo que devia acontecer nos lares é uma separação de utentes. Os utentes mais independentes deviam ser colocados num lar mais residencial, como o modelo alemão. Compra-se um terreno, faz um grande jardim e pequenas casas, que têm um quarto, uma sala, uma kitchenette e uma casa de banho. Quem é relativamente independente pode cozinhar, receber a família na sua casa, não tem horas de visita. Os netos podem ir dormir com os avós. As pessoas mantêm uma casa, que é sua. E existem equipas, tal como nos nossos lares, de auxiliares e enfermeiros, que vão várias vezes por dias às casas, ver se está tudo bem. Ajudam no banho, na higiene, deixam o almoço, lanche e jantar. Prepara-se a medicação, vai-se vigiando, mas as pessoas estão nas suas casas. Isso permite-lhes terem alguma autonomia. Ter também uma carrinha do lar que os levaria à comunidade. Isso é muito importante porque temos velhões, quase. Temos os vidrões, os papelões e os velhões, que são os lares. A gente deposita-os lá dentro e pronto, deixa-os lá estar. Quebrou-se o convívio entre os velhos e a sociedade e esse convívio tem de existir porque quanto menos a gente vir os nossos velhos, menos nos lembramos deles.

E para os idosos mais dependentes?

Para os velhos mais dependentes criar então os lares mais parecidos com unidades de cuidados continuados onde houvesse, por exemplo, um enfermeiro 24 horas por dia. Aquilo que acontece agora é que há utentes nos lares em que o nível de dependência é tão elevado que precisavam, para terem bons cuidados, de enfermagem 24h por dia. Neste momento, quase que é pedido aos lares que se transformem em mini unidades de cuidados continuados, em mini hospitais quando, na verdade, não é sequer obrigatório ter enfermeiro todos os dias. É um engodo. Esta separação é a única forma de garantir que aqueles que ainda têm condições para ter uma vida mais independente, mais integrada na sociedade, sejam mais respeitados e garantir, da mesma forma, que as pessoas mais dependentes tenham o nível de cuidados mais adequados às suas necessidades. Como estamos neste sistema híbrido, onde cabe tudo lá para dentro, não servimos nem uns nem outros. Note-se que eu acho que a maioria dos lares fazem o que podem. Fazem omeletes sem ovos. É o próprio modelo de lares, a própria forma como isto está organizado, que não serve.

Acha então que o ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social devia tutelar uma mudança junto dos lares?

Sim, em parceria com ministério da Saúde, devido aos utentes mais dependentes, medicados e com mais morbilidades. Eu acredito que o ministério da Saúde e o da Segurança Social têm que reunir e repensar o conceito de lar. Tem de ser um trabalho em conjunto, um trabalho em equipa.

É muito difícil arranjar pessoas que queiram trabalhar nos lares

Uma conversa que talvez devesse também incluir os diretores dos lares e os funcionários, não?

Em Portugal temos uma coisa incrível que é: ninguém ouve as formiguinhas. As formiguinhas somos nós, que passamos os dias nos lares, a cuidar dos velhos. O que acontece é que se ouve a direção do lar, que já pinta aquilo um bocadinho menos mal para não parecer incompetente, depois passa à Segurança Social, que quando vai ao diretor distrital já pinta aquilo mais um bocadinho. Quando o diretor distrital reporta aos adjuntos da ministra, vai ainda melhor. Quando chega à ministra já está tudo bem. Obviamente, ninguém pode pedir à ministra que passe o dia a fazer visitas surpresa a lares, mas muitas vezes o que chega lá acima não é a realidade com que nos deparamos todos os dias nos lares. Não é assim que funciona. Aquilo que se está a pedir aos lares neste momento é incompatível com aquilo que lhes oferece. A maioria das coisas que não são bem feitas nos lares acontecem porque não há condições para as fazer.

Como por exemplo...

É muito difícil arranjar pessoas que queiram trabalhar nos lares. As pessoas não querem e tem de se repensar isso, repensar estas carreiras, a forma como se vai chamar estas pessoas. Perceber que, sendo um trabalho tão importante, temos de criar o curso de gerontologia, vamos ter de apostar mais nisso, vão ter de se formar mais pessoas, vão ter de aumentar o salário dessas pessoas para as tentar atrair. Trabalhar num lar é um trabalho pesado. Mental e fisicamente pesado. É de um desgaste muito, muito grande e há pessoas que não conseguem mesmo. Já outras não querem. É necessário repensar como é que podemos atrair funcionários, como é que se pode tornar a carreira do cuidador de lar, do trabalhador de geriatria, mais atrativa. Há muita coisa para pensar, muita mesmo.

Quando tratamos um velho como uma criança, estamos a rebaixá-lo intelectualmente. Tratar idosos como crianças é privá-los da sua dignidade

Nos cuidados ao idoso defende que devemos deixar de os tratar como crianças e colocar um ponto final nas terminologias ‘inho’ e ‘inha’, como é o caso de "mudar a fraldinha", 'comidinha', etc. Em que aspeto é que, acabar com esta infantilização (e também descaracterização) dos utentes, poderá fazer a diferença?

Pode ajudar porque lhes restaura a dignidade que nós, sem querer, vamos roubado. A frase que mais odeio é 'os velhos são como as crianças'. Isso é confundir a raiz com a semente. É um erro brutal. Não, os velhos não são como as crianças. As crianças são um livro em branco, têm tudo para aprender, têm uma vida inteira pela frente. Os velhos são um livro quase terminado, cheio de histórias. E sempre que utilizamos termos como 'xixizinho' e 'fraldinha' estamos a roubar a dignidade às pessoas. Podemos ser carinhosos, podemos estar ali para todas as necessidades e podemos ter uma relação incrível com os nossos utentes, sem os tratar como uns tótós. Quando tratamos um velho como uma criança, estamos a rebaixá-lo intelectualmente. Tratar idosos como crianças é privá-los da sua dignidade e é urgente parar com isso, porque a dignidade do idoso é uma coisa que nós temos de tratar brevemente. Há muita coisa que as pessoas até fazem sem maldade, mas não estão corretas.

Isso acontece por falta de formação?

Isso é uma das coisas que, se pudesse, faria já porque tenho noção que reestruturar os lares é difícil. Tínhamos de aplicar o PRR a sério e começar a apostar nisto de outra forma, sendo que, era bom que boa parte do PRR fosse dedicado a tentar perceber o que podemos fazer mais para a frente. Dar formação é algo que faria já, que não tem um custo alto e poderia mudar muita coisa. Devia criar-se equipas distritais de formação em lares. Por exemplo, cada centro distrital pegar em duas ou três pessoas, entre enfermeiros, psicólogos e terapeutas ocupacionais, e criar equipas que vão aos lares trimestralmente ou semestralmente fazer formação aos funcionários. Formação que conte como horas de trabalho, para terem motivação para lá estar. Aquilo que vejo é que há mulheres incríveis a trabalhar em lares – digo mulheres porque estes trabalhos de cuidadores são, quase sempre, feitos, em Portugal, por mulheres – e, no entanto, estou sempre a ver, por exemplo, utentes mal posicionados porque nunca ninguém chegou ao pé delas e ensinou como é que se faz um posicionamento correto. Fazem assim porque foi assim que lhes ensinaram, porque outra colega já fazia assim. Entretanto, as guidelines mudaram e nunca mais ninguém lá foi. Já vi darem alimentação pela sonda nasogástrica das maneiras mais inadequadas. Por isso, tinham de existir equipas para dar formação nos lares. Há muita gente disponível em fazer coisas, em mudar as coisas, têm é de ser ensinadas primeiro. Esta é uma medida cujos custos não seriam de nenhuma exorbitância. Temos 18 distritos, logo criar 18 equipas, num país que cria comissões e grupos de trabalho por tudo e por nada, não me parece que fosse assim tão difícil. Não é uma coisa muito dispendiosa e poderia fazer a diferença.

Há pouco falamos de casos de violência doméstica e até de abusos em lares de idosos, como aconteceu com a mulher a que chamou 'Emília'. O feminismo continua a ficar à porta nestes locais?

Nunca vi o feminismo entrar em nenhum lar. Bate à porta, toca à campainha e ninguém abre, fica sempre do lado de fora. O problema nestas situações, como da 'Emília', é que temos sempre de tentar falar com as pessoas. Não podemos julgar factos históricos à luz da cabeça do ano 2022 e aqui acontece um bocado isso. É difícil explicar a uma mulher de 80 e tal anos, que acredita piamente naquilo e sempre viveu aquilo, que aquilo não é uma coisa a fazer ou que existem soluções. É muito difícil desmontar o pensamento de uma mulher que acha que o marido tem o direito de lhe dar umas chapadas, porque foi isso que ela sempre viu, ou que o marido tem o direito de forçar relações sexuais, porque 'coitado ele tem necessidades e ela está lá é para o servir'. Não podemos chegar lá e dizer isso não é nada assim porque elas ficam zangadas é connosco. Temos de arranjar um meio termo, onde se consiga equilibrar as crenças delas com aquilo que é minimamente aceitável, também para manter a dignidade delas. Escusamos de ir lá falar de empoderamento feminino porque isso faz tudo ricochete.

A saúde mental também é outra problemática que aborda no livro. O que pode ser feito nesta área para que os utentes não sejam "invisíveis", como foi e morreu 'Custódio'?

Acho que todos os lares deviam ter um psicólogo porque se a saúde mental já é um parente pobre desta coisa toda, a saúde mental dos velhos nem chega a ser o parente pobre porque nem parente tem direito de ser. Todos os lares deviam ter psicólogo, mesmo que não fosse todos os dias. Há utentes que precisam. A própria entrada no lar é um evento traumático, mesmo para aqueles que vão porque querem. Pressupõe sempre uma adaptação. Entram no lar, deixam a casa onde viveram a vida toda, deixam as suas rotinas, têm de ser integradas noutras. De repente deixaram de ter o seu próprio espaço e têm de dividi-lo. Há muitos lares que nem têm quartos individuais, portanto, o próprio espaço da intimidade é dividido, às vezes, com pessoas que não conhecem de lado nenhum. Os lares tinham de ter psicólogos para ajudar nesta entrada, para ajudar na adaptação, para ir acompanhando. Por exemplo, as mortes dos outros utentes, quando já estão no lar há algum tempo, mexe com eles, muito. Não só porque pensam 'se calhar sou o próximo', mas também pelos laços de afetos que se criam.

As pessoas velhas sentem muito e com muita intensidade. Passam por tristezas profundas, episódios depressivos. Não haver psicólogos nos lares, em 2022, quando sabemos da importância da saúde mental, é uma aberração. Isto só é justificável porque continuamos a tratar os velhos como seres de segunda. É como se a saúde mental deles não nos interessasse. Preocupa-mo-nos muito com a saúde mental dos nossos filhos e preocupa-mo-nos muito menos com a saúde mental dos nossos avós.

O 'Custódio' era um utente muito difícil, era uma pessoa muito perturbada, com muitos problemas na área da saúde mental. Ele achava que Deus lhe tinha roubado a visão porque não tinha ninguém que precisasse de ver e a verdade é que também ninguém o via a ele. Ele nasceu e morreu sozinho. Nunca foi visto e também deixou de ver. Quanto não tinha a ganhar um homem daqueles se tivesse apoio psicológico, mesmo que numa idade tardia. Quanto mais aquele homem podia ter libertado e contado?! Eu tentava arranjar sempre um bocadinho para ir ao pé dele, mas tinha muito trabalho. Às vezes, já depois do trabalho, ia ter com ele e ficávamos ali a falar cinco minutos e via que ele queria mais, mas eu não podia porque tinha de vir embora. Ele com certeza tinha ganho muito em ter esse apoio. Ele e muitos outros, só que esse apoio é uma miragem.

No livro há ainda vários casos de demência, algo que afeta muitos utentes (e famílias). A certa altura, diz mesmo que ser atingido por este problema rouba a vida 'bem antes do último suspiro'. Casos como o da ‘Maria do Rosário’ são dos mais difíceis de tratar?

Sim. Às vezes nem há muito a fazer por eles, há mais a fazer pelas famílias. A eles já não há intervenção possível, deixamos é muitas famílias abandonadas à sua sorte. É incrivelmente doloroso um filho chegar ao lar e ver que a mãe já não o conhece. O dia em que os pais deixam de reconhecer os filhos é uma coisa horrível e profundamente dolorosa. Se existisse uma relação mais próxima entre as famílias e os lares, o psicólogo que há pouco falávamos poderia trabalhar em todas as vertentes, trabalhar as famílias e os utentes.

Defende que ignoramos muitas vezes o que se passa nos lares de idosos por cobardia. Por temermos a velhice e a morte. Porque é que acha isso?

Nós somos iminentemente cobardes. Nascemos com uma certeza que é a morte e para conseguimos viver temos de arrumar essa gaveta na nossa cabeça. Aliás, não seríamos mentalmente saudáveis se estivessemos constantemente a ser confrontados com isso. Somos uma sociedade muito efémera, muito consumista, muito rápida e temos muito aquela coisa do 'Forever Young' [Para sempre jovem, em português] e não queremos olhar nos olhos quem nos lembra que 'forever young' é giro lá no álbum dos Alphaville, na vida real não se aplica. Nós fugimos desse confronto por cobardia, sim. Não queremos abrir aquelas gavetas onde temos guardada essa coisa tão má da nossa finitude e da morte. Vivemos muito melhor com essa gaveta fechada. Há pessoas que conseguem abri-la com os seus familiares e sabem que ela tem de ser aberta. Há outros que têm a cobardia de não a abrir nunca, portanto, afastam-se. É um mecanismo de negação, quase inconsciente, mas não deixa de ser um mecanismo profundamente cobarde, até porque, já dizia a minha avó: 'Filho és, pai serás'. Sempre que escolhemos fechar os olhos a um velho nosso, estamos a escolher que fechem os olhos a nós um dia.

Nos lares nota-se muito isso, não é? O abandono…

Acho que o abandono acontece por cobardia e porque temos todos muito que fazer, somos todos muito ocupados. Há uma história no livro, que é das piores. Aliás, decidi que nem a ia contar toda porque já havia tristeza a mais no livro, então dediquei-lhe apenas umas linhas, no fim. É o caso de uma senhora que entrou comigo num lar. A família já tinha tuido organizado. Prometeram turnos entre filhos e netos. Contudo, afinal apareceram quatro meses depois, com a funerária, para levantar o corpo. E seos ouvirmos, os quatro meses para eles passaram super rápido, já para ela pareceram anos porque ela é que estava sozinha no lar. Entre trabalhos, ir buscar pequenos à escola, etc, não encontram tempo para a visitar. Nós temos muito esta coisa do não ter tempo para os nossos mais velhos e isso é um erro que se paga caro, que se paga em doses industriais quando eles se vão embora. É nessa altura que percebemos que fomos profundamente amados por eles e que não soubemos retribuir esse amor. Já vi famílias em processos de culpa, mas nunca tive muita vontade de lhes estender a mão porque, na verdade, acho mesmo que eles têm culpa.

Através da sua página de Facebook 'A Mãe Imperfeita' é possível perceber que chega a levar os seus dois filhos ao lar onde trabalha. Porque é que faz isso?

Nós sabemos e isso é ciência, não é empirismo, que o convívio com crianças é um fator protetor da demência e um fator de importante estimulação cognitiva para os idosos. Também sabemos, de forma científica, que crianças que interagem com velhos, nomeadamente as que têm convívio próximo com os avós, têm menos probabilidade de desenvolver depressão na vida adulta. Levar os meus filhos ao lar é assim um momento feliz para toda a gente, até para mim que me livro deles por um bocadinho [risos].

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