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"A UE não é santa, é um demónio. Participa na guerra e promove a morte"

O cabeça de lista do partido PCTP/MRPP às eleições europeias, Luís Júdice, é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto

"A UE não é santa, é um demónio. Participa na guerra e promove a morte"
Notícias ao Minuto

23/05/19 por Natacha Nunes Costa

Política Luís Júdice

O PCTP/MRPP tem mais de 40 anos e Luís Júdice quase 70, mas muitos haverá que não conhecem o candidato português mais velho às eleições europeias, que, por sinal, defende a saída de Portugal da União Europeia (UE).

O Notícias ao Minuto falou com Luís Júdice para saber o que leva este antigo diretor de marketing a defender a ideia de desmembramento da União Europeia, que o PCTP/MRPP sempre defendeu desde a entrada de Portugal para a CEE.

Além da saída da União Europeia, o partido marxista defende também que Portugal deixe o euro e regresse ao escudo, e não pague a dívida.

Medidas que o próprio candidato assume "serem diferentes e difíceis de incorporar pela esmagadora maioria dos eleitores" e pelas quais admite lutar "completamente sozinho".

Apesar de tudo, nas eleições ao Parlamento Europeu de 2014, o PCTP/MRPP obteve a preferência 1,66% dos eleitores portugueses.

Muitos dos eleitores não o conhecem, mas já pertence ao PCTP/MRPP há muitas décadas e até já se candidatou a vários cargos em representação do partido. Fale-nos um pouco da sua vida e de como nasceu esta paixão pela política.

Nasci em 1950, portanto já sou daquela geração já perto dos 70 anos. Nasci em Moçambique, mas aos 11 anos emigrei com os meus pais para o Brasil. Em 1962, em vez de regressar a Moçambique, os meus pais decidiram vir para Portugal de onde ambos eram oriundos. Tivemos de 62 a 69 em Lisboa, ano em que decidi voltar para Moçambique e onde estive até abril de 1973. 

Depois de regressar a Portugal integrei o cineclube universitário de Lisboa, onde tomei contacto com o MRPP e passei a simpatizar e a militar no então Movimento Reivindicativo do Partido do Proletariado. Participei no '1.º de Maio Vermelho', em várias manifestações anticolonialistas organizadas por uma estrutura influenciada pelo RPAC onde, pela primeira vez, numa manifestação organizada pela esquerda em Portugal antes do 25 de Abril, houve um contra-ataque poderosíssimo contra a PIDE e contra a Polícia de Choque, que deixou os próprios absolutamente atónitos porque nunca tinham tido uma resistência tão musculada.

De seguida, frequentei Direito, mas não terminei o curso porque começou a ser insustentável estudar, trabalhar e ainda estar com o filho que já tinha na altura. Depois do 25 de Abril, fui jornalista em várias publicações, desde um jornal que existia na altura que era o Atualidades, até à Vida Mundial, que foi dirigida pela Natália Correia. Posteriormente, fui para a redação do Luta Popular, o órgão central do PCTP/MRPP. 

Finalmente, dediquei a minha carreira profissional à área do marketing, assumindo várias posições em várias empresas como diretor de marketing e diretor comercial de marketing.

E qual é a sua maior paixão a nível profissional?

A minha paixão é a política. A minha segunda paixão é o marketing e a terceira é o jornalismo, mas não vejo grande nível de diferença entre umas e outras.

Dizemos muito perentoriamente que Portugal só conseguirá recuperar a sua soberania se sair da União Europeia e do euro e explicamos porquê

Candidatou-se à Assembleia Municipal de Lisboa e, posteriormente, à Câmara da capital. O que o levou agora a encabeçar a lista do PCTP/MRPP às Europeias?

Um convite do partido. Em princípio, posso assegurar que não serei o candidato às legislativas, mas o partido decidiu que eu tinha o perfil adequado para me candidatar ao Parlamento Europeu. Em segundo lugar da lista temos um independente, o Dr. José Preto que não é simpatizante nem militante do PCTP/MRPP, mas que é um democrata e um patriota e tem tido um papel fundamental na animação desta lista de candidatos.

Apesar de se candidatar ao cargo de eurodeputado, o PCTP/MRPP continua a insistir na necessidade de Portugal sair da União Europeia e do euro. Isso não é um contrassenso?

Não. A razão pelo que o fazemos é a mesma razão que nos leva a candidatar às legislativas em Portugal. Nós temos a absoluta consciência, como marxistas que somos, de que não é nem se quer a eventualidade de ter uma maioria de deputados na Assembleia da República ou uma maioria de deputados no Parlamento Europeu que alteraria a natureza de classe do órgão.

Só se consegue mudar a natureza das coisas através de uma rutura revolucionária completa. Nós aproveitamos, durante as eleições, para passar o nosso programa de ação, quer do ponto de vista interno em Portugal, quer no ponto de vista internacional. Não temos ilusões, como alguns têm. Os partidos que querem pôr-se em bicos de pés para alcançar o poder funcionam muito na base da condicionante: ‘se isto acontecer, se aquilo acontecer’.

Nós não, nós dizemos muito perentoriamente que Portugal só conseguirá recuperar a sua soberania se sair da União Europeia e do euro e explicamos porquê. Temos consciência de que é um caminho que se tem de fazer mesmo se formos eleitos para o Parlamento Europeu. Por isso vamos utilizar esta plataforma, como utilizaremos a do Parlamento nacional para congregar o maior número de apoios e alianças e para fazer crescer um movimento que imponha o desmantelamento da União Europeia e do euro, porque este sistema promove a exploração por parte das grandes potências europeias, nomeadamente a Alemanha, de nações mais fracas como é o caso de Portugal.

A União Europeia, além de ser a guerra e estar a preparar a guerra, não é santa, é um demónio nessa matéria. Participa na guerra e promove a morteOu seja, não quer só a saída de Portugal, defende o desmembramento de toda a União Europeia.

Exatamente. Porque a União Europeia, além de ser a guerra e estar a preparar a guerra, como se evidencia pelos cenários em que várias tropas europeias estão envolvidas neste momento, não é santa, é um demónio nessa matéria. Participa na guerra e promove a morte. É preciso desmantelar a Europa não só na perspetiva portuguesa, de libertar o país para assumir a plena soberania, como também para enfraquecer um espaço que tem sido um espaço de agressão sobre terceiros.

Além disso, também defendem que Portugal não deve pagar a dívida. Como?

Em 2000, quando nós aderimos ao euro, a dívida representava qualquer coisa como 48,6% do PIB. Passados 20 anos, estamos 121,5% da dívida. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que o euro é bom para países como a Alemanha, que têm o nível de exportações muito elevado, mas para Portugal, que tem uma economia fraca, é péssimo. A nossa balança de pagamentos de bens transacionais é permanentemente deficitária, o que faz com que a dívida vá encrespando porque aceitamos, no quadro da adesão ainda à CEE, liquidar por completo o nosso tecido produtivo.

O facto de termos destruído a nossa economia dos campos, levou a qualquer coisa como a expulsão de cerca de 300 mil agricultores e assalariados florais. Em 1975, a nossa indústria representava 25% do PIB, em 2018 representava 13% e a agricultura que representava em 75 11% do PIB, em 2018 representA 2%, ou seja, a dívida está completamente associada a este descalabro que foi a destruição do nosso tecido produtivo. Claro que isto vai criar, a par de uma moeda forte como o euro, uma dívida completamente insustentável e impagável. Não é pagável! É por isso que nós dizemos que é de um oportunismo inqualificável que, para caçar votos aos trabalhadores e mantê-los num regime dessa exploração como a que se vive, se ilude que a dívida não é a causa dos nossos problemas. Ela é consequência dos nossos problemas económicos que foram provocados pela destruição do nosso tecido produtivo.

Exigimos a saída do euro e a retoma do escudo precisamente por isso, para podermos ter capacidade e soberania sobre a desvalorização ou a inflaçãoMas acha que a UE nada faria se Portugal não pagasse a dívida?

E depois? Despenteava-nos? Matava-nos? A solução que até agora tem sido adotada para o problema da dívida tem sido aquela que satisfaz os credores, os bancos, os monopólios capitalistas, o imperialismo alemão, e também agora o Governo de António Costa e as suas muletas. A solução que eles defendem assenta no seguinte: ‘se há défice orçamental, nada de desvalorizar a moeda ou promover a inflação'. Isto porque as regras do euro não permitem inflação. Exigimos a saída do euro e a retoma do escudo precisamente por isso, para podermos ter capacidade e soberania sobre a desvalorização ou a inflação que, em determinados momentos, e isso verifica-se em várias zonas do globo, é necessário.

Hoje em dia, essa inflação produz-se, não se produz no euro, mas produz-se de outra forma. E como é que ela se produz? No corte das despesas do Estado, nomeadamente, naquelas que se relacionam com a saúde, educação, assistência social, salários de funcionários públicos, aliás, roubo dos salários como nós lhe chamamos e roubo do tempo de trabalho. Inflações internas que não atingem o euro, mas atingem o trabalhador português.

Nós não somos isolacionistas, como alguns nos tentaram colar o selo, não! Queremos é ter a nossa soberania intacta  E quais seriam as principais vantagens para Portugal ao desagregar-se da União Europeia?

Recuperar a sua soberania e decidir sobre como orientar a gestão do escudo perante os desafios que se lhe colocam do ponto de vista económico. Na área do investimento facilitaria, extraordinariamente, a retoma do tecido industrial e, ao favorecer a retoma do tecido industrial, ia também ter influência positiva na balança de pagamentos de bens trasacionáveis. 

Depois, porque nos possibilitaria tomar uma atitude independente. Nós não somos isolacionistas, como alguns nos tentaram colar o selo, não! Nós somos pela continuidade das relações de Portugal com todos os países europeus, somos pela implementação da nossa vocação atlântica, na nossa relação com países africanos e com países da América Latina, somos pela participação mais ativa e abrangente de Portugal no programa da nova Rota das Sedas. Queremos é ter a nossa soberania intacta, no ponto de vista da moeda, do ponto de vista orçamental, do ponto de vista fiscal, do ponto de vista aduaneiro para poder gerir e ir ae encontro dos interesses do povo.

A saída de Portugal de um espaço como a União Europeia e do euro não vai ser pacífica, não vai ser abraços e beijinhosQue medidas apresenta o PCTP/MRPP para Portugal sair da União Europeia?

Para sair da União Europeia e do euro não podemos promover chás das cinco horas. Claro que isto vai resultar em convulsões, não vai ser pacífico. A saída de Portugal de um espaço como a União Europeia e do euro não vai ser pacífica, não vai ser abraços e beijinhos, amigos como antes, não vai. O povo português e o país vão ter de estar muito bem preparados para resistir à chantagem e ir em busca dos aliados externos que permitam aliviar essas tensões.

Perante o caso do Reino Unido, do impasse do Brexit, não tem receio que Portugal passasse pelo mesmo?

O Brexit tem de ser entendido num contexto de uma guerra imperialista que está em preparação. A Grã-Bretanha é uma potência regional, está envolvida num mercado que é, no seu conjunto, bastante superior àquele que a Europa a 27 tem, onde, só para recordar, estão envolvidas nações como a Índia, a Austrália, o Canadá, cujo PIB integrado é superior aquele que é gerado pela a União Europeia sem a Grã-Bretanha. O Brexit vai concretizar.-se Não nos mesmos moldes em que nós pretendemos que Portugal saia, até porque é dirigido por uma fração absolutamente conservadora da burguesia britânica, mas vai-se dar.

A competição com a Alemanha e com a França é a razão principal da sua crença em sair do espaço europeu. A Grã-Bretanha sabe que no espaço europeu estão em conflito permanente com essas duas potências europeias Agora, Portugal tem uma palavra a dizer neste sentido, que é se quer ser carne para canhão desta clivagem interimperialista ou se quer ter uma posição perfeitamente independente desta guerra.

António Costa e todos os governos que, até agora, têm apoiado o envio de tropas para esses teatros de guerra terão de ser responsabilizados se vier a acontecer em Portugal um ataque daqueles que se sentem atacados

E qual é a posição que Portugal devia adotar?

Independente, colocar-se à margem desse quadro, não permitir que o país sirva de carne para canhão, como está a servir quando, por exemplo, enviamos tropas para o Kosovo, para o Afeganistão, para a República Central Africana, para entrar em conflitos que não nos dizem respeito e que até são inconstitucionais. Depois não se venham lamentar. Uma ação provoca uma reação. A nossa presença, as nossas tropas nesses teatros de guerra, está a ser observada por quem é atacado e a reação das pessoas que são atacadas pode ser atacar-nos no nosso próprio território, como já aconteceu em França e noutros países europeus. Portanto, António Costa e todos os governos que, até agora, têm apoiado o envio de tropas para esses teatros de guerra terão de ser responsabilizados se vier a acontecer em Portugal um ataque daqueles que se sentem atacados.

Defende ainda que os portugueses não foram consultados sobre as condições de adesão à UE. Como pretende consultá-los sobre as condições de uma eventual saída?

Num quadro em que existe mais do que 60% de abstenção, acho que é bem definidor do que é que os portugueses pensam acerca da União Europeia. Além disso, em 20 anos de euro, Portugal perdeu 424 mil milhões de euros em riqueza do PIB, enquanto, pelo contrário, a Alemanha ganhou 1812 mil milhões de euros em riqueza do PIB. O desemprego aumentou. O Governo diz que terminou 2018 com 7% de desemprego, mas isso não é verdade porque se incluirmos os desencorajados, os desempregados, os inativos indisponíveis para trabalhar, os ocupados do IEFP e os emigrantes, a taxa de desemprego no final 2018 é de 14,6%. É verdade que melhorou em relação ao período do governo de direita com extrema-direita (PSD - CDS), mas não deixa de ser um desemprego que nos deixa atónitos perante a política de convergência e progresso social que nos foi anunciada. Os dados do eurobarómetro indicam que, em 2017, 113 milhões de europeus enfrentavam a pobreza e 32 milhões de trabalhadores estavam em risco de pobreza, ou seja, mesmo trabalhando estavam em risco de pobreza. É esta a Europa de convergência que as pessoas nos querem vender? Nós não aceitamos, não queremos!

E que outras medidas apresenta o PCTP/MRPP ?

A medida principal é a saída da União Europeia e a reintrodução do escudo. Após a entrada em vigor do novo escudo temos consciência de que teríamos de promover uma desvalorização da moeda na ordem dos 30%. Aliás a retoma da soberania orçamental e monetária prevê que uma medida dessas tenha de ser tomada, mas é aquilo que já acontece. A desvalorização que já acontece sobre os salários e sobre as prestações sociais, que decorreram do programa de autoridade que quer PS, quer PSD, quer CDS aceitaram, nomeadamente, quando a troika veio para cada, resultou em cerca de 40% de abaixamento de salários para a Função Pública e mais de 20% de abaixamento de salários para a zona privada.

Enquanto essa inflação só atingiu os trabalhadores, a inflação que vamos promover, após a inserção do escudo, vai atingir todos, todos os setores e inclusive a dívida. Uma desvalorização da moeda em 30% vai permitir reduzir a dívida, desde logo, em 30% e permitir autofinanciar, recuperar o nosso tecido produtivo e reequilibrar a nossa balança de pagamentos de bens transacionáveis para que Portugal não tenha de importar tanto e agravar, de uma maneira insustentável e de forma perpétua, a dívida.

Temos noção de que somos um partido que tem uma mensagem diferente e difícil de ser incorporada pela esmagadora maioria dos eleitores, mas o caminho faz-se caminhandoE não se sente sozinho nessa luta?

Completamente, mas isso não nos atemoriza, nunca nos atemorizou não era agora que nos ia atemorizar. Formaram-se dois campos, o campo do PCTP/MRPP que defende a saída do eEuro e da União Europeia e os campos dos outros que defendem a manutenção na União Europeia, mas o facto de sermos minoria, não nos atemoriza. Houve situações na História em que as minorias se tornaram maiorias e as maiorias se tornaram minorias. Não é isso que nos apoquenta, o que nos apoquenta é saber se a nossa proposta é justa, se vai ao encontro dos interesses do povo mesmo que ele não a tenha entendido ainda como um benefício.

Em que resultado acredita o PCTP/MRPP? Acredita que os portugueses o vão eleger?

O resultado nós não podemos adivinhar. Temos noção de que somos um partido que tem uma mensagem diferente e difícil de ser incorporada pela esmagadora maioria dos eleitores, mas o caminho faz-se caminhando. Não temos uma perspetiva de resultado, mas temos um resultado já, e esse resultado é que são obrigados, porque senão perdiam a máscara de democratas, a deixar-nos participar nas eleições, são obrigados a dar-nos um espaço em que nós vamos conseguir divulgar o nosso programa de ação quando no resto do tempo todos nos calam, nos silenciam, nos isolam, nos ostracizam. Este é o momento de aproveitar o máximo possível as oportunidades que nos são dadas para poder divulgar a nossa posição e isso já é uma grande vitória para nós.

Campo obrigatório