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'Portugal Amordaçado' é obra decisiva para existência política de Soares

O antigo presidente da Assembleia da República Jaime Gama considerou hoje que o livro "Portugal Amordaçado" de Mário Soares, de 1972, foi uma obra decisiva para a sua existência política, então acossado pelo Estado Novo e pela extrema-esquerda.

'Portugal Amordaçado' é obra decisiva para existência política de Soares
Notícias ao Minuto

23:00 - 07/12/23 por Lusa

Política Jaime Gama

Jaime Gama, fundador do PS, na sessão de apresentação de uma edição revista e ampliada do livro 'Portugal Amordaçado - Depoimento sobre os anos do fascismo', de Mário Soares, no dia em que o antigo Presidente da República completaria 99 anos de idade.

O 'Portugal Amordaçado', segundo o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, foi uma obra decisiva para a existência política do autor.

"Mário Soares, quando arranca para a escrita deste livro, está num momento difícil da sua trajetória política", sustentou.

Discursando antes do primeiro-ministro, António Costa, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Jaime Gama defendeu que o Portugal Amordaçado "não é um livro escrito no quadro de um percurso de normalidade ou de facilidade, porque Mário Soares tinha não só o problema de se confrontar com uma ditadura, mas tinha também o problema de gerir o seu espaço como líder político".

"Portanto, este livro não é um livro como um tratado de filosofia política ou como um romance político. É um livro que tem em relação ao autor a função de ser algo do qual ele depende para o seu futuro político, porque ele está não só acossado pelo regime, ele está também circunscrito e confrontado com um conjunto de correntes políticas no campo da oposição que não se identificam com ele, que não o tinham sufragado na última eleição, e que o tinham até em muitos casos e hostilizado e antagonizado", realçou.

Para Jaime Gama, Mário Soares "usa este livro em estado de necessidade", procurando, igualmente, "evitar que o seu exílio fosse um passo mais no sentido da sua destruição".

"Porque os exílios podem ser - e muitas vezes são - passos mais degradativos para a destruição de um político do que a própria prisão. Mário Soares tinha uma agudíssima consciência disso. E por isso esse empenha no livro", acrescentou.

No discurso inicial da sessão, o escritor José Manuel dos Santos fez um resumo das reações que o Portugal Amordaçado provocou em diferentes personalidades, com particular destaque para o futuro fundador e primeiro líder do PPD, Francisco Sá Carneiro, que elogiou, e para o então presidente do Conselho, Marcello Caetano, que repudiou.

"No presente opressivo daqueles anos, esta obra situa-se entre o triste passado do Portugal de então e a esperança combativa num futuro livre. Encontra-se também esta obra entre a vida vivida por Soares e a vida que veio a viver. É um balanço do passado e um balanço para o futuro", considerou o coordenador do relançamento da obra.

José Manuel dos Santos, que foi assessor do antigo Presidente da República entre 1986 e 1996, lembrou que Mário Soares faria hoje 99 anos.

"Em 2024 e a prosseguir em 2025, vamos comemorar o centenário do seu nascimento. Constituiu-se uma comissão organizadora, plural e representativa, que tem estado a trabalhar ativamente com os órgãos de soberania e com a sociedade civil num programa com um acento contemporâneo, que divulgue e atualize os valores e as causas de Soares, aproximando o seu legado das novas gerações, ao mesmo tempo que crie novos conhecimentos sobre a sua figura, o que foi, o que fez e o que representa", referiu.

José Manuel dos Santos será o coordenador destas comemorações do centenário do nascimento de Mário Soares.

No final da sua intervenção, acentuou a atualidade do Portugal Amordaçado: "Neste nosso tempo, em que as ameaças se somam às incertezas e se juntam às tragédias, lemos o Portugal Amordaçado e pensamos no exaltante destino do seu autor".

"Ao fazê-lo, reencontramos aquela verdade que nos diz: O mundo faz de nós aquilo que nós fizermos dele", afirmou. 

A seguir a José Manuel dos Santos, o antigo presidente da Câmara de Lisboa João Soares caracterizou o seu pai como "um homem de família".

"Como muitas vezes dizia a minha irmã Isabel, era o nosso herói", referiu.

Na sua intervenção, entre outros episódios, contou as circunstâncias em que foi escrito no exílio o livro 'Portugal Amordaçado' e recordou o episódio em que Mário Soares regressou a Portugal para o funeral do seu pai, João Lopes Soares, em julho de 1970.

"Admitíamos que fosse preso logo à chegada, mas acabou por estar três dias em liberdade vigiada. Depois do funeral, decidiu regressar ao exílio por duas razões: Para acabar o Portugal Amordaçado e para fundar o PS", sustentou o antigo dirigente do PS e presidente da Câmara de Lisboa.

Em relação à reedição do livro Portugal Amordaçado, João Soares deixou um rasgado elogio ao trabalho "uma vez mais de se tirar o chapéu" de José Manuel dos Santos, coordenador da coleção 'Obras de Mário Soares', da Imprensa Nacional Casa da Moeda.

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