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Trabalhos sobre linfoma não-Hodgkin e demência entre os premiados

Os cientistas Joana Dias Gomes, investigadora na área do linfoma não-Hodgkin, e Miguel Azevedo Pereira, na de demência e do vírus da sida, foram dois dos 13 premiados com as bolsas Gilead Génese 2019, foi hoje anunciado.

Trabalhos sobre linfoma não-Hodgkin e demência entre os premiados
Notícias ao Minuto

07:24 - 21/11/19 por Lusa

País Bolsas Gilead

As bolsas, atribuídas pela farmacêutica Gilead, apoiam com 330 mil euros oito projetos de investigação científica e cinco de intervenção comunitária, nas áreas de hemato-oncologia, doenças hepáticas virais e metabólicas e infeção VIH/sida.

Joana Dias Gomes, veterinária e investigadora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa, coordena um trabalho que visa desenvolver um tratamento direcionado e mais eficaz para o linfoma não-Hodgkin com recurso à nanotecnologia e biotecnologia.

Miguel Azevedo Pereira, investigador e professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, vai averiguar os motivos por que pessoas infetadas com o vírus da sida sofrem a prazo de demências e alterações cognitivas, apesar de o VIH infetar poucas células do sistema nervoso central.

Na área da investigação foram ainda financiados trabalhos liderados pelos cientistas Paula Macedo (Universidade Nova de Lisboa), Maria do Carmo Fonseca, Amélia Chiara Trombetta e João Forjaz Lacerda (Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes), Carlos Penha Gonçalves (Instituto Gulbenkian de Ciência) e Cristina João (Fundação Champalimaud).

No campo da intervenção comunitária, a Gilead decidiu apoiar este ano projetos da Fundação Portuguesa "A Comunidade Contra a Sida", do GAT - Grupo Português de Ativistas sobre Tratamentos VIH/sida, da Associação de Infecciologistas do Norte, da Bué Fixe - Associação de Jovens e da Associação de Intervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e de Saúde.

As bolsas, que contam com o alto-patrocínio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, serão entregues hoje em Lisboa.

O linfoma não-Hodgkin é um tipo de cancro que surge no sistema linfático, em que as células de origem do cancro são os linfócitos, células que habitualmente defendem o organismo contra infeções e doenças quando são saudáveis.

A equipa de Joana Dias Gomes propõe-se desenvolver e testar, primeiro em culturas de células e depois em ratinhos com linfoma não-Hodgkin, um tratamento mais eficaz e seguro para os doentes através de um "sistema de entrega de medicamentos" direcionado para as células tumorais.

Recorrendo à nanotecnologia e à biotecnologia, o grupo de trabalho vai produzir imunolipossomas, vesículas (estruturas celulares) feitas num material biológico que "engana" o sistema imunitário mas que incorpora medicamentos que vão atuar especificamente sobre as células tumorais sem afetar as saudáveis.

Em declarações à Lusa, Joana Dias Gomes, que se especializou na investigação em ciências biomédicas, explicou que estas vesículas (pequenas estruturas que existem dentro de células) vão ter à superfície duas substâncias que vão "direcionar a terapêutica" contra o linfoma.

Uma das substâncias é um anticorpo contra o "recetor CD-22", um recetor tumoral que "está sobreexpresso nos linfomas".

A outra é o ácido fólico, uma vitamina que vai ligar-se a umas proteínas designadas de recetores de folato, que "são mais abundantes nas células tumorais devido ao seu próprio metabolismo, que é mais acelerado", esclareceu Joana Dias Gomes, que faz investigação oncológica comparada nos animais e humanos para desenvolver "estratégias" de tratamento que "possam ajudar os animais de estimação e pessoas".

No caso do linfoma não-Hodgkin, trata-se de uma doença cuja "incidência tem vindo a aumentar", nomeadamente entre idosos e pessoas infetadas com o vírus da sida, que têm as defesas mais em baixo e, segundo Joana Dias Gomes, estão mais suscetíveis a recidivas e a complicações após a terapêutica convencional de quimioterapia.

A equipa liderada por Miguel Azevedo Pereira, doutorado em microbiologia, quer saber como e porque o vírus da sida induz a neurodegenerescência, que pode levar a uma encefalite (inflamação no cérebro), a demências, afetar a memória, o comportamento, a visão e a audição.

"Havendo poucas células [do sistema nervoso central] afetadas [pelo VIH], porque é que o dano é tão grande?", questiona.

A resposta pode estar nas vesículas extracelulares, uma espécie de bolinhas que as células - no caso células do sistema nervoso central infetadas pelo VIH - libertam e que poderão disseminar a infeção por células vizinhas saudáveis.

A hipótese vai ser testada em laboratório com culturas de células semelhantes a células do sistema nervoso central (neurónios, astrócitos) que serão infetadas com o vírus da sida.

A ideia da equipa é ver se as vesículas extracelulares das células infetadas, ao serem introduzidas em células saudáveis, vão afetar estas e gerar as alterações neurodegenerativas identificadas em pessoas infetadas com o VIH.

A confirmar-se mais tarde a hipótese em doentes, as vesículas extracelulares, e o que as compõem, podem servir de biomarcador numa amostra de líquido cefalorraquidiano (líquido que circula entre o cérebro e a medula espinal) para diagnosticar atempadamente tais alterações.

Miguel Azevedo Pereira, que tem médicos, biólogos e bioquímicos no seu grupo de investigação, realçou à Lusa que as vesículas extracelulares têm sido apontadas como veículos de transporte de células cancerígenas para células vizinhas saudáveis.

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