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Dia simbólico, luta diária. A inédita Greve Feminista que juntou milhares

Milhares de mulheres (e homens também) juntaram-se esta sexta-feira em várias cidades do país para defender a igualdade entre géneros.

Já passava das 19h00 quando milhares de pessoas que esta sexta-feira, pelos valores feministas se concentraram em Lisboa, arrancaram uma marcha ruidosa ao som de bombos e tambores e promessas de mudar o mundo.

Foi ao cair da noite que milhares iniciaram o desfile entre o Terreiro do Paço e o Rossio, em defesa de que hoje e os dias que se seguirem sejam novos para os direitos das mulheres.

No Dia Internacional da Mulher, que se assinalou ontem em todo o mundo, pediu-se o fim da violência contra as mulheres, sobretudo a violência doméstica, que continua a pontuar as estatísticas no país com femicídios.

Direitos iguais e efetiva justiça para as mulheres violentadas e discriminadas marcaram as mensagens nos cartazes e palavras de ordem, em que o juiz Neto de Moura foi figura de destaque e alvo constante de apupos e críticas por causa dos seus acórdãos polémicos em casos de violência doméstica.

Num cartaz exibido pela delegação do Bloco de Esquerda, liderado pela coordenadora, Catarina Martins, lia-se: "Não queremos flores, queremos justiça e o juiz Neto de Moura fora dela".

Momentos antes do arranque, o Terreiro do Paço silenciou-se em homenagem às vítimas de violência. A marcha começou depois ruidosa, com a organização, da Rede 8 de Março, a gritar aos microfones, em cima de uma carrinha de caixa de aberta, "deixa passar, deixa passar, sou femininista e o mundo eu vou mudar".

A ativista brasileira Marielle Franco, assassinada em março do ano passado, foi também lembrada na manifestação com uma enorme faixa evocativa de uma placa toponímica com o seu nome.

Dia simbólico, luta diária

"Acho importante que centremos a luta nas mulheres, na consciencialização das mulheres, porque pensamos sempre porque é que os homens não se juntam, mas não perguntamos porque é que não há mais mulheres ainda a juntarem-se. Fazemos cada coisa passo por passo. Primeiro havemos de trazer as mulheres. Depois traremos os homens", disse à agência Lusa Teresa Silva, dirigente do movimento feminista. 

O dia é simbólico, mas a luta é diária, sublinhou, traduzindo uma ideia acompanhada pelas manifestantes ouvidas pela Lusa, como Madalena Madeira, que disse temer retrocessos nos direitos conquistados com o crescimento da extrema-direita um pouco por todo o mundo, e que considera a violência doméstica o maior problema das mulheres em Portugal, ainda que lhes junte outros, como os abusos, o assédio, as violações, os homicídios.

"Mulheres livres como o vento", pedia Inês Teles entre a multidão, num cartaz vermelho erguido bem alto. Diz que falta liberdade às mulheres, falta em resposta a "forças que oprimem", mas diz que entre os mais novos, os da sua geração -- Inês está perto dos 30 anos - o feminismo tem feito caminho.

"Acho que tem de passar um pouco por todos a mudança de mentalidades, porque é uma coisa estrutural e que afeta toda a gente quase desde o berço. Acho que é preciso um esforço conjunto para que haja uma mudança", disse.

Catarina Fontinha aparenta uma idade semelhante, mas nem o progresso que uma geração vai fazendo evitou que também ela fosse vítima de violência doméstica, uma situação que também pode afetar mulheres jovens e inteligentes, como a própria se considera, e da qual apenas tomou efetiva consciência no momento em que teve de pedir ajuda à GNR para lidar com um companheiro violento. Ter sobrevivido pode não passar de um acaso, disse.

"Eu já fui vítima de violência doméstica. Tive vergonha de dizer na altura, tive muita dificuldade em perceber o que se estava a passar e tive a sorte de sobreviver, porque se calhar não chegou 'àquela parte', mas quatro anos depois de sair daquela situação, por muita luta, por muito trabalho que faça interno, a verdade é que as mazelas continuam aqui. E tive apoio, mas é uma coisa que fica no nosso sistema e para podermos mudar aquilo que conseguimos fazer por nós e conseguirmos 'empoderar' outras mulheres, só conseguimos fazer isso se estivermos unidos e se formos sarando as nossas feridas", disse.

De vítima a ativista foi um passo, e uma necessidade para lidar com o seu próprio caso, explicou Catarina Fontinha, que chegou à manifestação acompanhada por um grupo de jovens raparigas também elas ativistas, que encontrou no metro, a caminho do Terreiro do Paço, e que lhe chamaram a atenção pelos cartazes com mensagens de luta com as quais se identifica.

"É uma luta diária. [...] A luta feminista é uma luta de todos os nós, não é uma luta de hoje, é uma luta dos tempos e é intemporal, enquanto continuar a haver violações e agressões que saem impunes, [enquanto continuar a haver] juízes como o Neto de Moura que tem muitos problemas em ser criticado, mas não tem problema nenhum em criticar as mulheres de forma absurda nos seus tribunais, e enquanto a violência doméstica, que é crime público, não for trabalhada como tal", afirmou.

O primeiro-ministro, António Costa, acompanhado pela mulher, Fernanda Tadeu, a líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, e a cabeça de lista do partido às eleições europeias, Marisa Matias, acompanhadas de um conjunto de deputados e dirigentes bloquistas, assim como o deputado do PAN, André Silva, e outros membros do Governo, como a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, marcaram presença na concentração.

A Greve Feminista, uma organização da Rede 8 de Março, um coletivo de organizações feministas, esteve por todo o país, em Albufeira, Aveiro, Braga, Chaves, Coimbra, Lisboa, Porto, Viseu, Amarante, Vila Real, Évora, Fundão, Covilhã e São Miguel, nos Açores, entre manifestações e uma greve social.

Segundo a Rede 8 de Março, a greve feminista internacional divide-se entre greve ao trabalho laboral, greve ao trabalho doméstico, greve estudantil e greve ao consumo, e pretende alertar para o quotidiano das mulheres e perceber as várias discriminações de que são alvo, procurando uma solução global.

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