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EUA invadiram Iraque há 15 anos. "Como é que se deixou aquilo acontecer?"

Sob o pretexto de o Iraque estar a apoiar a Al Qaeda e estar a desenvolver um programa de armas de destruição maciça, os Estados Unidos decidiram invadir o país há 15 anos. Com o tempo, ficámos a saber que as justificações apresentadas para a intervenção militar foram mentira. Passados 15 anos, o mapa político do Médio Oriente mudou completamente e os efeitos dos erros cometidos sentem-se um pouco por tudo o mundo.

EUA invadiram Iraque há 15 anos. "Como é que se deixou aquilo acontecer?"
Notícias ao Minuto

12:00 - 20/03/18 por Pedro Bastos Reis 

Mundo Médio Oriente

Estávamos em março de 2003, precisamente há 15 anos. George W. Bush anunciava, em direto para as televisões, a invasão do Iraque. “Caros cidadãos norte-americanos, neste momento as forças norte-americanos e da coligação internacional estão no início de uma operação militar para desarmar o Iraque, libertar a sua população e defender o mundo de um grande perigo”. 

Os atentados de 11 de Setembro que abalaram o coração da América tinham sido há cerca de ano e meio. As forças norte-americanas já tinham invadido o Afeganistão para derrubar os Talibã, acusados de dar refúgio a Osama bin-Laden, o homem mais procurado do mundo. O passo seguinte foi atacar o Iraque, alegadamente porque Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça e estaria a ajudar a Al-Qaeda. A guerra ao terror estava em curso, o mundo tinha mudado de forma drástica.

Como diz Ana Santos Pinto, especialista em relações internacionais e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH), em 2003, “estávamos num momento muito marcado pelos atentados terroristas de 2001, estávamos num momento em que, ideologicamente, a administração norte-americana tinha uma noção de alteração regimes políticos e de alteração de aliados no próprio Médio Oriente de forma a combater essa ameaça do terrorismo islamista”. Quinze anos depois daquele discurso do presidente norte-americano, é inevitável olhar para as palavras de George W. Bush e perceber como tudo correu precisamente ao contrário do que fora preconizado.

Hoje, sabemos que Saddam Hussein não possuía armas de destruição maciça. Sabemos também que nunca apoiou a Al-Qaeda e que esta apenas chegou ao Iraque precisamente depois da invasão norte-americana. O caos em que o país mergulhou permitiu o crescimento do extremismo islâmico. Para o historiador Manuel Loff, “uma das maiores fake news do século XXI foram as armas de destruição maciça que os norte-americanos e os britânicos atribuíram ao Iraque". O também professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto vai mais longe e não hesita em acusar a administração norte-americana de ter mentido para legitimar as suas pretensões na região. "A Guerra do Iraque vai ficar na história como um dos grandes exemplos do arbítrio, da arrogância e do desprezo pelo direito internacional", sentencia.

Tropas norte-americanas entram no Iraque 

Voltemos a 2003. Naqueles dias conturbados, a invasão do Iraque estava mais do que anunciada. Restava apenas saber quando se consumaria. Centenas de jornalistas de todo o mundo começaram a chegar à região, aguardando a queda da primeira bomba para entrarem no Iraque e acompanharem a guerra em direto.

Paulo Moura, ex-repórter do Público, foi um deles. Os norte-americanos abriram, na altura, um programa destinado aos jornalistas para que estes pudessem entrar no Iraque. juntamente com as tropas . Era o chamado jornalismo embedded, em que o jornalista se deslocava com os militares, estava na fila da frente, podia cobrir a guerra em direto. No entanto, conta Paulo Moura ao Notícias ao Minuto, ainda hoje espera uma resposta das autoridades norte-americanas, sendo que dos 500 jornalistas embedded selecionados, cerca de 400 eram norte-americanos. E os restantes 100 “foram escolhidos a dedo”.

Notícias ao MinutoMarço de 2003. Bombas norte-americanas começavam a cair no Iraque© Reuters

Mas este pequeno contratempo não impediu o jornalista de entrar no Iraque. Durante vários dias, esteve no Kuwait, à espera do momento certo, e conseguiu infiltrar-se clandestinamente no contingente norte-americano, ultrapassando a fronteira. Inicialmente, acompanhou os engenheiros de combate, “aqueles tipos que levam bulldozers, caterpillars e camiões para construírem pontes, autoestradas e pistas de aterragem” enquanto a ocupação prosseguia. Depois, juntou-se à 101.º Divisão Aerotransportada, uma unidade de forças especiais de paraquedistas, até chegar a Bagdade, que tinha sido bombardeada intensamente pelos norte-americanos, imagens transmitidas em direto nas televisões, que deixaram o mundo perplexo com a sua brutalidade.

Quando chegou à capital iraquiana, as coisas complicaram-se. “Chegámos ao aeroporto e pediram-nos os documentos. Como não éramos embedded, fomos expulsos para território inimigo. Escoltaram-nos até ao limite do aeroporto e tivemos de chegar a Bagdade com os nossos próprios meios”, conta Paulo Moura, que partilhou esta aventura com a jornalista Cândida Pinto, da SIC.

Com a intensa ofensiva norte-americana, que contou com o apoio dos restantes países da coligação internacional, o regime de Saddam Hussein estava derrotado. Os dias que se seguiram à invasão foram, diz o antigo repórter do Público, de “saque” e “caos”. “O que aconteceu nos dias seguintes foi um saque, as pessoas roubavam tudo o que podiam no meio de tiroteios e da confusão. A cidade estava o caos total”, recorda Paulo Moura.

Notícias ao MinutoTropas dos Estados Unidos invadem uma propriedade na cidade de Baquba© Reuters

Perante a ditadura existente no Iraque, foi "vendida" a ideia de que os norte-americanos iriam libertar o povo iraquiano, como o próprio George W. Bush dissera. Mas, como realça Paulo Moura, “sabemos hoje que essas manifestações de regozijo foram coisas encenadas e preparadas de forma organizada para ser filmado e mostrado para todo o mundo” e o ambiente de festa pela chegada do exército norte-americano, que culminou com o derrube da estátua de Saddam Hussein e com a bandeira dos Estados Unidos no rosto da figura do ditador “nunca aconteceu de facto”. Pelo menos, não nos moldes em que este entusiasmo foi apresentado, nas televisões, nos primeiros dias da invasão.

Xiitas contra sunitas 

Durante várias décadas, o partido Baath de Saddam Hussein, sunita, governou o Iraque. Apesar do regime laico iraquiano, os xiitas, maioria da população, eram oprimidos pela minoria sunita. Com a queda de Saddam, o aparelho de estado ficou destruído, os membros do partido Baath foram afastados dos cargos públicos e a balança inverteu-se: eram agora os xiitas que oprimiam os sunitas.

“A maioria xiita que tinha sido subjugada, inclusive, de forma violenta, por Saddam Hussein encontrou no esvaziamento do estado e na alternativa de poder uma oportunidade para responder a essa subordinação, a essa humilhação, e isto acontece de forma violenta”, explica Ana Santo Pinto, que sublinha ainda a “nova vitimização desta vez da minoria sunita, que abriu espaço a movimentos como a Al-Qaeda e o autoproclamado Estado Islâmico, precisamente como resposta a este contexto de violência, de humilhação e subordinação”.

“Depois da invasão”, acrescenta Paulo Moura, “todos os oficiais e líderes do exército foram presos ou proibidos de trabalhar”, ou seja, cerca de 800 mil pessoas, muitas delas carregadas de armas, ficaram no desemprego e eram perseguidas pela nova elite. Com a Al Qaeda do Iraque, que se viria a transformar no autodesignado Estado Islâmico anos mais tarde, a surgir no país, não é difícil perceber para onde foram grande parte das armas do exército.

“Toda essa gente ligada ao partido e todos esses generais vão ser os quadros do Estado Islâmico, que é construído, no Iraque, principalmente com os líderes do partido Baath e do exército de Saddam Hussein. Eles, que na altura não eram fundamentalistas, de repente são protegidos pelo Estado Islâmico, que defende os sunitas contra os xiitas apoiados pelo Irão”, sintetiza Paulo Moura. “Hoje sabe-se que todo este grupo, que deu origem ao Estado Islâmico, foi criado nas prisões norte-americanas, como Camp Bucca ou Abu Ghraib, prisões onde estão todos juntos, generais misturados com fundamentalistas”, acrescenta o jornalista.

Notícias ao MinutoClérigo xiita Moqtada Al-Sadr, um dos rostos da oposição à invasão norte-americana© Reuters

Inimigo histórico dos Estados Unidos desde 1979, quem sai beneficiado com a invasão do Iraque é, ironicamente, o Irão. Os Estados Unidos queriam mudar o regime iraquiano e acreditavam que a democratização da região iria suceder-se qual efeito dominó. Também aqui a estratégia saiu ao lado. Com a tomada de poder pela maioria xiita, nomeadamente através da figura do clérigo Moqtada Al-Sadr, o Irão aumenta a sua influência no país, presença esta que se mantém nos dias de hoje.

“O cálculo que não me parece ter sido feito a seguir [à invasão] é que a maioria demográfica do Iraque é xiita e, ao introduzir um mecanismo eleitoral e de democratização, o que aconteceria é que essa maioria teria um reflexo na ordem institucional”, explica Ana Santos Pinto. “Não se anteveu que perante a desfragmentação e o esvaziamento da estrutura essa substituição pudesse ser feita pelo Irão”, ou seja, “este foi o principal erro de cálculo neste processo” que mergulhou o Iraque numa violenta guerra civil, com feridas que ainda hoje estão por sarar.

Um novo mapa político do Médio Oriente

Durante esses violentos anos de guerra civil, o autodesignado Estado Islâmico aproveita as Primaveras Árabes e chega à Síria. No verão de 2014, na mesquita de Al-Nuri, em Mossul, no Iraque, foi proclamado o califado. O mundo assistia aos vídeos de propaganda dos jihadistas, que destruíam os lugares históricos destes dois países e prometiam destruir o Ocidente. A juntar a isto, o fundamentalismo islâmico espalha-se e vários atentados são perpetrados pela Europa, inspirados pela ideologia do grupo. França, Bélgica ou Alemanha foram alguns dos alvos, apesar de os civis sírios e iraquianos serem as principais vítimas do terror.

Este fenómeno é indissociável das consequências da invasão do Iraque em 2003. De acordo com o Manuel Loff, "o Iraque serviu para os norte-americanos reforçarem a sua presença militar na região e tornou-se um viveiro de todas as piores inovações políticas que o mundo muçulmano trouxe, alimentadas na sua génese pela própria política externa norte-americana”.

Notícias ao MinutoLíder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi proclamou o califado em Mossul, no Iraque© Reuters

Além do crescimento exponencial do terrorismo islâmico pelo mundo, os conflitos que hoje se vivem no Médio Oriente acabam por ser, em grande parte, consequência da invasão norte-americana do Iraque. Depois de 2003, assistimos a uma alteração estrutural nos principais atores regionais naquela região. As potências ocidentais continuam na região, mas não da mesma forma. Hoje, disputa-se sobretudo a hegemonia da região entre as potências dos dois ramos do Islão, Arábia Saudita (sunita) e Irão (xiita), sem esquecer o papel desempenhado pela Turquia ou por Israel. Os conflitos internacionalizaram-se, travam-se guerras por procuração.

A Guerra da Síria, que acaba de entrar no seu oitavo ano, é um dos exemplos. Mais de 500 mil pessoas perderam a vida e, mesmo após a derrota do autodesignado Estado Islâmico no Iraque e na Síria, a guerra continua. Os Estados Unidos distanciaram-se um pouco do conflito, apesar de continuarem a apoiar um dos lados, ao passo que a Rússia surge do outro.

“Na Síria, estão a digladiar-se vários interesse regionais, principalmente os interesses da Rússia, de se tornar uma potência mundial novamente, e do Irão e da Arábia Saudita, que representam os dois grandes grupos do Islão, que querem influência e território naquela zona, que nunca mais vai voltar a ser que o era”, refere Paulo Moura, que esteve, recentemente, no Iraque, logo após a derrota do Daesh em Mossul. “Nunca mais vai existir o Iraque ou a Síria com as fronteiras que existiam”, conclui o jornalista e também escritor, que prepara o próximo livro ‘Uma Casa em Mossul – Os Últimos Dias do Estado Islâmico’, com data de lançamento prevista para o próximo mês de maio.

Notícias ao MinutoGuerra da Síria dura há sete anos. Mais de 500 mil pessoas perderam a vida© Reuters

As fronteiras de Síria ou Iraque podem nunca mais voltar a ser as mesmas, e os erros cometidos no passado contribuíram muito para que tal acontecesse. Por isso, diz Ana Santos Pinto, há lições a retirar da invasão do Iraque, nomeadamente que “uma intervenção militar não substitui um regime político”, pelo que esta “deve ser prevista como uma intervenção de médio/longo prazo e não de curto prazo”. Para lá disso, remata a investigadora e professora da FCSH, “depois da experiência do Iraque, é muito difícil justificar perante as opiniões públicas, seja a norte-americana ou as europeias, a necessidade de recorrer novamente a uma intervenção militar numa situação de perigo para as sociedades civis noutras áreas regionais”.

As lições a retirar são muitas, mas terão sido aprendidas? Quinze anos depois, é essa a reflexão que se impõe. E a forma como se permitiu que as bombas caíssem sobre Bagdade é uma questão que ainda hoje Paulo Moura não sabe responder. “É um dos grandes enigmas da história contemporânea. Como é que se deixou aquilo acontecer?"

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