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Novos ventos sopram da Eslováquia para enfrentar corrupção e populismo

A eleição em março da liberal Zuzana Caputova como a primeira Presidente mulher da Eslováquia foi vista como uma contrarreação à tendência populista presente na política doméstica eslovaca e nos seus países vizinhos, todos liderados por homens de direita.

Novos ventos sopram da Eslováquia para enfrentar corrupção e populismo

Na madrugada de 31 de março, após a divulgação dos primeiros resultados da segunda volta das presidenciais eslovacas, a advogada e ativista ambiental e anticorrupção, defensora de uma visão pró-União Europeia (UE) e liberal, não escondeu as suas intenções: a sua eleição representava uma vitória "contra o diabo do populismo" e da "injustiça".

Na mesma ocasião, a vice-presidente do partido Eslováquia Progressista (PS, partido liberal sem assento parlamentar), que até há pouco tempo era uma figura desconhecida dos eslovacos, afirmou ainda esperar que o eleitorado do país voltasse a dizer "não" aos movimentos populistas quando votasse a 26 de maio, dia da votação nas eleições europeias.

Membro da UE desde 2004 (ano do grande alargamento em que entraram simultaneamente no bloco europeu 10 novos países), a Eslováquia integra também o grupo de Visegrado, aliança regional de cooperação de quatro países da Europa Central que engloba também a República Checa, Polónia e a Hungria, países liderados por políticos associados a um discurso anti-imigração e crítico do bloco comunitário, Andrej Babis, Mateusz Morawiecki e Viktor Orbán, respetivamente.

"Se tivermos em conta os países que rodeiam a Eslováquia, ela [Caputova] está rodeada por um anel de fogo de nacionalismo nas suas fronteiras", afirmou à Lusa, em abril passado, Dharmendra Kanani, diretor de estratégia do grupo de reflexão Friends of Europe, sediado em Bruxelas.

Analistas disseram, na mesma altura, que Zuzana Caputova, que derrotou nas presidenciais Maros Sefcovic, comissário europeu para a Energia e o candidato apoiado pelo partido que ocupa o governo eslovaco liderado por Peter Pellegrini (SMER-SD), tinha capitalizado com o descontentamento dos eslovacos.

A vida política da Eslováquia é dominada desde 2006 pelo SMER-SD, um partido de centro-esquerda fortemente associado ao nome de Robert Fico, que assumiu o cargo de primeiro-ministro entre 2006-2010 e 2012-2018.

O partido começou a perder popularidade em 2014 com a derrota de Fico nas presidenciais realizadas nesse ano, e, segundo recordam os analistas, a força política tentou recuperar eleitores encetando uma deriva para a direita e adotando a retórica anti-imigração dos populistas.

A estratégia não resultou e o SMER-SD perdeu quase metade dos votos nas eleições parlamentares de 2016, ficando-se pelos 28%, longe dos 44% alcançados nas eleições anteriores (2012).

Já os partidos populistas e extremistas eslovacos viram o seu espaço de ação política a aumentar.

O Partido Popular A Nossa Eslováquia (L'SNS, extrema-direita) alcançou o limiar eleitoral pela primeira vez, o Partido Nacional Eslovaco (SNS), força nacionalista de direita, ganhou popularidade e regressou ao parlamento, e o então recém-criado movimento SME Rodina (Somos Família, direita) também conseguiu eleger representantes.

No total, estes partidos obtiveram, juntos, um quarto dos votos, ao abrigo de uma retórica nacionalista e anti-imigração.

O SMER-SD forjou então uma coligação com o SNS (ultranacionalista cristão) e os liberais conservadores do MOST-HID, liderando um governo envolvido em polémicos casos de corrupção e no assassínio de um jornalista, Ján Kuciak, que investigava ligações de políticos eslovacos e colaboradores próximos de Robert Fico à máfia italiana.

Seria o assassínio deste jornalista de investigação, e da sua noiva, que desencadearia, em 2018, os maiores protestos no país desde o fim do regime comunista, cerca de três décadas antes, e a demissão do primeiro-ministro Robert Fico.

Nas eleições europeias, a participação do eleitorado (cerca de 4,4 milhões de inscritos) será um dos fatores mais importantes a ter em conta.

No escrutínio anterior, em 2014, apenas 13% dos eslovacos (muito longe da média europeia, 42,6%) foram colocar o voto nas urnas para eleger os representantes do país no Parlamento Europeu (PE), 13 em 751 eurodeputados.

As projeções sugerem que as recentes eleições presidenciais vão afetar o voto, com o SMER-SD em quebra e a conseguir cerca de 19,7% dos votos.

Um resultado que poderá, no entanto, representar a eleição de três eurodeputados para o grupo parlamentar Socialistas e Democratas (S&D).

O PS de Zuzana Caputova, que firmou uma coligação com o liberal-conservador SPOLU, poderá alcançar, segundo as últimas projeções, 14,4% dos votos, resultado que se traduziria em dois eurodeputados eleitos.

As duas formações são novas e ainda não entraram em nenhum grupo parlamentar europeu, esperando-se que o PS se junte ao ALDE (Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa) e o SPOLU ao Partido Popular Europeu (PPE).

Em relação às forças nacionalistas eslovacas, as projeções apontam que o L'SNS conseguirá cerca de 11,5%, o que poderá significar a eleição de um a dois eurodeputados para as fações eurocéticos do PE. O partido de extrema-direita ainda não aderiu a nenhum grupo parlamentar.

O SME Rodina também tem hipóteses, segundo as sondagens, de ganhar um ou dois lugares no PE, com 10,7% dos votos. O movimento está alinhado com o grupo Europa das Nações e das Liberdades, composto por nacionalistas, eurocéticos e populistas de extrema-direita.

Tendo em conta a baixa participação em anteriores escrutínios e as rápidas variações na política eslovaca, os 'media' internacionais admitem que as projeções podem ainda mudar. No entanto, anteveem que as europeias sejam um balão de ensaio para as eleições parlamentares de 2020.

Zuzana Caputova será empossada Presidente poucas semanas depois das europeias, a 15 de junho.

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