"É uma tristeza absurda. Isto foi um descaso, é uma deceção, é uma vergonha, mas, principalmente, uma tristeza. O fogo não começou ontem, começou há muito tempo e poderia ter sido evitado se a verba tivesse sido encaminhada para o lugar correto e não para os bolsos dos corruptos. É muito triste ver a Cultura esquecida. O que é que vai ser da próxima geração? Eu não quero um país sem memória", disse Cristina Aguiar, uma aluna que frequentava o Museu Nacional.
Foram centenas os estudantes e investigadores ligados ao museu, a maioria dos quais vestidos de negro, que se concentraram em frente aos escombros ainda fumegantes do edifício, para "abraçar" o antigo palácio imperial do século XIX.
Os portões que dão acesso ao recinto do museu chegaram a estar fechados a cadeado pelas autoridades, mas a força dos protestos levou a que a população conseguisse entrar.
"Fora Temer!" foram outras das palavras lançadas pelos manifestantes, dirigindo-se ao Presidente brasileiro.
Paulo Costa foi um dos ex-alunos que não escondeu a emoção ao ver o Museu Nacional, no qual estudou, agora reduzido a paredes queimadas.
"É uma perda muito grande. Foram mais de 15 anos passados aqui, nesta instituição que frequento desde criança e vi tudo virar pó. Devíamos aprender com os erros, porque não é a primeira vez que acontece. Há 40 anos o Museu de Arte Moderna foi atingido pelo fogo e perderam-se obras importantes", afirmou Paulo Costa.
A falta de investimento na Cultura foi uma das razões mais apontadas pelos presentes para o desfecho do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
"O investimento tem diminuído a cada ano. Pior mesmo é o desinteresse do Estado em investir na Cultura. Perdemos um património que não há maneira de recuperar", frisou o antigo aluno Paulo Costa.
Antônio Gambine Moreira, responsável do Planeamento e Finanças da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que gere o museu, referiu que algumas peças que estavam na cave do edifício foram recuperadas, mas reconheceu que se trata de uma parte insignificante do acervo.
Também João de Orléans e Bragança, trineto do imperador D. Pedro II, marcou presença nos protestos e garantiu estar disponível para doar parte do seu acervo privado para a restauração do museu.
"É uma proposta que eu já tinha feito, e reitero agora, de ajudar na recuperação desta instituição tão importante, doando parte do meu acervo que pertenceu a D. Pedro II, a D.ª Isabel e que deve ser visto pelo público brasileiro", afirmou João de Orléans e Bragança.
Considerado o maior museu de História Natural da América Latina, o Museu Nacional, que assinalou em junho o seu bicentenário, albergava cerca de 20 milhões de peças de valor incalculável e uma biblioteca com mais de 530.000 títulos.
Entre as peças inestimáveis transformadas em cinzas está uma coleção egípcia, uma outra de arte e de artefactos greco-romanos, coleções de paleontologia - que incluíam o esqueleto de um dinossauro encontrado na região de Minas Gerais - bem como o mais antigo fóssil humano descoberto no Brasil, "Luzia".
Um dos únicos vestígios preservados foi o enorme meteorito com mais de cinco toneladas, que continua em frente à entrada do espaço.
Mergulhado numa dívida pública abissal e em sucessivos escândalos de corrupção, o Brasil, que sai timidamente de uma recessão histórica, efetuou nos últimos meses muitos cortes orçamentais nas áreas da Investigação, Cultura e Ciência.
O ministro da Cultura brasileiro, Sérgio Sá Leitão, reconheceu que "a tragédia poderia ter sido evitada".
Há três meses, por ocasião do bicentenário, o Museu Nacional obteve um financiamento de 21,7 milhões de reais (cerca de 4,51 milhões de euros) do Banco Nacional de Desenvolvimento para o restauro do edifício.