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"Melhor do que está a ser feito com a 'final 8' em Lisboa era impossível"

Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, Pedro Pinto explica o que permitiu a Portugal receber a reta final da prova milionária e tudo aquilo que está a ser feito para que a segurança de quem vem (e também de quem por cá mora) seja salvaguardada.

"Melhor do que está a ser feito com a 'final 8' em Lisboa era impossível"

É já na próxima quarta-feira que Atalanta e Paris Saint-Germain dão, no relvado do estádio da Luz, o 'tiro de partida' para a 'final 8' da Liga dos Campeões em Lisboa, um torneio disputado em moldes inéditos fruto das restrições impostas pela pandemia.

Pedro Pinto, que assumiu a pasta do departamento de comunicações da UEFA entre 2014 a 2018, seguiu de perto o desenrolar deste processo, e explica todos os contornos, numa entrevista concedida, em exclusivo, ao Desporto ao Minuto.

O especialista defende que esta se trata de "uma vitória", não só para a Federação Portuguesa de Futebol, como também para Portugal, cuja economia, segundo as mais recentes estimativas, irá registar um impacto de 50 milhões de euros derivado da organização da prova milionária.

O agora CEO da agência de comunicação Empower Sports abre, ainda, o 'livro' quanto à forma como a pandemia influenciou a área de trabalho, e deixa alguns reparos às estratégias que, por enquanto, vão sendo prática em Portugal.

Já demos provas de ter as condições necessárias para ser um país de elite no futebol europeu e mundial

O que é que Portugal oferece que outros países não oferecem para garantir a realização da 'final 8' da Liga dos Campeões?

Portugal ofereceu, desde muito cedo, uma solução, quando se falava naquilo que podia acontecer relativamente à conclusão das competições de clubes da UEFA. O próprio presidente da UEFA já revelou que Portugal foi o primeiro país a apresentar uma solução. Uma solução com cidades que tinham estádios e centros de estágio de grande qualidade, que permitiram com que se assegurasse uma organização que correspondesse a algumas expetativas que a UEFA tem e às quais Portugal já correspondeu, tanto no Euro'2004, como na final da Taça UEFA ou da Liga dos Campeões, em 2014, como na própria Liga das Nações, no ano passado. Acho que foi a proatividade da FPF, fruto também dos contactos privilegiados que tanto Fernando Gomes como Tiago Craveiro têm na UEFA, que fez com que a UEFA se sentisse confortável que Portugal poderia receber um torneio desta magnitude. 

Surpreendeu-o a decisão ter recaído sobre Lisboa, tendo em conta que o Porto, que também chegou a ser falado, acabou por não ser tão afetado pela pandemia?

Seria impossível prever como estaria a situação da Covid-19 em Lisboa e no Porto. No início, teve maior incidência no Norte do país, e só depois houve mais surtos no Sul. Não me surpreende, mas o próprio Porto chegou a ser opção para os jogos dos oitavos-de-final, caso os respetivos países não pudessem organizar os jogos. Portugal apresentou uma solução como país. Penso que Lisboa oferece mais soluções ao nível dos centros de estágio para todas as equipas puderem preparar-se da melhor forma.

E por que é que não se concretizou a hipótese de os oitavos-de-final também serem disputados em Portugal? O presidente do Napoli, por exemplo, disse não perceber por que tinha que ir jogar a Barcelona…

Os clubes fizeram força para jogar os jogos da segunda mão em casa, porque acaba por fazer uma grande diferença. Sei que a UEFA teve várias conversas para tentar chegar à melhor solução. Depois de a situação da pandemia estar relativamente normalizada nos países onde os jogos se iriam realizar, a UEFA acabou por decidir deixar os clubes organizarem os respetivos jogos das segundas mãos para proteger um bocadinho a integridade da competição, visto que a primeira mão já tinha acontecido. Na Liga Europa, por exemplo, os jogos que não tiveram primeira mão vão realizar-se na Alemanha, e os que tiveram vão realizar-se no país do clube que deveria receber a segunda mão.

Frankfurt foi outra das hipóteses veiculadas para receber esta ‘final 8’, mas a Alemanha acabou por organizar a Liga Europa. Qual o motivo por detrás dessa decisão?

Como disse, Portugal foi o primeiro país a apresentar uma solução para este torneio, e a UEFA ficou satisfeita com o modelo. Pelo que sei, não houve mais nenhuma opção. Houve, sim, muita especulação. Do que sei, nunca houve um plano B a Lisboa. A partir do momento em que Portugal apresentou a sua solução e garantiu que iria trabalhar com o governo para organizar este torneio… Nunca houve um plano B, apesar de, política e estrategicamente, poder ser do interesse de outros países dizer que também eram candidatos. 

Podemos dizer que isto se trata de uma vitória de Fernando Gomes?

Acho que sim, é uma vitória para a FPF e para Portugal em si. Nós já demos provas de ter as condições necessárias para ser um país de elite no futebol europeu e mundial. Apesar de sermos um país pequeno, sempre que somos chamados para a organização de eventos, correspondemos às expetativas. Também pesa bastante ter alguns homens na FPF que já tiveram papéis importantes na UEFA, como é o caso de Daniel Ribeiro ou Carlos Lucas.

Notícias ao MinutoPedro Pinto junto ao troféu da Liga dos Campeões, que estará em jogo em Lisboa entre 12 e 23 de agosto© Reuters

Não quero dizer que foi um presente para Portugal, mas tudo o que vier para ajudar a nossa economia a recuperar da grande crise que vivemos ajuda muito

Dentro de um ano teremos um Campeonato da Europa inédito, por todo o continente. Esta 'final 8' pode ser vista como um teste a Portugal caso seja necessário remodelar a prova?

Portugal é sempre solução. Não estou a dizer isto por ser português, nem por estar aqui agora, nem por ter qualquer tipo de interesse no tema. Pelos anos que passei na UEFA, sei que os profissionais portugueses são muito apreciados. Há vários na própria UEFA e acho que Portugal pode ser sempre solução. Agora, acho que é cedo demais para especular relativamente ao que pode acontecer no próximo verão. Temos visto que esta situação muda no dia-a-dia… Não quero estar a especular sobre o que pode acontecer daqui a um ano, mas tenho a certeza de que, se for necessário Portugal contribuir, estará disponível.

Estima-se que a 'final 8' tenha um impacto na economia portuguesa de cerca de 50 milhões de euros. Numa altura destas, é mais importante esse tipo de impacto ou aquele que pode ter na imagem do futebol português lá fora?

Num período em que a grande maioria dos negócios e das economias nacionais foram tão afetadas por esta pandemia, e durante tanto tempo, acho que a possibilidade de ter uma mais-valia é muito valiosa para Portugal. Não quero dizer que foi um presente para Portugal, mas tudo o que vier para ajudar a nossa economia a recuperar da grande crise que vivemos ajuda muito. Sabemos que, mesmo não sendo permitidos adeptos dentro dos estádios, vamos ter milhares de fãs de futebol no país. Espero que todos se comportem de forma responsável para garantir a segurança, não só deles próprios, como também daqueles que estão em Portugal. Sei que tanto a FPF como a UEFA estão tranquilas relativamente à capacidade de este torneio ser entregue sem que se crie nenhum problema a nível de surtos de Covid-19. Esta entrada de dinheiro nos cofres de Portugal nesta altura é extremamente valioso, sendo que a prioridade é organizar um torneio onde os participantes saiam do país com a consciência de que tudo foi feito para garantir a sua segurança e que foi um sucesso. 

Mas não podemos esconder que existe um certo grau de risco…

Risco há sempre em tudo o que se organiza. Compreendo a pergunta, não me vou fazer de parvo [risos]. Desde cedo que o presidente da UEFA tentou promover uma mensagem positiva relativamente àquilo que pode ser feito para organizar as competições num clima de responsabilidade. Tudo está a ser feito para minimizar esse risco. O protocolo médico da UEFA vai ser muito rigoroso. Vai haver muitos testes, para todos, todos os dias. Vão ser riscos medidos e responsáveis, tanto em Portugal como na Alemanha. Tudo está a ser feito para que a bolha seja impenetrável ao máximo, mesmo ao nível dos hotéis e dos centros de estágio onde os clubes vão ficar. Garanto uma coisa: todos sabem o que está em jogo. Não vão inventar nem improvisar. 

Nesse ponto, a opinião do Pedro Pinto cidadão português coincide com a do Pedro Pinto adepto do futebol com passado na UEFA?

Como adepto, tenho pena de não poder ir ao estádio. Como cidadão, fico, honestamente, orgulhoso por Portugal ter apresentado uma solução quando ela, se calhar, ainda não existia. As pessoas com quem falo garantem-me que existe uma grande responsabilidade e ligação entre governo, FPF e UEFA, e, como tenho essa informação, fico tranquilo. O que posso passar para fora é que as pessoas e os adeptos de futebol podem ter a certeza de que tudo está a ser feito para garantir a máxima segurança deste torneio. 

O que é que está a ser preparado para assegurar que quem vem e quem fica está em total segurança?

Pela informação que tenho e pelo que vi no protocolo médico da UEFA, tudo está a ser feito. Se não estivesse… Os clubes também não são inconscientes. A relação que existe, neste momento, entre o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, e o presidente da Associação Europeia de Clubes, Andrea Agnelli, assim como a comunicação constante que existe entre todas as cidades e governos, transmite uma grande confiança. Relativamente às críticas relativas aos jogos dos oitavos-de-final… Pelo que vi, vieram principalmente do De Laurentiis [presidente do Napoli], que critica tudo e todos, portanto há que digeri-las com algum cuidado, porque se não fosse isso era outra coisa qualquer [risos]. Muito sinceramente, conhecendo como conheço a estrutura da UEFA e sabendo do trabalho que está a ser feito de coordenação diária com FPF e clubes, melhor do que está a ser feito seria impossível. Não estou a dizer só por dizer. De acordo com as conversas que tenho e pelo que sei, tudo está a ser feito para garantir que irá ser um sucesso. 

Enquanto profissional da comunicação, é possível manter o nível de entusiasmo numa conjuntura em que, por exemplo, não poderemos ter adeptos nos estádios?

Todos nós temos visto jogos de futebol desde que recomeçaram os campeonatos, e não é a mesma coisa. A nível da intensidade dos próprios jogos, especialmente nos primeiros, notou-se a diferença. Agora, este não deixa de ser o maior prémio do futebol mundial. O profissionalismo dos jogadores não deixará de ser o mesmo. Mas é impossível pensar que vai ser a mesma coisa, e é bom que não o seja. Se houvesse um momento de precipitação deste evento para pensar em deixar 10%, 15% ou 20% dos adeptos nos estádios, e depois isso causar um surto… Estão todos a jogar pelo seguro para garantir que essa segurança existe.

Temos visto alguma tentativa de soluções, com a introdução de cânticos simulados de adeptos ou de efeitos especiais nas bancadas. Isso funciona para quem está a ver?

Eu prefiro ver aqueles efeitos gráficos nas bancadas do que ver as cadeiras vazias, mas é uma preferência minha. Eu prefiro ter som artificial de adeptos do que não ter nada, mas, mais uma vez, é uma preferência minha. Acho que se tem tentado encontrar várias soluções. Até na própria NBA têm avatares das pessoas dentro de cadeiras virtuais, que achei uma solução interessante. Criatividade para resolver o problema não tem faltado. Agora, mais do que nunca, vê-se o valor que os adeptos têm dentro dos estádios.

A final estava marcada para Istambul, acabou por ter de se fazer um 'rebranding' em tempo recorde. Correu tudo bem?

Acho que correu tudo bem. Sei que a UEFA teve que fazer uma grande ginástica para tentar agradar a todos, até porque Istambul tinha preparado uma final com adeptos para este ano. Para mudar Istambul para 2021 teve que se mudar S. Peterburgo, Munique, Wembley… Houve um grande trabalho de equipa dentro da própria UEFA para garantir que esta solução fosse viável. Legalmente, muitos contratos tiveram que ser emendados. Correu bem. O próprio 'branding' do Euro'2021 será o mesmo do Euro'2020, até para preservar todos os materiais que já tinham sido criados e produzidos. Tudo o que aconteceu é sem precedentes. Estar a julgar de acordo com o que seria perfeito é muito injusto. Com o que é que estamos a comparar? Isto nunca aconteceu antes. O mais importante é que as decisões foram tomadas com responsabilidade.

É mais fácil trabalhar com os atletas que estão fora. Os clubes não controlam tanto os seus atletas

Ao nível da Empower, acredito que também se tenham visto obrigados a puxar pela criatividade durante este período…

O trabalho que temos com treinadores e jogadores até acabou por ser mais intenso, porque eles estavam disponíveis, não tinham jogos. Os canais de comunicação também precisavam de conteúdo. Foi até difícil de gerir quais seriam as entrevistas que os nossos clientes iriam fazer, quando e como. Essa parte correu bem. A nível institucional, das marcas com quem trabalhamos, fomos afetados quanto à faturação mensal. Acho que todos foram, mas estamos a começar a ver a luz ao fundo do túnel e estamos confiantes de que podemos recuperar alguns desses fundos perdidos e alguns clientes que não tinham capacidade para continuar.

Os vossos clientes estão, maioritariamente, no estrangeiro. É mais fácil trabalhar assim, tendo em conta que, por vezes, os clubes portugueses acabam por colocar alguns entraves?

É mais fácil trabalhar com os atletas que estão fora. Os clubes não controlam tanto os seus atletas. Gostava que os clubes portugueses fossem mais abertos nesse sentido e que dessem oportunidade, especialmente, aos atletas para brilharem. Todos ganharíamos com isso, porque eles são as estrelas, e, no mercado nacional, não os vemos muito. As estratégias são outras. Se calhar, explorar essa estratégia de comunicação é tema para outra altura [risos]. Posso dizer que, mesmo a nível de Inglaterra, onde trabalhamos com o Cédric, de Itália, onde trabalhamos com o Paulo Fonseca, dos Estados Unidos, onde trabalhamos com o Nani, e da Rússia, onde trabalhávamos com o João Mário, existe uma abertura para deixar os atletas falar, desde que as coisas sejam bem feitas. Há uma maior confiança e não há uma preocupação tão grande em controlar tudo.

Mas isso acontece quando esses jogadores falam para outros países? Ou é prática habitual?

Não, não. É prática para os órgãos do próprio país. Estão sempre abertos. Se são oportunidades de aparecer e de serem promovidos, não rejeitam só porque acham que pode haver um risco. Confiam no atleta, confiam no trabalho que fazemos, e, a partir desse momento, sabe-se que há mais a ganhar do que a perder ao manter essa exposição, até porque o objetivo deles é chegar a mais adeptos e promover as suas marcas e jogadores.

O que é separa um jogador com uma boa estratégia de comunicação de um sem estratégia?

Um atleta que comunica bem não tem medo de aparecer, não tem medo de falar, não tem medo de dizer que as coisas não correm bem quando perde, não tem medo de se expor de uma forma pensada. É alguém que pensa e que se apercebe de que aquilo que está a dizer vai para uma comunidade mundial, não é uma micro-audiência. Quando fazemos os workshops com os atletas é feita uma sensibilização e uma responsabilização, para perceberem o impacto que as palavras deles têm. Os atletas, hoje em dia, são os maiores influenciadores do mundo a nível digital. Quando falam, os jovens, principalmente, ouvem. Podem ter uma influência tremendamente positiva na vida das pessoas. Isso viu-se durante a pandemia, em que muitos deles participaram em campanhas para promover o exercício físico, para dar aulas… Existe um grande potencial quanto àquilo que os atletas podem fazer para promover mensagens positivas. A nível de conferências de imprensa, flash interviews ou zonas mistas, têm de ser genuínos e não ter medo de dizer o que sentiram dentro de campo. Muitas vezes, quando se perde, há aquele instinto de esconder, e, muitas vezes, é uma oportunidade de se relacionarem mais com o público ao nível do sentimento de desilusão que eles próprios também têm. 

Os jogadores têm essa sensibilidade para a importância da comunicação?

O que estamos a fazer é um trabalho um pouco pioneiro. Tradicionalmente, as pessoas que trabalham a comunicação de um atleta acabam por ser um familiar, um amigo ou alguém ligado ao empresário que pode não ser um profissional da comunicação. Acho que é aí que acontecem muitos erros que podiam ser evitados trabalhando com alguém que perceba o meio. Tradicionalmente, a maioria dos atletas não teria pensado na comunicação como um serviço profissional que precisam de ter como parte das suas vidas, mas, cada vez que cometem um erro e sentem as repercussões, pensam cada vez mais nisso. Penso que os nossos clientes estão contentes com o nosso serviço. Existe uma grande relação de transparência e honestidade para dizer o que está bem e o que está mal. Gostava de pensar que estamos num processo de mudança. Nos Estados Unidos, este tipo de trabalho já é feito há décadas. O futebol está um bocadinho atrasado nesse sentido, mas gosto de pensar que estamos a fazer parte dessa mudança para a profissionalização da comunicação na carreira de um jogador ou treinador.

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