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Os 'Génios Diletantes' de Berlim acabaram mas a música continua

O movimento 'Geniale Dilletanten' que nos anos 1980, em Berlim Ocidental, criou uma das correntes musicais mais originais do pós-guerra "está enterrado", mas a identidade da "subcultura" alemã deixou marcas e segue com atenção o processo eleitoral, disse à Lusa a artista Gudrun Gut.

Os 'Génios Diletantes' de Berlim acabaram mas a música continua
Notícias ao Minuto

13:47 - 24/09/21 por Lusa

Cultura Alemanha

Fundadora, com Blixa Bargeld, do grupo "EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN", em 1980, e mais tarde baterista da banda "Malaria", a alemã Gudrun Gut, 64 anos, explica que a vida cultural na Alemanha é "muito particular" por motivos históricos, políticos e militares.      

"Aqui queimaram-se livros e a vida cultural foi apagada por Adolf Hitler, durante o III Reich e depois foi difícil recuperar. No pós-guerra os meus pais ouviam coisas ligeiras para se distraírem. Nós perdemos muita coisa do que se chama 'cultura popular' que era, e ainda é, muito influenciada pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Os norte-americanos não tiveram o 'travão' e o bloqueio que nós tivemos durante o nazismo e no pós-guerra. Nós tivemos um grande corte cultural no século XX e, por isso, a minha geração inventou tudo do zero", diz.

"Sou da região de Celle, Baixa Saxónia, na antiga República Federal e mudei-me para Berlim em 1975 para estudar comunicação visual. A cidade era 'zona de guerra', dividida, com a presença militar dos aliados e cercada pelo 'mar vermelho' soviético. Tudo era diferente em Berlim", afirma.

"Quando éramos jovens procurávamos música alemã e não havia muita coisa a não ser música sinfónica e algumas coisas muito boas dos anos 1920. Depois descobrimos o "krautrock" (música experimental alemã do final dos anos 1960) e algumas coisas eram muito boas, mas mesmo assim não havia muita coisa", refere acrescentando que foi preciso criar um mundo à parte na cidade dividida pelo muro.

"Nos anos 1980 construímos o nosso próprio caminho 'underground', não tínhamos nada a perder até porque não havia infraestruturas nem dinheiro para produzir música popular ou música independente", diz. 

O "código" da criação artística do pós-punk em Berlim nos anos 1980 usava instrumentos "industriais" fabricados pelos músicos, aboliu os solos dos instrumentos musicais e conseguia sonoridades originais usando o alemão para cantar ou declamar.

"Foi uma época agitada, todos faziam o que queriam fazer, mas todos trabalhavam em conjunto e foi divertido. Para mim, quando o 'muro' caiu foi um alívio porque os anos oitenta estavam a ficar sombrios e havia muitas drogas. Quando veio 1989 (queda do muro de Berlim) pensei que vinha um novo ambiente porque viver em Berlim era como viver numa ilha. Às vezes era bom, mas também tinha aspetos negativos, muito claustrofóbicos", recorda.

Essencialmente muitos jovens alemães do pós-guerra não aceitavam o passado nacional-socialista dos pais e não se sentiam responsáveis pela ocupação "de facto" das forças norte-americanas, francesas e britânicas e muito menos a ocupação soviética da República Democrática Alemã. 

Atualmente, a artista mostra-se particularmente apreensiva perante o aumento da presença de movimentos neo-nazis na Alemanha.  

"A extrema-direita é assustadora. São estúpidos", diz a música que diz acompanhar com muito interesse as eleições de domingo, até porque o confinamento provocado pela crise sanitária deveria ter sido usado como "um longo período de reflexão" política.

"Estou mesmo muito interessada nestas eleições porque as pessoas tiveram muito tempo para pensar na vida. Com o confinamento tivemos uma espécie de não-existência durante um ano e meio. Muitos tiveram grandes problemas, outros não fizeram nada e, por isso, não estou surpreendida quando dizem que 40% da população ainda não sabe em quem vai votar. Por isso, espero novidades das eleições", refere, sublinhando que a chanceler Angela Merkel deixa marcas no país.

"Eu gostei da Merkel, foi sólida. Não é do meu partido. Mas ela foi sólida e finalmente tivemos uma mulher como chanceler. Às vezes via os encontros internacionais e ela era a única mulher no meio dos homens. Gostei como ela se portou com os refugiados em 2015", considera.

Quanto ao futuro Governo, Gut diz não se importar que venha a ser negociada uma negociação com mais de dois partidos.

"Até podem ser quatro ou cinco partidos. Assim há mais gente a pensar e é preciso trabalhar em grupo. Na Alemanha somos muito bons a trabalhar em grupo" afirma.

Do ponto de vista musical lamenta que a crise sanitária tenha criado problemas aos jovens que tiveram de abandonar a criação artística para poderem sobreviver, no último ano e meio.

"A covid foi má para os artistas porque nós precisamos de atuar em público para vivermos e isso parou. Muitos jovens, atualmente, pararam simplesmente porque o processo criativo não fazia sentido sem qualquer tipo de retribuição através dos concertos", lamenta.

"Do ponto de vista financeiro foi um desastre. Nós últimos dez anos a indústria da música cresceu muito na Alemanha, mas agora surgiram tempos difíceis. Eu não julgo as novas gerações e sei que os mais jovens trabalharam muito, mas não conseguiram muito para viver. Depois ficou tudo tão mau que o dinheiro desapareceu e deixaram de seguir a paixão pela criatividade musical e foram procurar um emprego ou uma atividade diferente", afirma.      

"Eu, por outro lado, sou uma veterana, continuo a tocar e aproveitei para fazer trabalho de arquivo, uma banda sonora, um livro e um documentário. Passei muito tempo em estúdio", diz Gudrun Gut.

Hoje à noite, a "veterana" do tempo dos "génios diletantes" vai tocar pela primeira vez, em Berlim, desde o princípio da pandemia.

"Estou viva", disse.

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