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Solidariedade portuguesa a judeus na II Guerra "resgatou" crimes passados

O investigador Sérgio Luís de Carvalho considera que a solidariedade expressa pelos portugueses, nomeadamente os lisboetas, aos refugiados judeus, durante a II Guerra Mundial, "resgatou" os crimes cometidos a esta comunidade ao longo da história portuguesa.

Solidariedade portuguesa a judeus na II Guerra "resgatou" crimes passados
Notícias ao Minuto

11:17 - 10/04/21 por Lusa

Cultura livro 'Lisboa Judaica'

Sérgio Luís de Carvalho faz esta afirmação no seu recente livro 'Lisboa Judaica', no qual se propõe tratar da herança judaica, "mais antiga que a própria nacionalidade".

Para o autor, a forma como os portugueses ajudaram os refugiados judeus durante a II Guerra Mundial (1939-1945) foi uma forma de ultrapassar os "séculos de segregação e de repressão" de que esta comunidade foi alvo em Portugal, nomeadamente vítima dos autos de fé da Inquisição.

"O comportamento dos portugueses e, principalmente, dos lisboetas, para com os refugiados judeus durante o século XX e sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, resgatou - pelo menos parcialmente - os crimes que ao longo da nossa história nacional foram cometidos", afirma Carvalho.

O autor afirma que "as águas do rio Tejo que os refugiados viam quando partiam [de Lisboa]", de certa forma, limpavam as recordações e "as cinzas ainda em brasas do Santo Ofício", organismo da Igreja Católica, responsável por muitas das perseguições e autos-fé que promoviam fogueiras para queimar os "infiéis", muitos deles judeus.

O autor propõe-se neste livro, editado pela Parsifal, percorrer "o que resta dos bairros medievais" na capital, os edifícios "onde se fizeram as grande perseguições", mas também as casas "onde se exerceu a solidariedade", ruas e praças onde os judeus "lisboetas ou forasteiros sentiram amparo ou perseguição".

O estudo "abarca sobretudo os judeus portugueses", ou seja os judeus sefarditas, e só na terceira e última parte refere os judeus asquenazes, oriundos do centro da Europa, a maioria refugiados fugidos do horror nazi.

O mais antigo testemunho da presença judia em território nacional data do século V, uma lápide funerária encontrada em Mértola, afirma o investigador, referindo que na Lisboa medieval "a prática da agricultura não era uma raridade", já que vários judeus tinham propriedades fora das muralhas, além de exercerem outras profissões como sapateiros, cirurgiões, mercadores ou ourives.

Nesta época, os judeus tinham uma vivência "segregada e discriminada", e havia um rabi-mor da confiança do rei, mas longe estava a liberdade religiosa do século XIX, permitida pela Carta Constitucional de 1826.

O livro 'Lisboa Judaica' divide-se em três partes, correspondendo às "três grandes fases da vivência judaica em Lisboa": a primeira, 'Segregação', desde a fundação da nacionalidade, em 1143, até ao final do século XV, com o édito de expulsão dos judeus, publicado em 1496, a segunda, 'Perseguição', focada nos cristãos-novos, vai desde 1496 até 1821, quando foi abolido o Santo Ofício, e a terceira "engloba a reconstituição da comunidade", isto é desde início do século XIX até ao fim da II Guerra Mundial, em 1945.

O livro, destinado ao grande público, como refere o seu autor, "aliviado de alguma carga informativa", como notas de rodapé, cita amiúde obras de especialistas na matéria, designadamente Maria José Ferro Tavares e Esther Mucznik.

Sérgio Luís de Carvalho, autor de outras obras como 'Lisboa Nazi' (2018), é professor de História, tendo sido distinguido com o Prémio Ferreira de Castro, em 1989, pelo romance 'Anno Domini 1348'.

Leia Também: Feira do Livro de Lisboa realiza-se entre 26 de agosto e 12 de setembro

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