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"Putin está disposto a ir até ao fim, não obstante todas as sanções"

Jornalista, comentador e especialista em História da Rússia, José Milhazes é uma das opiniões mais ouvidas sobre a guerra na Ucrânia e passa esta sexta-feira pelo Vozes ao Minuto.

"Putin está disposto a ir até ao fim, não obstante todas as sanções"
Notícias ao Minuto

06/05/22 por Hélio Carvalho

Mundo Ucrânia/Rússia

A voz de José Milhazes tornou-se numa das mais conhecidas para os telespetadores portugueses, que colaram os olhos ao ecrã ao tentar acompanhar a invasão russa na Ucrânia. O seu livro 'A Mais Breve História da Rússia' foi publicado meros dias antes do início da guerra, servindo quase de prefácio para a história que se escreveu desde então.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, José Milhazes fala sobre as recentes notícias sobre a guerra na Ucrânia, especialmente sobre o próximo dia 9 de maio e as próximas (e possíveis) demonstrações de força da Rússia.

Por cá, o comentador e jornalista também criticou as investigações portuguesas, prevendo um desfecho dececionante para a polémica em Setúbal.

As tropas russas não conseguem ter êxitos significativos

As agências internacionais têm falado muito sobre paradas militares em Moscovo e em Mariupol no dia 9 de maio. Que análise faz sobre essas previsões?

Tudo isto está muito confuso, correm mil versões e boatos em Moscovo sobre o que poderá acontecer no dia 9 de maio. Não obstante o porta-voz do presidente Putin, Dmitry Peskov, vir dizer que o presidente não irá decretar o estado de guerra e de mobilização geral, há muita gente em Moscovo que receia exatamente isso. Que Putin anuncie que a NATO declarou guerra à Rússia e que vai mobilizar forças para combater na Ucrânia. Claro que isto não é uma declaração de guerra à NATO, mas é para dar corda à veia patriótica russa.

Essa declaração poderá motivar mais movimentações nas fronteiras com a NATO, nomeadamente através da mobilização de armas nucleares?

Penso que, neste momento, é mais demonstração de força, mais retórica, do que ameaça de passar à prática. Claro que as coisas vão evoluindo, as tropas russas não conseguem ter êxitos significativos. Se for realizada a tal parada, como dizem, em Mariupol, isso será mais uma grande humilhação para os ucranianos, não sei até que ponto o Kremlin poderá ganhar alguma coisa com isso a não ser em termos internos, indo ao encontro dos instintos mais selvagens de parte da população russa.

Eu espero bem que a Putin não lhe passe pela cabeça invadir a Finlândia e a Suécia

Numa altura em que a Finlândia e a Suécia se aproximam cada vez mais de uma adesão à NATO, como é que a Rússia vai reagir a essas adesões?

Eu espero bem que a Putin não lhe passe pela cabeça invadir a Finlândia e a Suécia. Isso seria loucura extrema ou extremíssima, mesmo, se ele desse esses passos. Do ponto de vista de retórica e de demonstração de força, iremos ver numerosas iniciativas por parte de Moscovo, mas daí até invadir a Finlândia e a Suécia vai um grande passo. 

A Rússia já tem invadido várias vezes os espaços aéreos dos dois países.

Isso é demonstração de força e ameaça, no sentido de pressionar não só os políticos mas também a opinião pública dos dois países. Nós não podemos esquecer que a Finlândia e a Suécia são dois países democráticos, ou melhor, dos países mais democráticos do mundo, e onde a opinião pública é muito importante para os políticos. Por isso, a Rússia irá tentar também dirigir mensagens à opinião pública para que esta não adira a esta ideia da entrada desses países na NATO.

Ursula von der Leyen anunciou que a União Europeia tenciona embargar as importações de petróleo russo. Acha que este passo será tomado, mesmo com a intransigência da Hungria e da Eslováquia, e que tipo de sanções pode a UE continuar a tomar para dissuadir o governo russo?

Além do petróleo, há também a retirada do SWIFT de alguns bancos muito importantes russos. E isso sim, poderá criar complicações económicas na Rússia. No entanto, eu penso que estas sanções são insuficientes para fazer parar a guerra.

Putin está disposto a ir até ao fim, não obstante todas as sanções, a não ser que na Rússia apareça alguma corrente nas elites que tente travar Putin e destroná-lo, de forma a parar com esta tragédia que está a ocorrer na Ucrânia. Isto porque há já algumas pessoas influentes que compreenderam que a Rússia não vai ganhar esta guerra - ela pode não a perder, mas não vai ganhar de certeza absoluta - e que isto vai ter consequências funestas para a Rússia, vai atirar o desenvolvimento russo para 30 ou 40 anos atrás. Daí que, se não houver essa perceção na elite russa, Putin irá até às últimas consequências.

Espero bem que não vá até à pior das consequências, ou que não o deixem ir, e aqui só gostaria de ver aumentar o papel da China neste processo.

O enfraquecimento da Rússia não será bom para a China, na sua luta contra os Estados Unidos e o chamado Ocidente

A China tem de reagir mais claramente, pressionando a Rússia a travar esta loucura e tentar, juntamente com os outros países, encontrar uma saída aceitável para as duas partes. Parece praticamente impossível, mas tem de ser feito de alguma forma, e a pressão da China, aqui, diria que é essencial para arrefecer um bocado os apetites russos.

Aproveitando a questão que mencionou sobre a China. Falou-se muito sobre a falta de ação da China e as abstenções na Organização das Nações Unidas, mas explicando as dinâmicas de Pequim nesta matéria, porque é que a China ainda não tomou uma posição mais vincada nesta invasão?

A China está a tentar sentar-se ao mesmo tempo em várias cadeiras. O enfraquecimento da Rússia não será bom para a China, na sua luta contra os Estados Unidos e o chamado Ocidente. A China não quer uma Rússia enfraquecida. Por outro lado, os grandes mercados chineses de exportação estão no Ocidente e, se isto continuar a derrapar, o que pode acontecer é que a China, que já está a ter graves prejuízos económicos, terá ainda muitos mais, caso isto continue. Não só porque pode perder mercados, mas também porque está a ser completamente destruído, por exemplo, o sistema logístico de transportes mundiais.

Em termos nacionais, a questão do acolhimento de refugiados em Setúbal continua a marcar a política nacional, nomeadamente com as acusações em torno de Igor Khaskin [um dos responsáveis pela receção dos refugiados ucranianos em Setúbal] e as ligações deste russo ao Kremlin. Como é que interpreta a presença de Khaskin nesta polémica e no acolhimento de refugiados?

Eu não quero pronunciar-me diretamente sobre isso, porque acho que é necessário fazer uma investigação profunda deste caso, porque se trata de um caso muito grave. O senhor, cujo nome citou, efetivamente está muito ligado às autoridades, ao governo e à embaixada russos, isso é um facto. Agora, resta provar que ele cometeu ilegalidades, e isso deverá ser fruto de investigação.

A única coisa que eu receio é que todas as investigações em Portugal não levam a coisa nenhuma. O caso da Câmara de Lisboa caiu, ou está a cair, no esquecimento; no caso do passaporte português de Abramovich também prometeram conclusões, e não há nada. E eu penso que este inquérito também vai acabar por não levar a lado nenhum.

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