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"Estou convencido que quando deixar a TV não terei muito tempo de vida"

Sempre com a simpatia que tanto o caracteriza, aos 76 anos de idade e já com mais de 60 anos de carreira, Júlio Isidro recordou carinhosamente o seu percurso em conversa com o Notícias ao Minuto. Mas a bela tarde soalheira não chegaria para partilhar as tantas histórias que preenchem o seu caminho.

"Estou convencido que quando deixar a TV não terei muito tempo de vida"
Notícias ao Minuto

11/10/21 por Marina Gonçalves

Fama Júlio Isidro

Conhecido como ‘o senhor da televisão’, Júlio Isidro vive uma “fase interessante da sua vida” com, entre os vários trabalhos em mãos, o programa ‘Inesquecível’ que está em pé há dez anos e a caminho das 400 emissões, na RTP Memória.

“Depois de já ter feito – não se pode dizer tudo – muita coisa, estou a trabalhar desde há dez anos não para a RTP Memória, é para a memória da RTP e dos espetadores”, enalteceu durante a entrevista ao Notícias ao Minuto.

A “fazer um programa que, de alguma maneira, vai sempre buscar o enorme (extraordinário) arquivo da televisão, espólio da memória dos portugueses”, diz, “dá-lhe imenso gosto”. “Tanto é que faço aquilo rejuvenescendo o próprio material. Estou muito feliz. Todas as coisas têm o seu tempo, e eu estou no meu tempo a fazer aquilo”, destacou ainda.

Na rádio continua ao lado de Paulino Coelho no ‘Hotel Califórnia’, na Rádio Renascença, e não descura o tempo para se dedicar à oficina onde mantém viva a paixão pelos aviões e, claro, à família, “que valoriza muito”.

Estreou agora um novo cenário no ‘Inesquecível’, e uma vez que está sempre ‘metido em tudo’, tem mão neste cenário?

Não! Este cenário não teve nem o meu dedo, quanto mais a mão. Há muitos cenários da minha carreira que foram sugeridos por mim, e outros até desenhados por palavras por mim, não é o caso. Este é mérito exclusivo da equipa da RTP Memória e também da equipa de cenografia da RTP. 

O passado é um local interessante para visitar, não é um local interessante para viver. E não quero lá viver. Não me importo nada é de o trazer à superfície 

A RTP Memória está agora a celebrar mais um aniversário… Acha essencial haver uma RTP Memória? 

Acho que até é indiscutível não haver uma RTP Memória, porque é um canal que acaba por ser até didático para aqueles que nunca foram contemporâneos daquilo que nós passámos. E a prova disso está em muitas séries que fizeram as delícias da minha geração, mas a maior parte daquelas que passam até é mais da geração que tem 50 anos. E depois porque acredito na tese de que do velho se faz novo. A RTP Memória não é um vazadouro do arquivo da RTP. A RTP Memória tem um conceito que o desenvolve. No caso do ‘Inesquecível’ é a forma mais apurada desse conceito.

E é importante regressar ao passado e que ele nunca fique esquecido?

O passado é um local interessante para visitar, não é um local interessante para viver. E não quero lá viver. Não me importo nada é de o trazer à superfície por duas razões: as pessoas que foram contemporâneas daquilo que fiz na RTP, vão-se reencontrar; os outros que nunca viram vão ficar a saber que – quer por mim, quer por tantos outros criadores e criativos da televisão – se fez muito boa televisão, tendo em linha de conta a tecnologia de cada tempo. Trabalho com a nova tecnologia com a mesma exigência e criatividade da velha tecnologia, ou seja, em algumas coisas prefiro não confiar excessivamente no computador.

Quando assistiu às primeiras emissões da RTP, ou quando aos 15 anos foi pela primeira vez à RTP com o coro do Liceu Camões, alguma vez imaginou que aquela seria a sua segunda casa?

Nem a minha profissão nem a minha vida. Agora a minha profissão confunde-se com a minha própria vida. Tenho poucos mais anos de vida do que de televisão. Portanto, é evidente que não me passou pela cabeça porque quando lá fui cantar já era na essência do ‘Programa Juvenil’. E, curiosamente, no orfeão do Liceu Camões estava também o meu futuro colega apresentador, o Professor João Lobo Antunes – ele também cantava no coro. Depois logo a seguir começamos a apresentar o ‘Programa Juvenil’ (eu, o Lobo Antunes e a querida Lídia Franco, que continua na atividade). A Lídia Franco, em principio, se não tivesse enveredado pelo teatro seria, eventualmente, professora de dança porque era uma magnífica bailarina. 

Recordando um bocadinho o primeiro casting para a televisão em que lhe disseram que “foi o melhor mas não fica porque é o mais feio", hoje acrescentariam ‘e porque tem menos seguidores’? 

Quando ouvi essa frase não fiquei muito feliz. E deve ser por isso que lhe estou a dar uma entrevista com máscara. Tenho sido muito protegido pela máscara. Estou a brincar. É evidente que não é muito pedagógico dizer-se isto, particularmente porque hoje em dia, e felizmente, vejo na televisão muitas caras normais, embora se faça cada vez mais – e acho que às vezes se faz muito e demais – o culto excessivo do embrulho. O embrulho lá dentro tem de ter coisas. 

E como é que vê a evolução e o facto de as redes sociais também poderem ser um fator a ter em conta? 

As redes sociais são, no meu caso, felizmente, um caso de amor sem ódio. Mas é um amor desconfiado. Sou um homem com sorte. Praticamente nunca fui ofendido nas redes sociais. Também não me exponho. Não entro no jogo do debate, da polémica. Mas as redes sociais são realmente muito perigosas, e toda a gente sabe. Embora esteja nas redes sociais por responsabilidade das minhas filhas, porque em determinada altura sugeriram eu ter uma página no Facebook para dizer o que faço. Basta ler o meu Facebook para ver que o que faço é, essencialmente, dar conta das coisas que faço, das coisas que vejo, e as que não gosto nunca vejo. Portanto, não há nada a fazer. 

E depois fazer das redes sociais alguma coisa que seja um verdadeiro elo de ligação entre as pessoas porque pode, deve, e tem de ser. Porque isto está a transformar-se numa arena de gladiadores, ainda por cima os gladiadores estavam na arena de Roma e tinham de dar a cara e o corpo, enquanto agora a gente até chamar gladiadores a quem escreve o que escreve e como escreve, até é ofender os gladiadores. Esses estavam ali para se sacrificarem. Aqui não. É numa sombra negra, numa fotografia que não existe, num gatinho, uma paisagem, um ramo de flores que não se sabe o que é, de onde saem julgamentos por vezes terríveis. Felizmente, vejo sempre o que acontece aos outros e fico de fora nisso.

Conheço muito bem o conceito crónicas de escárnio e maldizer e vou começar a escrever, de vez em quando, uma coisa que se chama crónicas de apreço e bendizer. Não me apanham para dizer mal seja do que for, não estou aqui para julgar ninguém. Para julgar e executar, em alguns casos, vai quase até a execução. E acho isso muito perigoso para a nossa sociedade. A nossa sociedade fica doente com isso. 

Notícias ao Minuto Júlio Isidro© Global Imagens  

Quando começou no primeiro programa na RTP o que fazia era construir aviões. A paixão pelo aeromodelismo já vem de pequeno? 

Desde os nove anos. O primeiro que construi – ainda hoje estou para saber porquê – era um avião da Luftwaffe da força aérea da Alemanha hitleriana, sabia lá o que é que estava a escolher. Felizmente durou muito pouco tempo porque lancei na cozinha, ele entrou no forno e ardeu imediatamente. Só depois é que construi o outro que é o que tenho numa fotografia, com nove anos e tal. 

O meu grande mestre foi a mesma pessoa que disse que eu era feio, a mesma pessoa que em determinada altura num programa do Dia da Mãe atribuiu rubricas a toda a gente menos a mim

Quais os ensinamentos que este primeiro contacto com a televisão lhe trouxe? 

Fazer televisão em direto e sem hipótese de ver o que é que tinha feito porque ainda não havia o sistema de gravação. O meu grande mestre foi a mesma pessoa que disse que eu era feio, a mesma pessoa que em determinada altura num programa do Dia da Mãe atribuiu rubricas a toda a gente menos a mim – e eu olhei para ele e disse, de lágrimas nos olhos, que também tinha mãe. Ele deve ter percebido isso e lá me deixou fazer também uma rubrica. Eu que nunca sou de reivindicar, tenho dificuldade em dizer não e conflituar, consegui fazê-lo.

Mas foi esse mesmo senhor que nos ensaios do ‘Programa Juvenil’ vinha com um dossier grande e trazia uma lista daquilo que ele considerava disparates. Fui aprendendo todos os sábados com alguém que me dava cabo da cabeça, mas ainda bem. E eu ouvia aquilo e corrigia, porque depois quando fosse para o ar, aquilo de certeza já não fazia. Depois foi a leitura, ver programas de televisão feitos noutros sítios, foi viajando, todos os dias escrevendo coisas, tenho quilos de pastas com ideias que jamais irei concretizar, que foram consolidando os meus conhecimentos de televisão, cultura geral de televisão que é o mais importante. 

Acredito que a dedicação de fazer um programa para 50 mil pessoas (com o ‘Febre de Sábado de Manhã’) é a mesma do que estar apenas em frente a um microfone ou a uma câmara. Mas a sensação será diferente? 

Quando se faz um programa para 50 mil pessoas num estádio, nós estamos num estádio muito especial, é o estádio da 'vaidade' também, admito que sim, ouvir aplausos sabe sempre bem. Mas ao mesmo tempo um enorme stress porque não pode haver da minha parte uma falha. Porque se alguém se rir de mim, são 50 mil pessoas a rir. Mas penso que foi sempre a minha inconsciência relativamente a isso e um mecanismo de defesa que me dizia: eu não me vou enganar, não vou dizer disparates. Fiz não só para 50 mil pessoas num Estádio de Alvalade, mas fiz para dezenas de milhares de pessoas noutros estádios, em pavilhões gimnodesportivos, ao ar livre… E depois chegar a essa idade e ainda ter esse recorde é que eu acho estranho, ou não, porque se calhar as pessoas já não estão mobilizadas. 

A malta nova talvez já tenha mais oferta, já seja mais cética, talvez já seja mais pessimista, mais desinteressada em relação a algumas coisas. Ali era um tempo em que havia pouco e vínhamos de um tempo em que não havia nada, antes do 25 de Abril. Portanto, apareci para oferecer à rapaziada nova aquilo que eu não tinha tido. A minha mãe dizia: “O que tu fazes à frente da televisão é aquilo que fazias em casa”.

Não se deve entrar para um projeto qualquer com a ideia que ‘já tenho tantos anos disto, sou o maior, gostam tanto de mim porque sou brilhante’… Nunca confiei nisso e vou para os programas completamente preparado

O facto de ser novidade e de haver pouca oferta ajudou a que conseguisse realizar muitos desses projetos. Se calhar, hoje em dia já não seria tão fácil…

É evidente que não. Era muito miúdo e já estava a fazer peças de teatro em casa. Os meus pais autorizavam que tirasse as portas da sala para fazer os lados do cenário. O meu pai deixou-me ir comprar a uma retrosaria uma série de metros de panos de chita para fazer a boca de cena. Escrevia as peças, as minhas irmãs eram atrizes também, mais uma outra amiga e os irmãos dela também contracenavam. Fazíamos peças de teatro escritas por mim e representadas por todos nós com as minhas avós e umas senhoras amigas com muita paciência a verem o que estávamos a dizer. A fazer cinema fiz a mesma coisa, fiz a minha própria máquina de cinema com uma caixa de sapatos. Experiências de química, castelos fantasmas no jardim da casa… Não parava de fazer coisas. Felizmente, ainda tenho alguma capacidade criativa. 

O Júlio fez parte da evolução da televisão… Quem são as suas maiores inspirações?

É evidente que eram mesmo os mais velhos. Gostava muito de ter sido o Artur Agostinho, gostava muito de ter sido o Fernando Pessa quando fosse grande. A única coisa que gostava de copiar do Fernando Pessa é que ele trabalhou até aos 99 anos e meio e morreu aos 100. E tenho isso planeado. O Artur Agostinho também morreu com 90 anos e foi um dos maiores desgostos da minha vida. 

Mas mesmo a outra geração, embora muito mais velhos, via com muita atenção grandes apresentadores como o Henrique Mendes, que era o galã da época, o José Fialho Gouveia. Curiosamente, nunca ninguém me disse como é que eu devia fazer. Eu tentava era imitar, não o estilo porque o estilo é aquilo que todos nós temos de criar, mas imitar a forma de trabalhar, o rigor do trabalho. Não vou para programa nenhum sem estar preparado. Não se deve entrar para um projeto qualquer com a ideia que ‘já tenho tantos anos disto, sou o maior, gostam tanto de mim porque sou brilhante’… Nunca confiei nisso e vou para os programas completamente preparado. Não utilizo papéis, teleponto… Dentro da cabeça está lá tudo. 

Estou convencido que quando deixar a televisão não terei muito tempo de vida. Não posso dar confiança à minha cabeça de pensar em desgraças se estiver muito motivado para fazer os meus programas de televisão, e por outro lado porque em boa consciência me considero útil 

Portanto, não se imagina fora da televisão...

Não me vejo fora da televisão por uma razão essencial, é mesmo por minha causa. Estou convencido que quando deixar a televisão não terei muito tempo de vida. Não posso dar confiança à minha cabeça de pensar em desgraças se estiver muito motivado para fazer os meus programas de televisão, e por outro lado porque em boa consciência me considero útil. Aquilo que estou a fazer é útil e, independentemente de ser útil, é razoavelmente bem feito. E, ainda por cima, estou a deixar um legado importante à televisão. Cada vez que for preciso fazer um balanço de vida, seja de quem for, nesta altura já têm mil. É um contributo como outro qualquer. 

É evidente, já disse à família, particularmente à minha mulher, quando der o mais pequeno sinal de demência avisem que paro logo, se é que eu não tivesse dado por isso. Enquanto a cabeça funcionar e o corpo não estiver completamente repelente, penso continuar a trabalhar em televisão, se me deixarem. Mas agora esta nova administração já disse que quer renovar o contrato comigo. Para mim é muito bom porque houve muitos anos, já elas [filhas mais novas] eram nascidas e eu trabalhava com contratos de 13 semanas. Sou o precário mais antigo do país. 

Já fez muitas entrevistas, muitas experiências, memórias… Se fosse feito um filme sobre o Júlio Isidro, qual dessas histórias é que não podia faltar? 

Jessica Tandy, uma senhora brilhante, entrevistei-a pouco tempo antes de ela morrer. Já não sabia o que é que havia de dizer no final porque eu choro com facilidade. Ela estava tão bonita, tão frágil, tinha feito um filme chamado ‘Fried Green Tomatoes’. No final disse-lhe que se não tivesse uma mãe tão maravilhosa como tenho, gostava que tivesse sido minha mãe. Ela olhou para mim com um ar complacente e sorriu. 

Ter entrevistado três vezes o Arnold Schwarzenegger e à segunda vez ele já gostava de mim. À segunda vez olhou para mim e disse: “Desde a última vez estás em grande forma”. Eu ao lado do Schwarzenegger... Gostei muito, foi muito simpático.

A Julia Robert também porque quando entrei disse com esta ingenuidade, que às vezes me é peculiar: sabe uma coisa, você é Júlia e eu sou Júlio. Enfim, uma maneira de começar uma entrevista como outra qualquer. Ela achou muita graça. E depois terminou com uma coisa que é um hábito muito português - hoje em dia há dois anos que não é -, dei-lhe duas beijocas e ela achou perfeitamente bem.

Com o Dustin Hoffman foi também uma bela entrevista porque ele tem um grande nariz e começámos a conversa a discutir o tamanho do nariz, só que ele disse que estava em vantagem porque era muito pequenino e eu era muito alto. 

E ao nível de portugueses, tenho tido alguns momentos da minha vida… Entrevistar a Eunice Muñoz, o Ruy de Carvalho, o poeta José Gomes Ferreira ou o Jorge Amado… Estou só a lembrar-me de alguns.

Como é que vê e se adaptou à evolução da televisão?

Como sou oriundo de uma televisão de um e dois canais únicos de serviço público, continuo a considerar que todas têm direito à existência. Simplesmente, se há televisões que vivem essencialmente ou exclusivamente da faturação que fizerem em termos de publicidade, é evidente que a sua linguagem e a forma de atrair espetadores é naturalmente diferente de uma estação de serviço público, que não é sinónimo de dizer que a televisão de serviço público tem de estar nas tintas para as audiências. Não tem é de ser uma razão direta entre público e publicidade. 

A estação de serviço público tem, obviamente, de tentar ter o maior número possível de bons espetadores que valham a pena e que tenham que ver com o projeto. E a televisão de serviço público é aquela que em nome disso pode fazer mais experimentalismo. Mesmo que tenha só 10%, são os 10% de audiência que têm de valer a pena em termos de serviço aos portugueses. Portanto, estar sistematicamente a pôr no mesmo prato da balança um braço de ferro, uma batalha, uma luta entre a RTP e as privadas é estar a fazer um jogo onde os jogadores não têm de ter, obviamente, os mesmos projetos. Têm de ser projetos absolutamente diferentes. 

O serviço público de televisão é fácil de perceber o que é. Sendo que devo dizer que mesmo as privadas em termos de documentários informativos, muitas vezes prestam um serviço público. Vi uma nova rubrica que há no noticiário da TVI, ‘Crimes Quase Perfeitos’, e achei extraordinariamente bem feito. A RTP faz também muitos bons trabalhos. Haver uma incursão do serviço público das coisas mais “sérias” colhe perfeitamente dentro de um serviço comercial da televisão e também dentro do serviço público. O entretenimento ligeiro, bem disposto, até irónico, disruptivo algumas vezes também colhe perfeitamente. 

O que vejo em termos de televisão é que hoje em dia há uma matéria-prima para trabalhar que é muito melhor. E há uma outra matéria-prima que esta nova geração trabalha, às vezes nem tenho a certeza que tenham bem a noção do que é que está a acontecer, que se chama liberdade.

Cada vez que leio – e aí sim, nas redes sociais – que não há liberdade e que vivemos numa ditadura, fico a pensar, mas estão a escrever isto por ignorância ou por maledicência. Porque nós estamos mesmo em liberdade, e ainda por cima não vejo projeto – estou a falar da televisão a sério – que tentem manipular a opinião das pessoas, a sua visão do mundo, as suas ideologias… Acho que não e quero continuar a acreditar que não.

As novas gerações só têm é de usar muito bem a palavra liberdade. E a palavra liberdade, independentemente de tudo, também tem limitações, que é a liberdade de nós limitarmos a liberdade, mas temos de ser livres para. Porque há coisas que têm que ver com a humanidade, com bom senso, com sociabilidade, respeito pelo próximo que podem parecer que se mal utilizadas estão a coartar o nosso direito à liberdade. A liberdade de expressão também tem limitações, tem que ver com algumas expressões. 

Tem feito o possível para que as pessoas liguem a televisão e não desliguem a inteligência. O consumo rápido e ‘sem pensar’ já está a consequências ou vai trazê-las? 

É evidente que a televisão é uma indústria e um comércio, e na indústria e no comércio também há bebidas de beber e deitar fora a lata. Também aí temos de ter bom senso. Devemos fazer televisão para durar e há outra que é da embalagem perdida. A da embalagem perdida estimula apenas as nossas emoções mais superficiais, mais imediatistas. 

O consumo rápido tem também que ver com aquilo que nós pensamos. É preciso chegar a esta idade para perceber que convém viver devagar. O ritmo é um erro quando se imagina que o ritmo é só ter um metrónomo a andar [de um lado para o outro]. Não! Nós podemos regulá-lo para fazer um compasso de dois por quatro, mais tranquilo. Muitas vezes quem faz televisão está convencido que as pessoas não estão com pachorra para ouvir, para ver, ou então no caso da escrita, não estão com pachorra para ler. Esta ideia da rapidez, do ser sucinto, da embalagem perdida de jogar com soundbite... Para mim o soundbite é muito interessante para depois aparecer nas redes sociais. Recomendava a toda a gente a viver, ver televisão e ouvir rádio mais devagar.

Gostaria muito que isso fosse o último ato da minha vida profissional, fazer um programa que só lhe digo o título: ‘Quando o Sol Nasce’ 

Já passou por um canal privado, a TVI, mas nunca trabalhou para a SIC. Nunca houve um convite?

Houve. Aconteceu no princípio. Ainda na apresentação do canal da SIC, sentou-se ao meu lado o Dr. Pinto Balsemão. No final veio ter comigo e disse que um dia tínhamos de conversar, já passaram alguns anitos e nunca chegámos a conversar. Mas gosto muito do trabalho da SIC e do projeto que tem vindo a fazer. O próprio Emídio Rangel almoçou comigo uma vez e depois deu-me um bilhete que tenho guardado que dizia: “Júlio, mais cedo do que tarde vamos trabalhar juntos”. Infelizmente, o Emílio Rangel já partiu e não aconteceu. Não estou aqui a dizer que fui disputado. Penso que se hoje em dia tivesse menos 20 ou 25 anos, com aquilo que faço, talvez alguns canais estivessem interessados. Mas não iria fazer mudanças tipo jogador de futebol. Não é isso que me motiva. Se tiver o suficiente para viver e para elas [as minhas filhas] terem os seus cursos e viverem a vida chega-me perfeitamente.

Notícias ao Minuto Júlio Isidro© Global Imagens  

O lado ‘caça talentos’ é uma das suas marcas. Há espaço para todos? 

Há mesmo espaço para todos e é uma pena que certos responsáveis não tenham a noção disso e deveriam ter. E ainda há muito espaço até para aqueles que estão fora dos todos, aqueles que não estão na sua cabeça nem na minha. Gostaria muito que isso fosse o último ato da minha vida profissional, fazer um programa que só lhe digo o título: ‘Quando o Sol Nasce’. Já falei dele à direção do canal Memória. Mas, quer dizer, há o ‘Inesquecível’ para fazer, há o ‘Traz para Frente’, entrevistas para dar, há os prefácios para escrever para os outros, há a minha oficina para ir um bocadinho aos aviões, há a rádio e o convívio com a família que valorizo muito...

Aquilo a que as pessoas chamam de fama e estatuto acaba rigorosamente num pote de cinzas (...) Temos de pôr os pés no chão e saber que a rainha de Inglaterra se comporta rigorosamente como nós  

Após 61 anos de carreira, podemos dizer que o Júlio Isidro é um bom ouvinte?

Sou! Ouço muito tudo. Não só a rádio como o que os outros dizem, até para aprender. E também devo dizer que, de vez em quando, estou em estado de semi-indignação. Mas isso não é por aquilo que vejo e ouço dos meus companheiros profissionais. É por aquilo que ouço e vejo no mundo. Gosto muito do Brasil, mas neste momento estou com alguma pena dos brasileiros, por exemplo. 

Sei que não liga a estatutos, mas o que lhe deram estes 61 anos de carreira? 

Deram-me a noção de que aquilo a que as pessoas chamam de fama e estatuto acaba rigorosamente num pote de cinzas. Não vale a pena. Não é nada demagogia, é ideia rigorosa que tenho de que a fama não é coisa nenhuma. A notoriedade - e que espero que seja sempre pelas boas razões – também passa de um dia para o outro. Aquela bela frase futeboleira de que ‘passar de bestial a besta é num instante’ também é verdade. Temos de pôr os pés no chão e saber que a rainha de Inglaterra se comporta rigorosamente como nós. 

A fama pode-se tornar num inimigo?

A fama transforma-se sempre num inimigo. Uma das coisas que costumo dizer mais em conversa com a minha mulher é que a maior parte das pessoas tem falta de memória. Quem vem do nada e se vai alcandorar a uma posição económica e consequentemente social elevadíssima, convém nunca perder a memória. Há muita gente que só olha para cima e acho que a maior parte das pessoas devia olhar para baixo. Eu sou assim, mas se fosse o Johnny Carson, à entrada do estúdio tinha uma estrela em ouro para pôr o meu carro. Mas convém as pessoas pensarem sempre de onde é que eu vim, que esforço é que os meus pais fizeram para eu ter estudado mais, ou que clique na minha vida é que aconteceu para ter passado a ser quem sou, e assim haveria menos exigências.

Uma vez em 81 entrevistei uma futura grande vedeta da canção brasileira. A entrevista foi feita nos degraus do hotel Glória, perto de Copacabana. Ele estava a começar e ficámos amigos. Anos mais tarde ele veio a um programa meu. Quando vou entrar na sala de maquilhagem, o manager não me deixou entrar porque a vedeta não ia receber ninguém. Eu, que sou pacífico, disse-lhe: Vai acontecer uma a duas coisas, ou fico cá eu ou fica cá você, mas como sou eu o produtor e o apresentador do programa, faça o favor de sair. Também há gente que inquina o comportamento das vedetas.

É muito bom quando nós estamos satisfeitos com aquilo que temos. Aquilo que a nossa família tem... já estamos na área dos privilegiados. Se fizermos isso, então, a ideia da fama... A fama são as letras grandes do cartaz, passamos das letras grandes às pequenas com as maiores das facilidades. Não é demagogia, é mesmo a melhor maneira de me sentir feliz.

Aquilo que tenho feito considero um ato cultural porque se não estiver a estupidificar as pessoas, estou a ajudá-las, a valorizá-las

Como foi receber a Medalha de Mérito Cultural da República Portuguesa? 

Foi uma grande emoção porque realmente houve quem percebesse que aquilo que faço é uma forma de cultura. Tenho da cultura uma visão muito descontraída, também muito democrática. Aquilo que tenho feito considero um ato cultural porque se não estiver a estupidificar as pessoas, estou a ajudá-las, a valorizá-las. Se estou a valorizar é porque a mensagem que faço passar é útil para o conhecimento, a realização, o exercício intelectual das pessoas, para a sensibilidade, para o prazer. E foi precisamente por isso que me deram a medalha.

Curiosamente tem sido uns tempos bonitos porque o falecido Presidente Jorge Sampaio condecorou-me com a Ordem do Infante D. Henrique que foi a primeira grande medalha que tive na vida. Este atual Presidente condecorou-me com a grã-cruz da Ordem do Mérito também. Em boa verdade, tenho perseguido nos meus sonhos apenas mais uma medalhinha para colocar ao peito. Sou um lisboeta essencial e pode ser que um dia tenha também a medalha de Lisboa.

Qual a melhor homenagem que lhe podem fazer?

As condecorações não se pedem nem se recusam, aceitam-se. E também devo dizer que são coisas muito bonitas, mas acho que sou homenageado todos os dias. Aqui há dias estava a fazer uma caminhada, chego a uma passagem de peões e o carro parou para eu atravessar, mas depois de ter atravessado o carro continuou parado e olhou para mim um rapaz de cerca de 40 anos, cabelo todo rapado, e disse: “Júlio, muito obrigado por tudo o que fez por mim e pelo país”. Depois meteu a mudança e foi-se embora. Também já me aconteceu parar num sinal vermelho e ao meu lado parar um carro. O fulano abre o vidro, eu também, e ele disse: “É só para dizer que lá em casa o apreciamos muito porque nunca diz mal de ninguém”. E meteu a mudança e foi-se embora. Achei graça. 

Quem é mais ‘galinha’, o pai ou as filhas? 

Se calhar, sou mais porque elas têm direito a voar. Neste caso, sou mais galo. Não estou no poleiro lá em casa, não há poleiros, mas elas têm direito a voar, têm asas que eu já não tenho. 

A minha mulher é a personagem mais importante da minha vida

Qual delas 'bebeu' mais do comportamento do pai?

Isto é uma mistura muito boa. A Mariana está a terminar o curso de médica dentista e identifica-se comigo em muitas coisas, mas a Francisca está em belas artes e é uma performer fantástica. Ela disse-me aqui há tempos: “Papá, sou uma boa performer mas só para quatro pessoas”. Ela só tem de romper isso porque tem imensa graça natural, muito criativa… Está mais perto do show business comigo, mas a Mariana, também capricorniana como eu, tem muitas características minhas e também de senso de humor. Cada uma bebeu um bocadinho de mim, e dois bocadinhos diferentes. 

E por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher?

Não, ao lado, e se for preciso à minha frente. A minha mulher é a personagem mais importante da minha vida. Entre várias coisas, deu-me a possibilidade de ser pai destas. Também sou pai da Inês, é evidente. Ainda ontem lhe dizia - às vezes temos estes desabafos: Gosto muito de ti porque és muito asseada, e não é o duche, é mentalmente, esteticamente, sob o ponto de vista da própria ética. Tenho o maior orgulho em estar casado com alguém com quem ficarei junto até que a minha morte nos separe. 

Ainda tem muitas coisas por fazer... Quais são?

Em termos profissionais tenho umas seis coisas que apresentei à RTP Memória, uma delas é esse programa, um outro chama-se ‘A Travessa da Memória’. Em termos de rádio estou muito feliz. Neste momento sou um corredor de maratona, o ‘Hotel Califórnia’ vai fazer cinco anos… Em relação à rádio estou a fazer o que tem de ser feito, em relação à televisão também, gostaria de fazer mais alguma coisa mas não cumulativamente com o que estou a fazer. 

Em relação ao resto, tenho um pacto com Deus e acho que me vai fazer esse jeito. Gostava de vê-las [as filhas] terminar os cursos, vê-las num apartamento T1 ou T2 e, eventualmente, se tiver força nas pernas, dar-lhes o braço quando elas se casarem. Em relação à minha mulher, quando elas voarem e se eu ainda andar, queria ver se visitávamos mais umas coisas. 

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