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"Lembrar-nos-emos sempre deste álbum. Fomos obrigados a reinventarmo-nos"

LEFTY é a banda que junta Leonor Andrade na voz, João Nobre no baixo, Pablo Banazol nas guitarras e Dani na bateria. Com o primeiro álbum acabado de sair do forno, o Notícias ao Minuto esteve à conversa com um dos elementos do grupo, o ex-Da Weasel.

"Lembrar-nos-emos sempre deste álbum. Fomos obrigados a reinventarmo-nos"
Notícias ao Minuto

09:15 - 01/10/21 por Marina Gonçalves

Cultura LEFTY

Este é um dos projetos que foi afetado pela pandemia, mas que não 'atirou a toalha ao chão'. Os LEFTY começaram a dar os primeiros passos antes da chegada da Covid-19 a Portugal, e depois viram-se obrigados a "reinventarem-se". 

"Levámos o desafio da melhor maneira possível. Foi terapêutico e ajudou-nos a fazer esta longa travessia de uma maneira mais produtiva". Em conversa com o Notícias ao Minuto, João Nobre falou abertamente sobre este projeto que está já a dar frutos. 

A banda acaba de lançar o primeiro álbum, esta sexta-feira, 1 de outubro, no Dia Mundial da Música, e vai dar a conhecer este trabalho já este sábado, 2 de outubro, na 9.º edição do FNAC Live, no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa. 

O que podemos esperar deste concerto onde vão apresentar o primeiro álbum?

É, de facto, muito especial porque os LEFTY lançam o primeiro álbum no dia anterior. Portanto, é tudo perfeito para nós termos uma boa rampa de lançamento, ainda por cima com um festival com esta dimensão, com este carisma e com esta qualidade. Para nós é mesmo muito especial ter a oportunidade de apresentar pela primeira vez num palco como o FNAC Live.

Qualquer palco, qualquer oportunidade nesta altura do campeonato é uma dádiva 

E há algum tipo de surpresa preparada?

Estamos a trabalhar afincadamente para agarrar com unhas e dentes a oportunidade, mas não há nenhuma surpresa de maior. Aliás, nós estamos a ensaiar já há algum tempo, estamos a tentar fazer as coisas com uma entrega total, sabendo que a responsabilidade é muito grande por a apresentação ser logo num palco como o que vai ser. Estamos concentrados no facto de podermos fazer bem, sem improvisar muito.

Destacaria que foi um álbum feito com muita alma, muita entrega, muita purga 

Depois de um ano com os artistas parados por causa da pandemia, este tipo de iniciativas (gratuitas) são precisas?

Sim, absolutamente. Temos dito que qualquer palco, qualquer oportunidade nesta altura do campeonato é uma dádiva. Como todos sabemos, especialmente a Cultura tem passado muitíssimo mal. Isto é absolutamente extraordinário, ainda por cima um festival gratuito, com esta qualidade, com artistas como Benjamim, Jorge Palma, Marta Ren, Fogo Fogo e os novos talentos, todos juntos em cima do mesmo palco... Vai ser uma dádiva tanto para o público como para os artistas, que estão famintos deste tipo de eventos. 

O que mais destaca deste primeiro trabalho?

Foi um álbum que foi forjado num ano horrível. Foi terapêutico para todos os elementos da banda e os produtores (o João Martins que trabalhou connosco, para toda a gente). Foi uma oportunidade que tivemos de sair daquela zona cinzenta ou negra que todos passámos. Concentrámo-nos a fazer algo com alma, com muito coração. A destacar foi a entrega que todos os elementos que participaram no disco tiveram para fazer este álbum. Deu-nos também a oportunidade de nos conhecermos melhor. Passámos muito tempo juntos. Inclusivamente saímos da grande Lisboa e fomos gravar alguma parte deste álbum e ensaiar, por exemplo, para o Algarve, o que nos obrigou a passar muito tempo juntos. Destacaria que foi um álbum feito com muita alma, muita entrega, muita purga.

Vimo-nos obrigados a reinventarmo-nos. Foi um processo ao mesmo tempo horrível, mas que nos deu a oportunidade de aprender muitas coisas novas

E o que destinge este álbum de outros?

Se calhar o contexto em que foi criado e gravado. Vamos lembrarmo-nos deste álbum para sempre por causa da pandemia que nos afetou a todos. Toda a envolvência com que foi criado, e depois gravado. Criado por vezes à distância… Com os confinamentos, obrigou-nos a ter outro tipo de experiência e a ter outro tipo de processos criativos, coisa que nunca tinha experienciado antes - nem eu nem os restantes elementos da banda -, nomeadamente com a Leonor que é a letrista e vocalista. Vimo-nos obrigados a reinventarmo-nos. Foi um processo ao mesmo tempo horrível, mas que nos deu a oportunidade de aprender muitas coisas novas, muitas maneiras diferentes de abordar a criação.

Pegando pelas letras da Leonor, que "abordam assuntos da vida quotidiana e de cariz sociológico, tais como a Igualdade de género ou a descriminação, sempre de uma perspetiva feminina". Sente que esta perspetiva acaba por dar outra força, ou seja, é importante haver esta perspetiva feminina perante o mundo em que vivemos?

Claro que sim! Há três rapazes e uma rapariga na banda e obriga-nos, a nós próprios músicos, a ver, a entender e a tentar perceber o mundo numa perspetiva feminina que nem sempre nós conseguimos (enquanto homens ou rapazes) ver ou entender. É, de facto, às vezes uma visão muito crua, muito dura, muito áspera, e é um exercício que nos coloca a repensar várias coisas, a ver por outra perspetiva o mundo que nos rodeia. E sentir – e acho que esta é a parte mais importante – o que será ser uma figura feminina, ser mulher. Esse ponto de vista é super rico, é uma lírica por vezes muito crua, muito dura, mas ao mesmo tempo muitíssimo forte e impactante. Para mim é uma lufada de ar fresco. Sou suspeito, como é evidente, mas é uma lírica que admiro bastante.

Quais as principais características que destaca de cada um dos restantes elementos da banda - da Leonor Andrade, do Pablo Banazol e do Dani?

Na verdade, o que destacaria é que somos quatro pessoas muito diferentes. E é esta mistura, este entendimento entre quatro partes diferentes, que dá mais sumo às nossas composições e interpretações. Aquele chavão ‘todos diferentes, mas todos iguais’ é um bom chavão. E é esta mistura que nos dá, de certa forma, a nossa identidade. Não destacaria uma coisa por elemento, mas que, de facto, são essas diferenças que ajudam a que o nosso trabalho seja mais rico em termos de produção.

Inspirados nas bandas de garagem do final dos anos 80, início dos anos 90… Esta fase sabe um pouco a liberdade… É esta liberdade que também querem transparecer neste trabalho?

Sim, acho que está lá explicito, de forma transparente. Aliás, as gravações repartiram-se entre Almada e Olhão (no estúdio Zipmix) e dá para perceber que parte desta coisa da garagem está no disco. Fomos para lá gravar, mas ao mesmo tempo andávamos a ensaiar as músicas constantemente para poder gravá-las a seguir. Ou seja, sai da garagem e vai para estúdio. E dá para sentir isso, sobretudo nas músicas mais viris, com mais intensidade rockeira. Como se as músicas tivessem sido gravadas na garagem. Acho que isso dá para sentir, mas caberá sempre ao ouvinte sentir alguma empatia com isso ou não.

Por último, queria só pegar pela curiosidade do nome da banda. LEFTY é "uma homenagem a Maria de Luz, mãe de João Nobre, por em criança ter sido obrigada a contrariar a destreza inata em escrever com a mão esquerda. Tornou-se destra por obrigação, ambidestra por teimosia". Porque quiseram fazer esta homenagem? Que mensagem quiseram passar?

São daquelas histórias que todos nós temos, que nos contam quando somos crianças. Ela era obrigada e levava reguadas (na altura acho que era com um pau de oliveira). Batiam-lhe porque teimava em escrever com a mão esquerda. Chocou-me, e ouvi esta história quando era muito pequenino. Foi uma coisa que ficou plantada na minha cabeça para sempre. Quando começámos a falar sobre a possibilidade de fazer este projeto, imediatamente essa ideia veio-me à cabeça porque queria fazer uma homenagem. Falei com os restantes elementos e toda a gente gostou imenso do conceito e do nome.

No fundo aqui também está presente a liberdade…

Absolutamente, acho que está tudo ligado. Faz tudo parte de uma ideia e de um conceito que conseguimos e que temos a teimosia em tentar passar porque faz parte de nós, e os nossos valores também lá estão. Estamos a tentar fazer tudo o que sentimos e transmitir tudo o que sentimos, vivemos e pensamos.

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