As palavras do Presidente da República, que qualificou Donald Trump como um "ativo soviético", continuam a dar que falar e, depois de terem sido alvo de análise lá fora, foram também comentadas cá dentro, com algumas críticas à mistura.
Uma das vozes críticas foi o líder do Chega, André Ventura, que considerou que Marcelo Rebelo de Sousa foi "extremamente imprudente", acusando-o de " perder credibilidade".
"O Presidente da República tem direito a ter a sua posição enquanto cidadão. Parece-me de uma certa imprudência que o Presidente da República se refira a um dos nossos maiores aliados, os Estados Unidos da América, ao Presidente dos Estados Unidos da América, dessa forma, com o potencial que aqui há de criar um conflito diplomático severo", afirmou Ventura, numa conferência de imprensa na sede do partido, em Lisboa, na sexta-feira.
O presidente do Chega considerou que os EUA são "do ponto de vista militar, do ponto de vista económico e do ponto de vista civilizacional dos maiores aliados" de Portugal, países que têm "uma relação militar longa" e integram ambos a NATO. Desta forma, defendeu que Marcelo foi "extremamente imprudente em fazer esse tipo de categorização sobre o presidente de um país que é aliado militar e político" de Portugal.
Também a presidente da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, considerou que o Presidente da República fez "mais uma das suas" e voltou a falar "mais do que devia".
"Bem, [é] Marcelo Rebelo de Sousa a fazer mais uma das suas, que vai fazendo, já não é a primeira vez que fala mais do que aquilo que deve e que, de alguma forma, põe um pouco em causa, inclusivamente, o papel do Presidente da República", afirmou ontem a líder da IL em declarações os jornalistas em Grândola, no distrito de Setúbal.
Para Mariana Leitão, o papel do Presidente da República é "essencial" e "deve ser resguardado deste tipo de polémicas que não ajudam ninguém, não resolvem problema algum. Muito pelo contrário, acicatam polémicas e, agora, vão obrigar o Governo a, eventualmente, ter de agir perante estas declarações".
Quem também não viu com bons olhos as palavras de Marcelo foi uma das pessoas que ambiciona sucedê-lo em Belém. O candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo entendeu que o Presidente "não deve fazer comentários pessoais".
"Quem faz a política externa do Estado português é o Governo. Qualquer pessoa que esteja investida no lugar da Presidência - portanto, o Presidente da República - não deve fazer comentários pessoais porque representa o Estado Português", disse Gouveia e Melo, em declarações aos jornalistas no Algarve.
O candidato a Belém apontou que o Estado Português é aliado do norte-americano em "diversas alianças" e sublinhou: "A nossa segurança e defesa comum é muito importante. Julgo que esse tipo de comentários não devem ser feitos pelo Presidente da República."
Por sua vez, o secretário-geral do PS, que também se pronunciou, desvalorizou o sucedido. José Luís Carneiro disse que conhece as ideias do Presidente da República sobre os Estados Unidos e não teme "repercussões negativas" causadas pelas suas palavras.
Afirmando não ser comentador das palavras do chefe de Estado, em declarações aos jornalistas em Faro, o secretário-geral do PS expressou o seu "grande apreço" e "estima imensa" pelo Presidente da República e enalteceu o "trabalho importante que Marcelo Rebelo fez ao país".
"(...) Sei bem a consciência que tem o senhor Presidente da República sobre as funções de Portugal no mundo e sobre quem são os seus aliados", assegurou José Luís Carneiro, considerando que "aqueles que aparentemente se mostram muito feridos" com as palavras de Marcelo "são pessoas que atentam contra os valores de que os Estados Unidos têm sido historicamente os grandes defensores".
O bloquista Francisco Louçã também falou num "factoide de verão". Em declarações à SIC Notícias, ao ser questionado acerca da possibilidade de as palavras do chefe de Estado poderem criar um incidente diplomático entre Lisboa e Washington, Louçã recusou: "Não creio que chegue a isso. Acho que isto é um pouco um factoide de verão", disse.
"A expressão de que 'Trump é um ativo soviético' não tem sentido porque a União Soviética acabou há mais de 20 anos. A expressão ativo remete para romances de espionagem, e, portanto, parece ser desadequado. Que Trump tem uma convergência estratégica com Putin... Não há grande dúvida sobre isso, pois não? Desse ponto de vista, o Presidente está a apontar um facto da política internacional", considerou.
E o que diz o Governo?
Na sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros recusou pronunciar-se sobre o assunto. "Não comento nem vou comentar declarações do senhor Presidente da República", disse Paulo Rangel, em declarações à RTP. No entanto, ressalvou: "A condução da política externa cabe ao Governo e portanto obviamente é através do Governo que as posições de Portugal são veiculadas neste plano", completou o governante.
Recorde-se que as declarações de Marcelo foram feitas na quarta-feira, na Universidade de Verão do PSD, em Castelo de Vide, no distrito de Portalegre. O Presidente disse que o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, funciona como um "ativo soviético", ao favorecer a Federação Russa na guerra contra a Ucrânia.
"Com uma coisa peculiar e complexa: é que o líder máximo da maior superpotência do mundo, objetivamente, é um ativo soviético, ou russo. Funciona como ativo", afirmou.
As declarações viriam a ser destacadas lá fora, tendo sido analisadas, por exemplo, na CNN Internacional.
Desde que estas palavras geraram repercussão, Marcelo Rebelo de Sousa ainda não se pronunciou.
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