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Presidente da República dá aula sobre partidos "em compartimentos"

O Presidente da República voltou hoje ao seu antigo liceu para dar uma aula sobre os partidos políticos que "vivem em compartimentos estanques" e lançou um repto sobre a reestruturação da Educação num Portugal "completamente diferente".

Marcelo Rebelo de Sousa regressou pela terceira vez desde que é Presidente à Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, o antigo liceu que frequentou entre os 10 e os 17 anos. A primeira vez que o fez, um ano depois da primeira eleição, chegou no próprio automóvel.

Hoje fez o mesmo mas, ao contrário do que tinha acontecido anteriormente, não o esperavam centenas de alunos no auditório da escola. Desta vez, o "professor" antecipou-se e teve de aguardar que os alunos entrassem e preenchessem todas as cadeiras para poder começar a aula, que teve uma duração aproximada de duas horas.

Naquele que era o antigo ginásio do seu liceu, o Presidente da República recordou os sete anos de passagem pela escola onde decidiu que o Direito e acima de tudo ensiná-lo era a sua vocação: "Era muito bom a matemática, também era bom a português, também era bom a ciências. Hoje teria optado por medicina ou engenharia. Deu jornalismo, eu não pensava. Deu política, eu tinha uma vaga ideia."

No arranque do ano letivo, o chefe de Estado pediu uma "aula debatida", mas por força da timidez ou moleza das férias que persistia, as perguntas dos alunos demoraram, o que deu tempo para o Presidente da República deixar um conselho: mais do que escolher uma profissão, "o importante é serem felizes e descobrirão que serem felizes é fazer os outros felizes. Não há ilhas."

Depois veio uma "lição" para aqueles que já foram alunos e hoje decidem no parlamento os destinos do país. E como professor que é, Marcelo Rebelo de Sousa contou a estes estudantes do secundário um exercício que faz com os líderes dos partidos políticos.

"Quando fui eleito, e antes de tomar posse, tive um encontro com todos os líderes. Conhecia praticamente todos! O primeiro-ministro [António Costa] foi meu aluno com 19 anos, o líder do PCP [Jerónimo de Sousa] tinha sido meu colega há 40 e tal anos na Constituinte, a do BE [Catarina Martins] não conhecia -- conhecia como atriz -, a líder do CDS [Assunção Cristas] tinha sido aluna e assistente na minha faculdade e o líder do PSD [Passos Coelho] era líder da JSD quando eu tinha lugar de dirigente nacional", descreveu.

"Perguntei-lhes: 'Olhe, o que pensa que os outros partidos vão fazer nos próximos quatro anos?'. Disseram-me o que achavam que iam fazer nesses quatro anos. Todos erraram! Nem os da esquerda conheciam os da esquerda, nem os da direita conheciam os da direita, nem os da esquerda conheciam a direita e vice-versa por maioria de razão", completou.

O exercício, contou, repetiu-se depois das eleições legislativas de 2019 e ainda hoje é feito, mas a conclusão, na ótica de Marcelo, é apenas uma: "Estão na mesma, não se falam."

Os partidos representados na Assembleia da República "vivem em compartimentos estanques", prosseguiu o chefe de Estado, numa lógica de "eu tenho razão, interessa-me lá o que o outro pensa", algo que não é benéfico porque "as sociedades não vivem assim".

Coube tudo nesta aula de quase duas horas: a reorganização do quadro geopolítico internacional, a recessão que se avizinha, o dia-a-dia do Presidente, a troca das praias em Cascais por Caxias, a troca da tosta de queijo e sumo de ananás por um iogurte para "um almoço rápido", como foi estar presente nas cerimónias fúnebres da rainha Isabel II e até prognósticos sobre o resultado da seleção nacional de futebol no Mundial no Qatar.

Houve ainda tempo para deixar uma 'achega', sob a forma de um conselho, sobre o pagamento de impostos por parte dos que mais ganham.

"Não entrem em ilusões sobre a vida porque há problemas enormes, quem é privilegiado tem um dever, quem mais tem, mais impostos deve pagar", referiu.

Já passava das 13h15 quando o Presidente da República foi questionado sobre o estado do Educação no país e respondeu que "há uma janela de oportunidade para repensar o sistema como um todo".

"Desde as estruturas físicas à sua forma de organização, de gestão, aos métodos utilizados, à maneira de encarar a revolução digital. Estão a emergir novas profissões e há profissões clássicas que estão a transformar-se completamente, a escola tem de ser flexível a isso. Quanto mais flexível for, melhor. A realidade está a mudar. A mudança é a grande constante deste tempo", vincou.

No entanto, lamentou "a cabeça" dos governantes que "não está muito virada para aí, porque está virada para as medidas de apoio e para a resistência, a sobrevivência, a reação à crise", quando deviam olhar para a Educação "além disso".

"Se [o país] não começa a ver além disso só se começa a preparar o depois quando o depois já foi. E a escola tem de antever, não tem de gerir o que já aconteceu", acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa finalizou a aula com um repto: "Saídos da pandemia [...] acho que este é o momento para se fazer um debate sério sobre os grandes desafios da educação num mundo completamente diferente e num Portugal completamente diferente de há uma década."

Terminada a aula houve tempo para as 'selfies' e as 'stories', mas não para todos. Alguns estudantes já tinham abandonado esta aula para ir a correr para as da tarde, com atraso, porque a campainha já tinha tocado há muito.

Leia Também: Marcelo reunirá Conselho de Estado para discutir situação socioeconómica

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