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Violência doméstica nas comunidades ciganas resolvida entre famílias

A violência doméstica nas comunidades ciganas atinge mulheres de todas as idades e situações profissionais e a vergonha de ser "uma mulher deixada" ainda faz com que muitos casos sejam resolvidos entre famílias, mas é uma realidade em mudança.

Violência doméstica nas comunidades ciganas resolvida entre famílias

Estas e outras conclusões sobre o fenómeno da violência doméstica no seio da comunidade cigana vão ser conhecidas na quinta-feira, na apresentação dos resultados do projeto europeu PATTERN (acrónimo inglês de Prevenir e Combater a Violência Doméstica contra Mulheres Ciganas), que envolveu Portugal, Espanha, Bulgária, Roménia e Grécia.

A coordenadora do projeto em Portugal, que esteve a cargo do CESIS -- Centro de Estudos para a Intervenção Social, disse à Lusa que a investigação teve por base entrevistas de fundo a mulheres ciganas.

De acordo com Heloísa Perista, o objetivo comum dos cinco países era o de "empoderar (capacitar) as mulheres ciganas para reconhecerem as situações de violência doméstica, conhecerem os recursos e os mecanismos de apoio e poderem atuar como líderes de mudança nas suas comunidades".

"Em primeiro lugar verificamos que a violência doméstica de facto existe dentro das comunidades ciganas, embora por vezes haja alguma tentativa de ocultar a existência deste problema ou pelo menos de minimizá-lo na sua extensão e nas suas consequências", adiantou Heloísa Perista.

Salientou que como muitas raparigas ciganas ainda continuam a casar muito cedo "é também desde muito cedo que as situações de violência doméstica, quando existem, começam a ter lugar na vida destas mulheres".

"Quando falamos de violência doméstica nas comunidades ciganas estamos a falar de diferentes expressões da violência, não só a violência física, mas em muitos casos a violência psicológica, a humilhação, as más palavras, uma forma constante de denegrir as mulheres e também de muitas formas de controlo", revelou a investigadora.

Segundo a responsável, essas formas de controlo revelam-se do ponto de vista financeiro, mas também em matéria de relações pessoais, por exemplo controlando a relação que a mulher tem com a família de origem, impedindo que use o telemóvel, controlando permanentemente com quem está, com quem falou, durante quanto tempo, onde foi, formas muitas vezes "mais difíceis de serem reconhecidas como violência doméstica por parte das próprias mulheres" porque não passam necessariamente pelo mau trato físico.

Apesar de estas serem características do fenómeno relativamente comuns a todas as mulheres, Heloísa Perista salientou que "um grande fator de diferenciação das comunidades ciganas e das famílias relativamente às questões da violência doméstica faz-se sentir desde logo na grande importância que a família, enquanto instituição social, ainda tem", estando muito nas mãos das mulheres "garantir que a família é uma família bem vista na comunidade".

Segundo a investigadora, isso faz com que haja mais dificuldade por parte das mulheres ciganas em denunciar situações de violência das quais são vítimas, o que remete também para o facto de existir "um medo muito forte de represálias por parte da família do agressor", e de que a questão ponha umas famílias contra as outras.

Por esse motivo, "o recurso ainda mais utilizado pelas comunidades ciganas para resolver conflitos dentro da comunidade, incluindo casos de violência doméstica, é fazendo apelo, dentro das leis ciganas, aos mais velhos, que têm como função ouvir ambas as partes e encontrar forma de resolução do conflito".

"Em muitos casos [a resolução] passa por aquilo que as mulheres ciganas nos dizem que é o dar um tempo e que significa a mulher, normalmente com filhos, sair de junto do seu marido durante umas semanas ou uns meses, isso é determinado caso a caso, e ir para junto da sua família de origem, esperando que o marido se emende", explicou a investigadora, acrescentando que passado esse tempo é esperado que a mulher volte para junto do marido.

O recurso a serviços de apoio a vítimas ou a denúncia junto de autoridades policiais "é ainda muito residual", apesar de terem encontrado alguns casos de mulheres ciganas que já o tinham feito ou até que já tinham passado por casas de abrigo.

Na relação com a polícia, Heloísa Perista diz terem encontrado casos de "grande descrédito na forma como são atendidas" e na forma como as autoridades encaram os casos de violência doméstica na comunidade cigana, tendo havido alguma desvalorização.

A investigadora revelou que também encontraram "sinais de mudança e de esperança", com "algumas mulheres ciganas, tanto mais velhas como mais novas, a fazer questão de realçar que a questão tem estado a mudar dentro das comunidades" e que "há mais mulheres a serem capazes de reagir fora da sua própria comunidade".

No entanto, mantém-se "um grande obstáculo", que tem a ver com o estigma de ser "uma mulher deixada", ou seja, de haver separação, sendo muitas vezes ostracizadas pela própria família de origem que se recusa a aceitar a filha como uma mulher divorciada.

"Isso é algo que está em mudança, hoje em dia já há muitas famílias que não rejeitam as filhas", destacou Heloísa Perista, segundo a qual "essa é uma mudança que foi identificada".

A coordenadora do estudo apontou como "outro sinal de esperança" o facto de cada vez mais raparigas ciganas prolongarem os estudos e a importância desse facto pelo acesso a mais conhecimento e informação e de como isso as torna mais "apetrechadas em relação à sua capacidade de reação caso venham a viver a uma situação de violência doméstica".

Heloísa Perista defendeu a importância do presente estudo pelo facto de, apesar de com frequência as mulheres ciganas serem identificadas como vítimas particularmente vulneráveis, isso não ser objeto de investigação cientifica.

Um desconhecimento que existe também do ponto de vista dos vários profissionais que intervêm no terreno nestas matérias, sendo também objetivo do projeto criar recursos, instrumentos e metodologias que "permitam dotar os profissionais do conhecimento necessário para darem uma resposta mais efetiva e adequada a situações de violência doméstica contra mulheres ciganas".

Leia Também: Alcabideche. Militar da GNR detido por violência doméstica contra a 'ex'

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