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Pedrógão Grande. Autarca diz que novo incêndio "será pior" do que em 2017

O presidente da junta de freguesia de Vila Facaia, em Pedrógão Grande, avisou hoje que se houver um novo incêndio naquele território do interior Centro "será pior" do que em 2017, devido ao material combustível existente.

Pedrógão Grande. Autarca diz que novo incêndio "será pior" do que em 2017

Numa audição na comissão eventual de inquérito parlamentar à atuação do Estado na atribuição de apoios na sequência dos incêndios de 2017 na zona do Pinhal Interior, na Assembleia da República, em resposta a uma pergunta da deputada Fabíola Cardoso (BE), José Henriques frisou que "todos os pinheiros que caíram" no incêndio ocorrido há três anos "estão lá todos no chão" e se voltar a haver um incêndio são "pólvora".

"Até à data não se fez foi nada, se houver um incêndio vai ser pior do que o outro", argumentou.

Também em resposta a uma questão relacionada com a parte florestal, formulada por Paulo Leitão (PSD), José Henriques reafirmou que as árvores "assim como caíram, lá ficaram".

Por outro lado, lamentou que a "pequena" junta de freguesia a que preside não tenha meios para poder usar material de combate a incêndios que lhe foi oferecido e criticou a forma como estão a ser feitas as faixas de gestão de combustíveis junto às estradas.

"Foi-nos entregue um kit de incêndios [na sequência de uma candidatura da associação de vítimas do incêndio] e o que venho a constar é que foi um presente envenenado. Dão-nos o kit e não temos dinheiro para comprar a viatura para ele, está lá encostado, está lá, novo, no chão, não tenho carro para ele", lamentou.

"E estão-se a fazer agora as faixas de contenção, mal feitas, a 10 metros da estrada e daqui a um mês ou dois está tudo igual. Bom serviço era fazer a faixa e andar uma máquina por detrás a arrancar as raízes", enfatizou o presidente de junta.

O autarca deixou ainda críticas ao facto de a junta de freguesia a que preside ter sido "posta de lado" nos levantamentos de habitações danificadas ou dos prejuízos agrícolas provocados pelas chamas.

"Quando há uma catástrofe desta natureza e as juntas são colocadas de lado, isto é de lamentar", frisou.

"Conhecemos os fregueses, porta a porta, era feito um levantamento caso a caso e conseguiríamos fazer um levantamento mais justo do que o que foi feito, é óbvio que iria correr muito melhor, eu conheço a freguesia de uma ponta à outra, sabemos onde é a casa das pessoas", alegou.

"A junta não foi chamada para nada! Não fomos envolvidos em nenhum processo, ninguém nos dizia nada", reforçou, insistindo que tal sucedeu nos levantamentos feitos por entidades oficiais, mas também nas redes de apoios social e de saúde à população criadas após o incêndio.

Em resposta a diversas questões dos deputados sobre os apoios à reconstrução de habitações ou reposição do potencial produtivo agrícola, José António Henriques assinalou, entre outros aspetos, o caso de casas devolutas "que nunca foram habitadas" e foram reconstruídas, mas também outras, "que ficaram sem telhado ou só com a fachada" que, nos dias de hoje, mais de três anos depois, continuam dentro de aldeias ou na paisagem, destruídas.

Um dos momentos mais tensos da audição ocorreu quando o presidente de junta foi questionado, pelo BE e pela deputada socialista Joana Bento, sobre os donativos em dinheiro que distribuiu à população de Vila Facaia.

José António Henriques explicou que a junta recebeu vários donativos "que iam chegando, ao longo de semanas e meses", provenientes de particulares e empresas e que totalizaram cerca 15 mil euros.

"Era dinheiro que não era nosso", notou o autarca, explicando que a junta criou uma "conta solidária" e decidiu distribuir a verba a quem apresentasse faturas de gastos com obras, repartindo "200 euros por cada" residente na freguesia nessa situação.

"Foi uma ajuda simbólica, uma pequena ajuda a quem estava mais lesado e não tinha sido ressarcido", argumentou.

A deputada Fabíola Cardoso questionou o "papel paralelo" da junta de freguesia na reconstrução das casas e indagou sobre se "estará no plano das juntas voltar a pedir ou a receber" donativos com essa finalidade.

"Acha que alguém dá um donativo após aquilo que se passou? [as alegadas irregularidades nos apoios à reconstrução]", ripostou José Henriques.

A deputada do PS Joana Bento foi mais longe e perguntou "que obras se pagam com 200 euros a três meses de eleições autárquicas", questionando um alegado propósito eleitoralista da distribuição de donativos.

"Duzentos euros foi simbólico, não podia dar mais, porque dando a uns tinha de dar a outros, o dinheiro não era nosso. Duzentos euros é para pagar uns sacos de cimento ou uma palete de blocos, há uma pessoa que comprou os blocos e o barracão está lá no chão, não tem dinheiro para fazer o resto", exemplificou.

"Há pessoas que ficaram sem nada. A gente não imagina o que é ficar sem nada e temos de ajudar, não estamos a viver numa cidade", desabafou.

Ouvido pela Lusa no final da sessão, o presidente da junta manifestou-se agastado com a "insinuação grave" da deputada do PS: "Os donativos foram distribuídos depois das eleições [de outubro de 2017]. Falhou-me [na audição] responder-lhe, mas o que ela disse é grave e tenho de lhe dizer isso", frisou.

Na audição, José Henriques deixou várias críticas ao Governo, lembrando que "no início", após o incêndio que matou 66 pessoas, fez mais de 250 feridos, destruiu 500 casas e queimou 53 mil hectares, "era só promessas".

"Todos os dias eram ministros e secretários de Estado [em Pedrógão Grande]. Passaram três anos e está pior, está tudo abandonado, foi tudo embora de lá. A minha freguesia foi onde morreu mais gente, morreram 30 pessoas e nunca ninguém veio ter comigo a perguntar 'precisa de alguma coisa'? Se não fosse o donativo das pessoas, dos portugueses, o que seria daquela gente", questionou.

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