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"Não queremos tirar o ganha-pão de ninguém, mas tudo é finito"

Numa altura em que são cada vez mais as notícias que dão conta da presença de golfinhos em águas portuguesas, estivemos à conversa com responsáveis pela Sea Shepherd Portugal, uma organização que se dedica à proteção dos mares e oceanos.

"Não queremos tirar o ganha-pão de ninguém, mas tudo é finito"
Notícias ao Minuto

08:30 - 27/07/20 por Andrea Pinto 

País Sea Shepherd

É, possivelmente, para muitos uma organização desconhecida. Conta, contudo, já com várias décadas de história, todas elas marcadas por uma luta incansável por um dos bens mais preciosos do planeta: os oceanos.

A Sea Shepherd Conservation Society (SSCS) foi fundada em 1977 pelo capitão Paul Watson, um dos membros inicias da Greenpeace. O que começou por ser uma pequena organização, tornou-se global e no ano passado acrescentou um novo capítulo à sua história: Portugal passou a integrar a lista de países com os quais colabora.

E numa altura em que são cada vez mais as notícias sobre a presença de golfinhos em águas portuguesas, estivemos à conversa com responsáveis por esta organização. Rita Piçarra Ramos é a porta-voz daqueles que tentam proteger “quem não tem voz”. Em entrevista ao Notícias ao Minuto refere que o principal objetivo desta organização é proteger as espécies em vias de extinção, com ações que podem ir desde a limpeza do mar e dos areais até ao debate sobre o fim de atividades piscatórias, que põem em risco, de forma desnecessária, muitos animais.  

A SSCS identifica também os interesses económicos como o maior inimigo do mar e refere que os governos movidos pela ganância são um dos seus maiores adversários nessa luta. Cientes de que Portugal é um país com uma grande tradição marítima, lembram contudo a falta de civismo dos que deixam os areais sujos, situação que se pode ver em qualquer praia ou areal em território nacional.

Conheça mais sobre a causa desta associação naquela que é a primeira grande entrevista da Sea Shepherd em Portugal.

A Sea Shepherd chegou a Portugal há poucos meses. Para quem ainda não conhece o vosso trabalho, qual é a vossa principal preocupação?

Somos uma organização de conservação marinha, que utiliza tácticas de acção direta para investigar, expor e intervir contra atividades ilegais, proteger habitats e espécies. Apesar do capítulo português ser dos mais recentes, a Sea Shepherd atuou em Portugal pouco depois da sua fundação no final da década de 70. Na altura, o primeiro navio denominado Sea Shepherd abalroou o baleeiro Sierra, (responsável pela morte de mais de 25 mil baleias) no porto de Leixões, causando-lhe graves danos. Atualmente, as nossas atividades incluem limpezas de praia para mitigar o problema do lixo marinho, a investigação dos arrojamentos, com o fim de traçar estratégias de atuação, e o apoio à iniciativa ‘Stop Finning-Stop the Trade’, que pretende levar a discussão ao Parlamento Europeu, esperando conseguir o término do comércio de barbatanas de tubarão no território europeu.  

Num vídeo de apresentação, dizem que são compostos por “pessoas maravilhosas capazes de atitudes excecionais para proteger o mundo animal”. Proteger de quem/do quê e como?

Não nos descreveria como tal, nem creio que nenhum de nós se veja dessa forma. Somos pessoas comuns, voluntários cheios de paixão, e qualquer um se pode juntar a nós. Alguns elementos já demonstraram, de facto, que são capazes de dar a vida por aquilo em que acreditamos. A nossa missão é proteger quem não tem voz, as criaturas marinhas, agindo diretamente nos oceanos através das nossas missões em vários países, protegendo animais em vias de extinção, das mais variadas maneiras, cooperando onde possível com as autoridades locais, como no Golfo da Califórnia tentando salvar a 'vaquita', das quais restam já menos de 20, removendo as redes de pesca que estão colocadas na área protegida onde habitam. Em terra, promovemos a limpeza das orlas costeiras e a consciencialização das comunidades para algo que tem que ser preservado. Temos agido contra a pesca ilegal - a chamada IUU (Illegal, Unreported and Unregulated, ou seja, ilegal, não reportada e não controlada) - contra práticas bárbaras como a captura de alguns cetáceos, quer no Japão (golfinhos para consumo e para os parques aquáticos espalhados pelo mundo), quer nas Ilhas Feróe (baleias-piloto encurraladas e mortas brutalmente) por exemplo, onde tentamos evitar que sejam encurraladas, redireccionando-as para longe do arquipélago. Não chamamos só a atenção sobre as situações, mas usamos a acção directa como táctica.

Os interesses económicos de alguns são de facto o maior inimigo do mar, e não podem sobrepor-se ao direito à vida de todos os seres.

Que interesses movem quem, na vossa opinião, está a agir contra os interesses do mar?

Os interesses económicos de alguns são de facto o maior inimigo do mar, e não podem sobrepor-se ao direito à vida de todos os seres. Não queremos tirar o ganha-pão de ninguém, mas é preciso colocar um travão quer à poluição devido ao consumo de plástico, quer à pesca excessiva e exaustiva. Devemos cuidar do meio-ambiente, como forma de cuidar de todos nós e assegurar o nosso futuro não só como indivíduos mas como espécie.

Qual tem sido o vosso maior obstáculo nesta luta?

Há ainda uma falta de consciência generalizada sobre a forma como encaramos o Oceano e os seres que nele habitam, e a necessidade de manter o equilíbrio do mesmo. Sem querer repetir-me, pratica-se a pesca industrial (e a caça à baleia até há pouco tempo) sem qualquer planeamento, nem consideração sobre o futuro das espécies, até mesmo de espécies que não servem para alimento, mas que acabam por ser apanhadas nas redes, acabando por morrer. Temos também que ter em conta o desaparecimento de habitats, quer pelo desenvolvimento costeiro, quer por exploração petrolífera, como na Grande Baía Australiana, que é uma das nossas operações atuais, e que poderá colocar em risco a reprodução de alguns grandes cetáceos. Temos encontrado muitos obstáculos que nos são postos por governos movidos pela ganância e que mostram pouca preocupação com o futuro do planeta.

E com que apoios contam? Consideram o Governo português um aliado nesta luta?

A Sea Shepherd depende exclusivamente do trabalho dos seus voluntários e de donativos. Temos a sorte de ter várias figuras públicas internacionais que têm sido porta-estandarte do nosso movimento, e que têm feito donativos muito generosos, que permitem a continuação das nossas operações em terra e no mar. Obviamente, qualquer donativo, por pequeno que seja, é muito útil e agradecido. Temos também merchandise à venda, alusivo às diversas operações ou à organização em geral, que vai de t-shirts, a camisolas, canecas, bandeiras, auto-colantes... Por enquanto, é precoce falar de um apoio do Governo português a uma organização como a nossa, mas temos sido muito bem recebidos pelo povo português em geral, que se mostra preocupado e cooperante com a nossa missão.

De que forma é que o Governo pode ter um papel mais interveniente nesta missão?

O mesmo que todos os governos do mundo: legislação e fiscalização mais eficazes a nível da protecção das espécies marinhas, das orlas costeiras e da forma como se pesca, assim como promover a redução da utilização de plástico, especialmente itens de utilização única, dando também atenção para a forma como são eliminados e descartados.

Com a pandemia, assistimos, por um lado, ao reaparecer de alguns animais marinhos que andavam mais tímidos, bem como à suspensão de algumas atividades de caça e pesca, mas já começámos a assistir aos efeitos assustadores da poluição através de máscaras e luvas, que já é bastante visível em rios e oceanosDefinir quotas de pesca é o princípio de uma solução ou muito pouco para aquilo que o oceano precisa?

Qualquer medida que se possa tomar nesse sentido, constitui uma ajuda e, quem sabe, o início de uma maior consciencialização para o problema maior. Da forma como estão as coisas, sabe-se que o futuro dos Oceanos e dos seus habitantes está seriamente ameaçado nas próximas décadas. Com a pandemia, assistimos, por um lado, ao reaparecer de alguns animais marinhos que andavam mais tímidos, bem como à suspensão de algumas atividades de caça e pesca, mas já começámos a assistir aos efeitos assustadores da poluição através de máscaras e luvas, que já é bastante visível em rios e oceanos. O facto de a nossa frota ter ficado parada durante meses, devido à quarentena, levou a que houvesse um aumento da pesca ilegal. No entanto, estamos a voltar à atividade, e contamos com todos os que nos apoiam para ajudar a manter os nossos navios na água e as nossas operações a funcionar.

Por que é que dizem que “o poder do dinheiro e do consumo está a destruir o oceano”?

Há uma ideia vigente, talvez desatualizada, que temos que alimentar a crescente população mundial a qualquer preço. A política é maioritariamente controlada pelas grandes empresas, que são logicamente movidas pelo lucro e exploram os recursos naturais além dos seus limites sustentáveis, o que consequentemente traz enormes prejuízos para o ambiente e populações. A pesca excessiva e intensiva contribui imenso para dizimar a grande maioria dos animais marinhos e desequilibrar o ecossistema, levando de arrasto animais que nem sequer servem para consumo. Dou o exemplo da 'vaquita', que já referi anteriormente, um mamífero em vias de extinção devido à captura de outro animal, o peixe totoaba. Este animal, também raro, é capturado para dele ser extraída a sua bexiga, que é vendida para ser consumida no mercado asiático. Capturando uns, matamos os outros, que ficam presos nas mesmas redes, e são depois descartados.

Não pretendemos tirar o ganha-pão de ninguém, apenas fazer as pessoas entenderem que tudo é finito, os mares não vão providenciar alimento para sempre, e especialmente nestas condições em que assistimos à destruição sistemática de ecossistemas e à chacina de animais.

Portugal é um país com grande ligação ao mar. De que forma é que estamos a contribuir para esta tragédia? 

Temos uma enorme orla costeira, e basta visitar qualquer praia ou areal para nos apercebermos da falta de civismo e de limpeza de que os portugueses também são culpados. Recentemente já começamos a ver pessoas que têm algum cuidado com o seu lixo e as suas beatas, mas arrisco a dizer que precisamos de alertar o público em geral sobre o facto de que não é aceitável descartar o nosso lixo de qualquer maneira. Temos que entender que a raiz do problema é também a sobrepesca, causada pelo consumo e desperdício exagerados em nossas casas, e alterar a nossa forma de agir, para que possamos continuar com a nossa tradição e não exaurir os nossos recursos. Todos deveríamos reduzir o nosso consumo de animais, neste caso peixe, mariscos e moluscos, também para desencorajar a captura intensa dos mesmos. Refiro mais uma vez, não pretendemos tirar o ganha-pão de ninguém, apenas fazer as pessoas entenderem que tudo é finito, os mares não vão providenciar alimento para sempre, e especialmente nestas condições em que assistimos à destruição sistemática de ecossistemas e à chacina de animais.

E como é que se pode mudar a mentalidade de um povo que vive do mar? Ou seja, como é que se consegue que uma pessoa que sobrevive desta atividade [da pesca] abdique disso?

Exatamente como referi no ponto anterior, quem vive da atividade piscatória tem que entender que tem que mudar a forma de pescar, tem que o fazer de forma mais consciente, mais responsável e mais limpa. Infelizmente, temos conhecimento de várias práticas a bordo dos navios que contribuem muito quer para a poluição, quer para o desaparecimento das espécies. Sabemos que as mentalidades não se mudam facilmente, mas é necessária essa mudança, para que no futuro possa continuar também a existir a possibilidade de pescar. Temos todos de entender que é necessário haver um equilíbrio, mesmo que para isso, tenhamos que reduzir a pesca e o consumo. Nós visamos a protecção do oceanos, mas consequentemente a protecção das pessoas e dos próprios pescadores.

Em alguns dos vossos vídeos de apresentação, referem que a situação dos oceanos está a ser prejudicada, também, por governos corruptos. É também uma situação a que se assiste em Portugal?

Somos uma organização ainda a dar os primeiros passos, a reunir voluntários, a recolher informações, e a tentar perceber de que forma podemos ser úteis, no contexto do país em que nos encontramos. Não devemos nem queremos fazer esse tipo de acusações, nem as consideramos produtivas. O nosso objetivo é mundial, apesar de querermos agir localmente, e esse é para já o nosso ponto de partida. Havendo ou não corrupção em Portugal, pois não somos diferentes do resto do mundo, primeiro investigaremos, antes de fazer acusações.

E os governos, o que ganham?

Qualquer governo quer o apoio e os votos do eleitorado para se manter no poder, e controlar os recursos da forma que melhor lhes convier. Os governos corruptos ganham um bilhete de permanência no poder e o acesso garantido aos recursos públicos para favorecer interesses privados.

Nos últimos tempos muitas têm sido as notícias sobre os animais – como golfinhos ou tartarugas - avistados em Portugal. Em que casos podemos ficar contentes com a situação e quais as situações que nos devem preocupar?

É uma alegria poder ver os animais no seu meio-ambiente, em liberdade, onde pertencem. É aí que os devemos ver, e não em parques aquáticos, ou zoos, porque foram capturados para esse fim. Uma das situações que neste momento nos preocupa é o arrojamento diário de golfinhos mortos nas nossas praias (e de outros animais como tartarugas). Alguns apresentam mutilações para as quais não temos ainda explicação para além de indicarem interacções com redes de pesca. Esperamos que isto não espelhe o que se passa em França, onde anualmente se estima que dêem à costa uma média de seis mil golfinhos mortos e a falta de fiscalização por parte do governo é o maior culpado nesta situação. A Operação Bycatch da Sea Shepherd tem-se focado nesta situação.

Para quem não conhece o termo, mas sendo cada vez mais uma realidade em Portugal, o que são os arrojamentos? E como devem ser denunciados?

Os arrojamentos são encalhes de animais marinhos encontrados na costa. Na sua maioria já mortos, mas por vezes também de animais que estão em dificuldades. Os golfinhos têm sido os animais que mais são encontrados em praias por todo o país, apresentando muitas vezes evidencias externas de interacção com a indústria pesqueira, como marcas de ferimentos causados por redes de pesca, partes do corpo mutiladas e até pedaços de rede e linhas de pesca presas/enroladas aos seus corpos. Sabemos, no entanto, que o número de mortes destes animais, é bem superior à quantidade que vem dar à costa, pois estima-se que apenas 8-10% chegue a arrojar. Muitos deles acabam por afundar ou ser predados por outros animais, nunca chegando aos olhos da população em geral..A dura e chocante realidade que estes animais enfrentam em alto mar é causada precisamente pela falta de regulamentação e fiscalização da atividade piscatória.De que forma devemos agir perante estas situações?

Qualquer pessoa que encontre um animal nestas condições morto ou vivo, mas em dificuldade, deve alertar as autoridades competentes, nomeadamente a Polícia Marítima e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). No caso do animal ainda estar vivo, deve contactar o Centro de Reabilitação de Animais Marinhos. Criámos um espaço no nosso website que permite ao público em geral ter acesso às informações sobre os arrojamentos, nomeadamente quanto aos seus registos, uma vez que os orgãos responsáveis se recusam a fazê-lo, até à data. Cremos que a dura e chocante realidade que estes animais enfrentam em alto mar é causada precisamente pela falta de regulamentação e fiscalização da actividade piscatória. Podem, ainda, registar fotos/vídeos, o local, a data e o estado em que o animal foi encontrado e transmitir estes dados e informações para a Sea Shepherd Portugal, através do nosso email: [email protected]

Os oceanos cobrem três quartos da superfície da Terra e mesmo assim estão em risco de desaparecer. Que apelo ou desafio gostariam de fazer para quem lê esta entrevista e quer ajudar nesta missão?

A Sea Shepherd está de portas abertas a qualquer um que se queira juntar a nós quer nos nossos barcos quer em terra. Seja como voluntário ativo de qualquer área profissional, fazendo um donativo ou comprando o nosso merchandise, seja seguindo as nossas redes sociais e partilhando os nossos conteúdos e missões, qualquer um já poderá fazer uma enorme diferença. Mesmo não podendo contribuir financeiramente ou mesmo sem ter tempo para ajudar, todos podemos fazer um esforço para reduzir o consumo de produtos de origem animal, principalmente animais marinhos e evitar o uso de materiais como o plástico. Educar os nossos filhos com este tipo de práticas também é ajudar a planear o futuro. Ajudem-nos a salvar os Oceanos, e o nosso Planeta, bem como todos os seres que nele habitam e nos quais nos incluímos.

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