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Golfinhos na Praia de Mira. "Não se deve deixá-los a rebolar à beira-mar"

A coordenadora científica da Sea Shepherd Portugal detaca que, pese embora seja de louvar a pronta ação dos pescadores e dos veraneantes para salvar os golfinhos, há erros que foram cometidos e que podem comprometer a sobrevivência dos mamíferos.

Golfinhos na Praia de Mira. "Não se deve deixá-los a rebolar à beira-mar"

Uma dezena de golfinhos foram capturados acidentalmente por duas embarcações de Arte Xávega, na Praia de Mira, na passada quarta-feira. Esta não é, porém, uma situação inédita. Quais as implicações desta atividade para espécie? Os pescadores agiram corretamente ao tentar salvar os golfinhos? 

Estas foram algumas das questões que deram o mote à entrevista de Sofia Esteves da Silva, coordenadora científica da Sea Shepherd Portugal - que integra a Sea Shepherd Global, uma organização de conservação marinha -, ao Notícias ao Minuto

De acordo com a especialista, pese embora a boa vontade pescadores e veraneantes seja "sempre louvável", uma "das coisas que não se deve fazer ao devolver estes animais ao seu habitat é deixá-los a rebolar na rebentação, à beira-mar". 

Outras práticas como puxar os golfinhos "pela barbatana caudal e arrastá-los ao longo do areal" ou "atirá-los para a beira-mar recorrendo a uma retroescavadora" não são igualmente procedimentos recomendáveis. 

Com efeito, torna-se imperioso, como advoga a coordenadora científica da Sea Shepherd Portugal, "disponibilizar mais informação e formação adequada, nomeadamente para os profissionais desta área".

Uma dezena de golfinhos ficaram na quarta-feira presos nas redes de Arte Xávega da Praia de Mira. Esta é uma situação relativamente frequente em Portugal?

A captura de golfinhos neste tipo de arte acontece pontualmente, mas quando acontece pode envolver números dramáticos. Além disso, sendo uma arte de pesca muito sazonal – só ocorre em dias em que as condições de mar o permitam, há, portanto, alturas do ano com mais esforço de pesca do que outras.

O facto de serem utilizados sensores pelos pescadores ajuda a reduzir a possibilidade deste tipo de captura acidental?

Sim, os 'pingers' podem contribuir para a diminuição de capturas acidentais em algumas pescarias. Apesar de em Portugal ser um assunto por vezes abordado quase como novidade, a utilização destes dispositivos acústicos de dissuasão é inclusive obrigatória por lei, segundo a portaria de 2017. Desconheço, no entanto, se nesta situação estavam a ser usados, assim como desconheço o nível de monitorização atual face à sua utilização.

Ainda assim, é de salientar que o melhor método de mitigação destas situações passa pela correta formação, sensibilização e inclusão dos pescadores em todo o processo de implementação deste tipo de medidas.

A situação poderia ter sido evitada se, ao invés de se dar continuação à alagem das redes, o processo tivesse sido interrompido logo que a presença dos animais tivesse sido detetada

A intervenção dos pescadores e dos populares permitiu salvar a maioria dos golfinhos, mas um deles morreu. Esta foi uma intervenção adequada?

A boa vontade de ajudar é sempre louvável. No entanto, é necessário saber o que se está a fazer para que os resultados também possam ser os melhores possíveis. Não tendo estado no local, o que posso comentar baseia-se apenas em dois vídeos que vi.

Em primeiro lugar é preciso dizer que a situação poderia ter sido evitada se, ao invés de se dar continuação à alagem das redes, o processo tivesse sido interrompido logo que a presença dos animais tivesse sido detetada.

Uma das coisas que não se deve fazer ao devolver estes animais ao seu habitat é deixá-los a rebolar na rebentação, à beira-mar. 

Os golfinhos são mamíferos e respiram ar como nós. A zona por onde respiram não deve estar tapada ou submersa enquanto o animal não tem controlo da sua movimentação

Por que motivo? 

Os golfinhos são mamíferos e respiram ar como nós. A zona por onde respiram (espiráculo - orifício em cima da cabeça) não deve estar tapada ou submersa enquanto o animal não tem controlo da sua movimentação, pois pode não conseguir respirar. Ao contrário de nós, humanos, a respiração dos golfinhos é voluntária, ou seja, a sua respiração é controlada de forma consciente, a todo o momento. No nosso caso não, e podemos dizer que “respirar” é uma tarefa que não precisamos de colocar na nossa 'to do list'.

Outro dos motivos pelo qual não devem ser deixados à mercê da rebentação deve-se à sua vulnerabilidade e sensibilidade. Não basta a sua pele ser muito fina e sensível, estes animais também têm de lidar com o seu peso fora de água. Basta pensar como nos sentimos quando estamos no mar…muito mais leves, não é verdade? Até conseguimos flutuar se quisermos, graças às propriedades da água do mar.

Estes animais não estão simplesmente adaptados a ter de suportar o seu peso ou a movimentar-se fora de água sem que sofram graves danos internos e/ou externos. Quanto mais tempo estiverem nestas condições, maior a compressão sob a sua zona torácica, maior a dificuldade respiratória (para não mencionar terem também de lutar por respirar entre ondas que os fazem rebolar de um lado para o outro) e maior o impacto sobre os seus órgãos internos, que começam a sofrer também com a consequente redução do fluxo sanguíneo e constante pressão do peso do animal contra o chão.

Assim penso, que também fique claro que não é de todo adequado puxar estes animais pela barbatana caudal e arrastá-los ao longo do areal. Ou atirá-los para a beira-mar recorrendo a uma retroescavadora.

É mais do que provável que acabem por morrer mais golfinhos durante os dias seguintes

Essa situação já aconteceu por cá?

Em 2016, ocorreu uma situação similar a esta, mas com cerca de 100 animais capturados. Desses, 17 morreram no mesmo dia. Nos dias seguintes acabaram por dar à costa mais 60 já mortos.

Nesta situação, tendo em conta o stress a que os animais foram sujeitos e a forma como foram devolvidos ao mar, é mais do que provável que acabem por morrer mais golfinhos durante os dias seguintes.

Acredito que as intenções foram as melhores e as pessoas envolvidas atuaram da melhor forma que souberam, mas para podermos ajudar precisamos de saber como o fazer. Nesse sentido é urgente disponibilizar mais informação e formação adequada, nomeadamente para os profissionais desta área.

E que indicações podem ser dadas a estes profissionais para evitar situações semelhantes?

Evitar capturas acidentais sem colocar em causa a pesca, não é fácil e tudo o que possa ser proposto, passa sempre pelos pescadores. Daí ser importante a existência de uma maior inclusão dos mesmos em todo o processo, desde o nível formativo até à implementação de ações de gestão propriamente ditas. De uma forma geral, importa também dizer que não existem medidas globais – que apresentem o mesmo nível de eficácia em diferentes regiões do mundo, sendo essa uma variabilidade normal e expectável, estando relacionada com a heterogeneidade das artes de pesca.

No que diz respeito à Arte Xávega, existem algumas medidas preventivas que podem ajudar a evitar este tipo de situações. Para além da utilização dos sistemas de dissuasão acústicos já mencionados, evitar lançar a rede sempre que se detete a presença/passagem de cetáceos, ou sempre que os mesmos tenham sido avistados recentemente na zona, são algumas das medidas preventivas e operacionais que podem ser tomadas para evitar situações semelhantes.

A Arte Xávega representa um risco para os animais desta espécie?

Esta arte tem associada a si um elevado número de capturas acidentais, bem como uma taxa de mortalidade que ronda os 90%.

A espécie capturada nesta situação – o golfinho-comum (Delphinus delphis) - é a espécie com maior taxa de captura (geral) e mortalidade em Portugal, mas outras espécies como o golfinho-roaz (Tursiops truncatus), o bôto (Phocoena phocoena), a tartaruga-comum (Caretta caretta) e a tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea), fazem também parte das capturas acessórias desta arte.

Como também já foi mencionado em alguns pareceres científicos, esta é também considerada uma arte responsável pela elevada mortalidade do bôto, espécie que se prevê extinta da costa portuguesa durante os próximos 20 anos.

No entanto, no nosso país, a informação relativa à avaliação dos níveis de captura acidental, bem como à monitorização destas interações e estado das populações, é ainda limitante e escassa, dificultando muito o conhecimento e implementação de estratégias de gestão e conservação adequadas.

*A  base da resposta a estas questões por parte da coordenadora científica da Sea Shepherd Portugal contou com pareceres científicos de investigadores da área das pescas e interação de pescas na costa portuguesa e espécies marinhas protegidas.

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