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"Ou sobreviveríamos juntas ou morreríamos juntas"

Beatriz Schmidt teve cancro durante a gravidez e, apesar de inicialmente lhe terem proposto o aborto, não desistiu da sua menina. Louise salvou a vida de Bea "e eu salvei a dela". Esta terça-feira, Bea fez a segunda cirurgia neste processo, removendo preventivamente a outra mama.

"Ou sobreviveríamos juntas ou morreríamos juntas"
Notícias ao Minuto

09:30 - 26/09/18 por Filipa Matias Pereira 

País Cancro na gravidez

Com 33 anos, Beatriz Schmidt, Bia como é carinhosamente apelidada pelos amigos, já teve (muitos) dias perfeitos. Primeiro, com o nascimento de Matheus, que agora tem 11 anos, depois com o momento em que teve o pequeno Daniel nos braços pela primeira vez.

E eis que chega o dia em que Louise vem ao mundo, depois de, durante 39 semanas, ter vivido ‘abraçada’ pelo útero da mãe – o seu escudo protetor. Mas o dia 24 de janeiro, o dia em que a pequena nasceu, foi muito mais do que um dia perfeito; simbolizou vitória. O início de uma vitória contra o cancro. Esta é a história de Bia que, com nove semanas de gestação, descobriu um tumor maligno na mama. E esta é também uma história de superação; de uma mãe que não aceitou a hipótese que lhe era colocada em cima da mesa: a interrupção da gravidez. Bia sonhava com a menina que trazia no ventre e não deixou que ninguém destruísse esse sonho. Nem o cancro.

Vive do outro lado do Atlântico, no sul do Brasil. Tinha 31 anos, dois filhos e um marido quando começou a escrever este capítulo da sua história. Pela frente sabia que estavam páginas em branco. Restava-lhe uma certeza: a de querer preenchê-las com memórias que, mais tarde, a fizessem sorrir. Não queria que a tristeza fosse o denominador comum deste período da sua vida. Escolheu, por isso, continuar a ser feliz.

Depois de se casarem, há cerca de quatro anos, Bia e Jonathan planearam uma gravidez. Acalentavam o sonho de ter um filho de ambos e de verem crescer a família. Daniel, que agora tem dois anos, foi a concretização desse anseio. Passados sete meses, Bia descobriu que estava grávida novamente. Primeiro, o susto. Depois, a alegria. “Não foi uma gravidez planeada, mas ficámos muito felizes”, confessa em entrevista ao Notícias ao Minuto. Apesar de já ter dois meninos, Bia “queria muito uma menina”. “Vi ali a minha possibilidade”, recorda com uma emoção difícil de esconder, acrescentando ainda que o casal vê os filhos como “uma bênção, presentes de Deus. Fiquei um pouco assustada no início, com medo de desenvolver uma gravidez ainda com um bebé pequeno, mas depois encarei a novidade com alegria”.

E num dia que tinha tudo para ser igual a tantos outros, Daniel desmamou. Não queria mais o leite da mãe. Bia acredita que em causa poderão ter estado “as hormonas da gravidez” que “certamente terão influência no leite”. Tornava-se, por isso, imperioso adotar medidas preventivas para evitar uma mastite. Saliente-se que esta é uma inflamação da mama que pode ser acompanhada por infeção. Apesar de na maioria dos casos este cenário acontecer nas primeiras seis semanas após o parto, pode também ocorrer durante o período de aleitamento e uma das causas é o esvaziamento insuficiente do leite.

Notícias ao MinutoBia lutou contra um cancro da mama © Estúdio Photografare

Na altura, o calendário da gestação marcava nove semanas, cerca de dois meses, portanto. Beatriz começou então por fazer massagens nos seios e eis que encontrou “uma pequena bolinha na mama direita”. Jonathan estava presente, como, aliás, sempre esteve em todo o percurso e aconselhou a mulher a enviar uma mensagem ao obstetra que tinha feito o parto de Daniel e era também o responsável pelo acompanhamento pré-natal de Louise. O médico tinha conhecimento, inclusive, do historial familiar da sua paciente, sobretudo em relação à avó de Bia, que perdeu a vida aos 39 anos na sequência de um cancro de mama.

Com receio de que o cenário de um diagnóstico de cancro se voltasse a repetir na mesma família, o especialista recomendou a Beatriz que realizasse, de imediato, uma ecografia mamária. No dia seguinte, com ‘o coração nas mãos’ e com o pensamento na menina que tanto desejara, fez o exame complementar de diagnóstico e o sonho, por momentos, desmoronou-se. Numa simples folha de papel, alguém vaticinara os seus próximos meses. Teria de lutar contra um cancro de mama no momento em que vivia uma das fases mais felizes da sua vida. Tinha dois filhos e esperava uma menina; a sua Louise. De um lado, o medo, o pavor. Do outro, a felicidade que trazia no ventre. Como poderiam dois mundos tão distintos coexistir na mesma equação? Não sabia responder. Tinha cancro, classificado como BI-RADS (Breast Image Reporting and Data System) 4C. Mais do que um acrónimo, este cenário significava que tinha uma lesão com elevada suspeita de malignidade, com rácios que variam entre 51 a 95%. Bia sabia apenas que escolheria a vida: a de Louise.

Teria de abortar se quisesse viver. Não iria sobreviver com uma gestação a alimentar o meu tumorPor indicação do seu obstetra, procurou um mastologista – um especialista em glândulas mamárias – que lhe explicou que o tumor que lhe havia sido diagnosticado era hormonal, isto é, que tinha um cancro que “era alimentado pelas hormonas da gravidez”. Mas o médico disse-lhe mais; disse-lhe as palavras que não queria ouvir: “Teria de abortar se quisesse viver. Não iria sobreviver com uma gestação a alimentar o meu tumor”. Estas são palavras que Bia jamais esquecerá; ficarão timbradas na sua memória. Mas aquela não era a história que queria escrever nas tais folhas em branco. O amor que nutria pela sua menina era já grande demais.

Não conformada com a solução apresentada pelo mastologista, procurou de novo o obstetra que a apoiou na decisão de não abortar. “Não ia desistir da Louise. Não ia salvar a minha vida e matar a dela. Sobreviveríamos juntas ou morreríamos juntas, mas não nos separaríamos porque eu não tinha nenhum direito a mais de viver do que ela. Eu ia lutar pelas nossas vidas, pela minha e pela dela”, recorda.

Recorreu então a outro mastologista que, depois de realizada a biópsia que confirmava o carcinoma ductal infiltrativo, lhe prescreveu um tratamento em que pudesse manter a gravidez. Completado o primeiro trimestre da gestação, Bia foi submetida a uma mastectomia da mama direita. Com recurso a uma anestesia geral, a equipa cirúrgica removeu o seio onde estava localizado o tumor. “Foi uma cirurgia rápida”, relembra. E um mês depois, feita a cicatrização, começou então o processo de quimioterapia. Beatriz fez inicialmente quatro sessões do que apelida de “quimioterapia vermelha”. A cor do fármaco está relacionada com o tipo de substância utilizada que, neste caso, tem uma coloração avermelhada.

A cada novo tratamento, Bia ia buscar forças à filha. “Enquanto ia fazer quimio, planeava o ‘chá de bebé’, ou então concentrava-me em preparar o enxoval dela. Tinha algo mais para me focar que não na doença. Tive momentos difíceis”, confessa, “mas na maioria eu estava feliz”.

Tive muita sorte porque tinha morte dentro de mim, mas também tinha vida. E tinha muito mais vida do que morteNo seu entendimento, “o facto de ter tido cancro durante a gravidez” foi o que lhe “deu força” para continuar. “Tive muita sorte porque tinha morte dentro de mim, mas também tinha vida. E tinha muito mais vida do que morte. Ninguém escolhe passar por um cancro, mas todas as pessoas podem escolher como passar por ele. Eu escolhi passar por ele sendo feliz. Eu tive cancro, mas o cancro nunca me teve”.

Durante este percurso, enquanto via a sua barriga crescer, Bia via também o cabelo cair – “um dos aspetos mais difíceis para uma mulher”. No dia em que rapou os longos cabelos, decidiu gravar um vídeo para que Louise um dia tenha oportunidade de ver “o quanto me ajudou a ultrapassar a doença”. Numa tarde chuvosa, Beatriz começou por rapar o cabelo ao marido – um gesto de amor que jamais esquecerá. Logo depois, cortaram as suas mechas loiras e viu, aos poucos, o cabelo espalhar-se pelo chão. Não se importou, sabia que voltaria a crescer.

E eis que no dia 24 de janeiro de 2018, a pequena Louise decidiu nascer. Apesar de os médicos aconselharem uma cesariana, Bia optou por um parto normal, já que os anteriores tinham sido também por via vaginal. Às 3h40 da madrugada, com 3.790 kg, Louise chorou pela primeira vez e mostrou como se ‘finta’ o cancro. “Foi o momento mais lindo do mundo”, recorda a mãe. Mas não foi só a doença que Louise desafiou, foi também a ciência, já que os médicos não conseguiam prever como se iria desenvolver. Apesar de, durante a realização da quimioterapia, o feto ser salvaguardado pela placenta, os especialistas não faziam ideia se “ela seria magra ou prematura. Mas sempre acreditei que iamos vencer juntas”.

Notícias ao MinutoLouise nasceu no dia 24 de janeiro de 2018© Estúdio Photografare

Apesar de só ter o seio esquerdo, Bia pôde amamentar durante 25 dias, novamente contra as indicações médicas. “Não queriam que eu amamentasse, mas falei com a pediatra e procurei evidências científicas que indicavam que, ao fim de dois meses, o meu corpo estava livre da quimio”. Os médicos acabaram por consentir, mas pouco depois a amamentação teve de ser interrompida para que se desse início a um novo ciclo de tratamentos. Desta vez, “fiz 12 sessões de quimioterapia branca e terminei no dia 2 de julho”. Agora, Beatriz faz hormonoterapia, através da ingestão de comprimidos – um tratamento que poderá durar cerca de 10 anos e que visa impedir o estímulo das hormonas nos casos de tumores cujo crescimento é estimulado por estas.

Com três filhos, dois deles bebés, e a fazer quimioterapia, Bia precisou da ajuda “preciosa” da mãe. “Ela é a minha base. Largou a vida dela e foi cuidar da minha. A minha mãe vive só para me ajudar. Graças a Deus que a tenho na minha vida”. Igualmente importante neste processo foi o marido. Jonathan “esteve presente no momento do diagnóstico, na cirurgia e em todas as quimioterapias. Esteve sempre do meu lado”, refere, explicando ainda que cerca de 90% dos parceiros abandonam as mulheres durante o tratamento de cancro.

Notícias ao MinutoBia, Jonathan e Louise© Estúdio Photografare

Esta terça-feira, 25 de setembro, Bia encerrou mais um ciclo neste capítulo. Foi submetida a uma cirurgia de remoção preventiva da mama direita e reconstrução de ambas. Depois de realizados os exames necessários, confirmou-se que a mãe de Louise tem uma mutação genética, “a mesma que Angelina Jolie”, que “me dá predisposição para ter cancro de mama e de ovário”.

Bia descobriu o cancro numa fase inicial, em que a taxa de sobrevida é bastante elevada. E “descobri no início porque estava grávida. E é por isso que eu digo que ela salvou a minha vida e eu salvei a dela”. Com oito meses, Louise é uma bebé saudável e “super inteligente”, o que faz de Bia uma “mãe babada e feliz”.

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