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O chocante caso da família Turpin. Da aparência feliz à Casa dos Horrores

O caso que se está a popularizar como a 'Casa dos Horrores' tem ainda muito por explicar e esclarecer. Dúvidas sobre o porquê continuam no ar, bem como sobre como se adaptarão os 13 filhos do casal a um novo mundo.

O chocante caso da família Turpin. Da aparência feliz à Casa dos Horrores
Notícias ao Minuto

08:05 - 20/01/18 por Andrea Pinto 

Mundo EUA

Eram o retrato de uma família numerosa, mas feliz. Assim parecia, pelo menos através das imagens que a família partilhava no Facebook, e onde constavam visitas à Disneyland e a Los Angeles. No entanto, havia uma série de outros comportamentos que denunciavam algo de estranho dentro da casa da família Turpin. 

David Allen Turpin, de 57 anos, e Louise Anna Turpin, de 49, mantinham os filhos na ordem sob regras restritas. As crianças estavam proibidas de ver televisão, não podiam fazer amigos, nem sair sem a companhia dos pais. Relatos piores dão conta de que passariam fome, só podiam tomar dois banhos por ano e seriam acorrentados às próprias camas.

Vizinhos e família denunciam agora alguns comportamentos estranhos aos quais outrora viraram as costas, sendo também eles cúmplices dos abusos presenciados.

Como se explica o comportamento destes pais? 

Os dados sobre David e Louise são ainda insuficientes para tentar perceber o que terá estado na origem do seu comportamento.

Sabe-se que David foi engenheiro e recebia um salário capaz de suportar toda a família. Turpin trabalhou como engenheiro na Lockheed Martin até 2010, tendo-se juntado depois à Northrop Grumman, uma empresa no setor da aeronáutica e da defesa. Nesse mesmo ano, a família declarou insolvência e apresentou uma dívida superior a 240 mil dólares.

David criou, entretanto, uma escola, registada na morada da casa onde vivia, e onde daria aulas aos 13 filhos. Louise esteve sempre registada na segurança social como dona de casa.

Notícias ao MinutoA casa onde a família Turpin vivia e que é hoje conhecida como a 'Casa dos Horrores'© Reuters

O ponto de partida para os abusos continua ainda sem explicação, muitas são as teorias que nos chegam de fora, mas nenhuma delas é ainda passível de confirmar.

Ao The Independent, por exemplo, o psicólogo forense David Canter apresenta duas possibilidades. A primeira é a de que estes pais queriam manter os filhos longe das autoridades por motivos religiosos ou ideológicos, referindo-se à possível participação num culto, o que explicaria por exemplo o porquê de os filhos se vestirem sempre de igual. A segunda hipótese é a de que os pais, sem emprego, terão entrado numa fase descendente em que recearam não ter condições para dar uma vida de qualidade aos filhos e optaram por sujeitá-los a estas condições.

Já a psicóloga clínica e forense Rute Agulhas começa por lembrar que os dados sobre caso são muito escassos para poder de facto avaliar o que terá passado na cabeça destes pais.

Há, claramente, problemas de saúde mental, agora o resto será especular. Pode ter a ver também com crenças religiosas, distorcidas e irracionais claro. Há pessoas que têm distorções cognitivas muito severas, cortam com a realidade. Pode haver ideação paranóide, por exemplo, psicose, vozes de comando às quais obedecem (alunicações). Mas a mesma perturbação no casal é difícil

Para Rute Agulhas, uma coisa é certa: “o sistema falhou, quer a rede informal quer a formal”, diz referindo-se ao facto de os vizinhos não terem denunciado os comportamentos que achavam estranhos e ao facto de as entidades de saúde e educacionais nunca terem procurado saber em que condições vivia esta família.

Vinte e nove anos de tortura. Porquê denunciar só agora?

Outra das questões que fica por esclarecer é o porquê de as crianças terem demorado tanto tempo a denunciar os pais.

O psiquiatra Bruce Perry, da Academia Child Trauma, afirma ao The Independent que é mais fácil as pessoas “paralisarem e sentirem-se confusas e inseguras” quando têm a oportunidade de denunciar um abuso, do que o contrário.

Para este especialista, é provável que tenha havido “outras oportunidades anteriores para os jovens fugirem ao sofrimento em que viviam”, mas que terá faltado a coragem para tal.

“É muito frequente as crianças ou jovens vítimas de maus tratos manterem segredo, por medo, mas muitas vezes também por sentimentos de lealdade para com os agressores, com quem também mantêm uma relação afetiva. Neste caso, poderá também observar-se a Síndrome de Estocolmo [estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a a nutrir empatia e até mesmo sentimento de amor ou de amizade perante o seu agressor], refere Rute Agulhas ao Notícias ao Minuto.

Nesse caso, o que terá levado a jovem de 17 anos a ganhar coragem para fugir de casa e denunciar os pais, mesmo apesar de ter admitido que receou que os pais a matassem caso descobrissem? Para a professora do ISCTE, esta “jovem terá outros recursos de personalidade que a ajudaram a ultrapassar esse medo. Maior resiliência, eventualmente também como uma forma de se proteger a si mas também aos seus irmãos.”.

E agora, como reagirão a um novo mundo?

Após o resgate, os 13 irmãos foram divididos, estando os sete adultos no Corona Regional Medical Center, e os seis menores numa instituição separada. O médico que os acompanha, Mark Uffer, refere que em 45 anos de serviço nunca assistiu a um caso assim. “É uma experiência alarmante para todos nós, quando se vê uma pessoa de 29 anos que parece ter 12, 13 ou 14 anos”, partilha. Embora admita que estes estão a evoluir favoravelmente, fica por saber como reagirão os irmãos ao novo mundo que vão encontrar. Serão capazes de se adaptar?

Rute Agulhas indica que além de precisarem de acompanhamento especializado para a “recuperação das sequelas”, será necessário também um acompanhamento “psicológico e/ou psiquiátrico”. Uma situação de cativeiro, explica-nos, “enquadra-se naquilo a que a literatura chama de acontecimento traumático, com maior impacto negativo quando tem elevada duração no tempo e ocorre associado a outras situações maltratantes (como parece ser o caso)”. Adicionalmente, o facto de a tortura ter sido cometida pelos próprios pais, “pode potenciar o impacto negativo e também sentimentos de revolta, zanga, ou mesmo desejo de vingança”.

Notícias ao MinutoImagens como estas eram publicadas no Facebook do casal, transmitindo a ideia de que eram uma família feliz© Reprodução

A situação será mais grave no caso dos adultos que “têm ainda de ser ajudados no processo de socialização e interação com os outros, para que aprendam a viver em comunidade”. Este processo pode “durar anos”. A relação com os outros também poderá ser afetada pelo passado, dependendo da forma “como irão conseguir, ou não, elaborar estas vivências”.

“Os pais devem cumprir duas importantes funções: uma função interna, de satisfação dos vários tipos de necessidades (desde as físico-biológicas, até às de natureza mais afetiva), e uma função externa, de socialização e ajudar a explorar o mundo envolvente”, diz-nos Rute, que é também perita no Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, lembrando que, neste caso, nem David nem Louise conseguiram cumprir essas funções.

“Estas vivências terão naturalmente impacto na forma como irão relacionar-se com as outras pessoas, o que se relaciona também com o tipo de relação de vinculação que desenvolveram. Crianças vítimas de maus tratos severos e negligência severa apresentam menor probabilidade de desenvolverem uma relação de vinculação segura, o que se traduz em maior desconfiança face aos outros, dificuldade em estabelecer relações de intimidade e proximidade afetiva”, conclui.

Culpados ou inocentes?

David e Louise Anna Turpin foram, esta sexta-feira, apresentados perante um juiz, vestidos de negro e algemados, de acordo com um assistente do processo. Estão acusados de tortura, sequestro, maus-tratos, atos obscenos e negligência, mas ainda poderão ser acusados de outros crimes, e não deram explicações para a situação dos filhos.

Notícias ao MinutoCasal diz-se inocente das acusações de que são alvo© Reuters

Se todas as acusações contra eles forem provadas, o casal poderá ser condenado a uma pena de prisão oscilando entre 94 anos e prisão perpétua. O casal, contudo, continua a alegar inocência, num caso que a cada dia que passa revela pormenores cada vez mais sórdidos sobre as condições em que estes 13 irmãos viviam.

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