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Os Estados Unidos acreditam que serão salvos pelas celebridades?

Antes de Donald Trump chegar à presidência, Ronald Reagan, Jesse Ventura ou Arnold Schwarzenegger foram apenas algumas das celebridades que chegaram à política. Nos dias que correm, em que o descontentamento com os políticos continua a aumentar, a experiência e ideologia parecem relegadas para segundo plano. A marca, imagem e dinheiro ganham cada vez mais força neste novo normal. Teremos, em 2020, Oprah Winfrey a concorrer contra Donald Trump? É preciso "prudência".

Os Estados Unidos acreditam que serão salvos pelas celebridades?
Notícias ao Minuto

08:30 - 14/01/18 por Pedro Bastos Reis

Mundo Oprah Winfrey

Depois de um forte discurso na cerimónia dos Globos de Ouro, em que a atriz e apresentadora falou sobre racismo, igualdade de género e abusos sexuais, Oprah Winfrey foi catapultada para uma hipotética candidatura à presidência dos Estados Unidos. A hashtag #Oprah2020 tornou-se imediatamente viral nas redes sociais, antecipando um confronto, em 2020, contra Donald Trump para o cargo mais poderoso do mundo.

A possibilidade de Oprah Winfrey ser candidata à presidência dos Estados Unidos já é antiga. Apesar de nunca ter confirmado a sua disponibilidade ou intenção de ser, efetivamente, candidata, a especulação ganhou força depois de fontes próximas da celebridade terem afirmado à CNN que Oprah estaria a “pensar seriamente” em concorrer.

O mote mediático estava mais do que lançado, ampliado por declarações de apoio vindas de outras celebridades como Meryl Streep ou Steven Spielberg. Mas não só. Sob anonimato ou não, várias figuras ligadas ao Partido Democrata e até mesmo ao Partido Republicano afirmaram aos media norte-americanos que apoiavam a hipotética candidatura. Muitos incentivaram mesmo a apresentadora a avançar.

No meio do impacto mediático, o próprio Donald Trump decidiu abordar o assunto. No seu estilo próprio, disse que venceria Oprah Winfrey, apesar de não acreditar que ela fosse mesmo capaz de concorrer.

A verdade é que, até ao momento, a famosa apresentadora televisiva ainda não admitiu a sua intenção de vir a disputar a presidência. Mas, a concorrer, supondo que contra Donald Trump, seria este o cenário: uma bilionária sem experiência em cargos políticos a concorrer contra outro bilionário, cuja única experiência que tem, até ao momento, é o primeiro ano de presidência, cargo a que chegou vindo, tal como Oprah, do estrelato televisivo que conseguiu, por exemplo, com o seu programa ‘The Apprentice’, onde despedia, em direto, todas as semanas, os concorrentes mais fracos.

Este confronto entre bilionários é, neste momento, uma mera possibilidade que, na análise de Raquel Vaz Pinto, deve ser vista com “prudência”. “Acho muito prematuro termos qualquer indicação relativamente ao que poderá vir. Estamos a discutir uma eventual candidatura, de alguém que não a assumiu. Vejo a candidatura com alguma prudência”, afirma a investigadora em Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa ao Notícias ao Minuto.

Celebridades vs políticos tradicionais

A história de vida de Oprah Winfrey é conhecida e podemos afirmar que representa o “sonho americano”: uma pessoa que, apesar de todos os problemas, conseguiu atingir o sucesso.

Criada pela avó, num meio pobre, Oprah, que sofreu abusos sexuais na infância, chegou, primeiro, a repórter na televisão, dando depois o salto para a representação, até se tornar apresentadora televisiva. “Ela é, de facto, uma força da natureza como se tem visto ao longo destes anos”, concretiza Raquel Vaz Pinto. O programa 'The Oprah Winfrey Show' tornou-se um sucesso de audiências, sendo o mais visto de sempre na história norte-americana.

Notícias ao MinutoHistória de Oprah Winfrey é muitas vezes referida como o exemplo do "sonho americano"© Getty Images

Oprah tornou-se uma presença em grande parte das casas norte-americanas, assim como uma filantropa que é também a “primeira mulher negra bilionária”. “Ela ocupa um lugar especial porque revelou a promessa de ir da pobreza abjeta para um sucesso inimaginável”, realça Christina Greer, professora de Ciência Política na Universidade de Fordham em entrevista ao The Guardian.

Mas o salto dos ecrãs para a política é muito grande. Ou será que, nos dias que correm, já não? “As celebridades são, em primeiro lugar e acima de tudo, bem sucedidas e não políticas. A razão pela qual isso é atraente deve-se ao facto de os políticos serem quase universalmente reprovados e serem cada vez mais associados ao insucesso”, explica, num artigo publicado no mesmo jornal britânico, Cas Mudde, professor associado da Universidade da Geórgia e especialista em populismos.

Devido à insatisfação com os políticos, muitas figuras fora da política têm começado a ganhar espaço no campo político e começam a pôr em causa os políticos tradicionais.

“Muitas pessoas, muitos eleitores, estão desiludidos com os partidos políticos, com o establishment e, portanto, procuram ou vão ao encontro de figuras que conhecem bem de outros meios, sejam figuras como Oprah ou desportistas de renome”, destaca Raquel Vaz Pinto. “Há um forte descontentamento, uma insatisfação em relação ao que os políticos mais tradicionais têm sido capazes de realizar”. Para Cas Mudde, essa é “a razão principal pela qual as celebridades estão a (pensar) entrar na política e as pessoas estão a (pensar) votar nelas: a falta de opções atrativas entre os políticos experientes”.

Os "semideuses" fora do sistema partidário 

Antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump tornou-se famoso não só como um milionário do ramo imobiliário mas também pela marca que criou em torno do seu nome, bem como pela sua imagem de celebridade televisiva, seja no 'The Apprentice' ou em aparições nos famosos programas de entretenimento da World Wrestling Entertainment (WWE).

Nesse sentido, apesar das diferenças que conhecemos relativamente ao discurso, Donald Trump e Oprah Winfrey têm estes dois pontos em comum: são celebridades e estão fora do sistema político. “Oprah Winfrey partilha, de certa forma, o mesmo background, salvo a devida comparação, de Donald Trump (…) Ambos estão fora do sistema partidário. Essa característica diz muito sobre as expectativas, o entusiasmo à volta de figuras que não fazem parte do sistema político”, sublinha Raquel Vaz Pinto.

Notícias ao MinutoAlém de milionário do ramo imobiliário, Donald Trump tornou-se uma celebridade pelo seu programa 'The Apprentice'© Getty Images

No entanto, Trump e Oprah não são casos únicos de celebridades associadas à política. Nisso, os Estados Unidos têm vastos exemplos, basta pensarmos que Ronald Reagan, antes de chegar a governador da Califórnia e depois à presidência dos Estados Unidos, fez carreira em Hollywood. Mais recentemente, temos os casos do wrestler Jesse Ventura que foi governador do Minnesota, ou de Arnold Schwarzenegger que cumpriu dois mandatos como governador da Califórnia.

O fenómeno, por isso, não é propriamente novo, apesar da dimensão que ganhou com a chegada de Donald Trump a presidente dos Estados Unidos. Ao que tudo indica, as celebridades parecem mesmo bem posicionadas para continuarem a ascender a altos cargos políticos. “Num sistema político em que o dinheiro e o reconhecimento do nome são fatores chave para ganhar eleições, as celebridades estão bem posicionadas para se saírem bem, particularmente dentro de um campo de políticos profissionais desinspirados e nada inspiradores”, analisa Cas Mudde.

A juntar ao desencanto com os políticos, as celebridades, por norma, têm uma grande vantagem para se saírem bem na política: as suas contas bancárias bastante recheadas.

Naomi Klein, jornalista e ativista com nacionalidade canadiana e norte-americana, aborda esta questão no seu último livro, ‘Dizer Não Não Basta’ (publicado, em Portugal, pela editora Relógio D´Água). Para a autora, a filantropia associada à “elite liberal” tem ganhado força na sociedade norte-americana, existindo cada vez mais expectativa relativamente à capacidade das celebridades em resolverem os problemas em que os políticos tradicionais têm falhado.

“Durante os últimos vinte anos, os liberais pertencentes à elite liberal têm procurado que a classe multimilionária resolva os problemas que antigamente abordávamos através de ações coletivas e de um setor público forte – um fenómeno a que por vezes se chama ‘filantrocapitalismo’. Celebridades e diretores executivos multimilionários – Bill Gates, Richard Branson, Michael Bloomberg, Mark Zuckerberg, Oprah e, invariavelmente, vá-se lá saber porquê Bono – são tratados menos como pessoas normais, que são talentosas nas suas áreas e bons a ganhar dinheiro, e mais como semideuses”, escreve Naomi Klein no livro ‘Dizer Não Não Basta’.

Será que conhecemos, realmente, Oprah? 

Neste novo normal, a experiência política e as propostas concretas parecem relegadas para segundo plano. No que diz respeito ao caso de Oprah Winfrey, olhando para algumas temáticas que abordou, ao longo dos anos, no seu talk show, sabemos que defende um maior controlo relativamente à compra de armas, que defende os direitos da comunidade LGBT e que até chegou a criticar as guerras no Afeganistão e no Iraque. Também sabemos que o seu apoio a Barack Obama, em 2008, foi fundamental para a vitória do candidato democrata, mas, oito anos depois, a apresentadora não manifestou grande entusiasmo com a candidatura de Hillary Clinton.

Notícias ao MinutoOprah Winfrey foi um apoio decisivo para Barack Obama© Reuters

Mas que propostas concretas terá Oprah Winfrey para combater o desemprego? Ou o racismo? Ou para reformar a saúde ou a educação? Será mais favorável a uma maior intervenção do Estado ou, pelo contrário, privilegiará as empresas e o mercado desregulado? São muitas questões que, devido à sua inexperiência política, levantam, legitimamente, dúvidas quanto às respostas.

“Por muito que possamos conhecer Oprah, não a conhecemos. Ela tem estado connosco nos últimos 35 anos, nas nossas salas de estar mas será que sei, realmente, o que ela pensa sobre o Estado Providência?”, questiona Christina Greer, no The Guardian, para responder logo de seguida que “não”. “Sei que ela tem múltiplas casas mas não sei a sua posição sobre a política de habitação. Sei que é muito mais inclusiva do que o nosso atual presidente [Donald Trump], e para muitas pessoas isso chega. Apenas acho que um grande discurso não deve catapultar alguém para uma presumível nomeação quando já temos muitas mulheres qualificadas [para o cargo]”, concretiza a professora de Ciência Política.

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