"Relação da Europa com África tem de passar de imposição para proposição"

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado defendeu hoje que o futuro das relações UE-África exige uma nova atitude por parte da Europa, que deve passar da imposição para a proposição.

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Mundo Luís Amado

"A mudança de atitude é absolutamente determinante. Os dois continentes respiram o futuro de forma diferente. A atitude que era de imposição tem de ser completamente enterrada", disse o ex-governante numa conferência sobre as relações Europa-África em Lisboa.

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Em declarações aos jornalistas à margem do encontro, Amado recordou que o contexto internacional mudou muito nos últimos anos e hoje o continente africano "ganhou centralidade economia global, com todos os grandes atores económicos do mundo presentes no continente", o que exige da União Europeia "uma grande capacidade estratégica para se adaptar a essas mudanças se quiser preservar a relação histórica" que tem.

Para o ex-ministro, subsistem ainda "estereótipos de um paradigma de hegemonia" europeia que "não são tolerados pela parte africana", pelo que "está mais na responsabilidade europeia" perceber as mudanças e mudar de atitude e de método na abordagem das relações com África.

Amado defendeu que a política da UE para com os países africanos é ainda "de condicionalidades permanentes", o que considerou ser "a manifestação do uso da força".

"Não é da força militar, mas é a força da condicionalidade política que decorre de uma relação de desequilíbrio", afirmou o ex-ministro, afirmando que o "quadro de imposição" ainda existente nos acordos de parceria entre os dois continentes deve se substituído por uma atitude de proposição.

"A Europa não está em condições de impor. Impunha quando mandava no mundo e quando mandava em África, mas isso passou", reiterou.

A representante da União Africana na mesma conferência, Muila Kamwela, disse aos jornalistas que a relação de imposição se explica por a Europa ainda contribuir muito para a ajuda ao desenvolvimento que entra em África, mas considerou que, a par "dessa fraqueza" existe "uma oportunidade de os dois lados encontrarem um compromisso".

Na intervenção na conferência, a responsável questionou se a relação Europa-África ainda é de doador-recetor ou se já caminha para uma "parceria entre iguais" e aos jornalistas defendeu que, mais do que concentrar-se na igualdade, as partes devem procurar as complementaridades.

Também Geert Laporte, do Centro Europeu para a Gestão das Políticas do Desenvolvimento, um 'think tank' independente sediado na Holanda, disse que a Europa e a África estão a afastar-se da relação doador-recetor, mas ainda "há muito a fazer" para que cheguem a uma parceria de iguais.

"Cada parte tem de ser mais clara sobre os seus interesses", defendeu o analista, exemplificando que a Europa tem de assumir os seus interesses económicos e de segurança na relação com África e não aparentar uma preocupação única com o desenvolvimento do continente.

África, por seu lado, tem de entender que a Europa tem valor a oferecer e deve "acabar com a síndrome da dependência de ajuda", disse ainda Laporte, recordando que África tem dinheiro, só precisa saber mobilizá-lo.

"De ambos os lados há trabalho a fazer para alcançar a parceria de iguais", concluiu.

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