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"Governo não tem a situação sob controlo" em Cabo Delgado e Niassa

A analista Jasmine Opperman considera que o número de ataques terroristas na província moçambicana de Niassa, vizinha de Cabo Delgado, "mostra que o Governo não tem a situação sob controlo" e "narrativa de vitória" do Presidente Filipe Nyusi "não tem fundamento".

"Governo não tem a situação sob controlo" em Cabo Delgado e Niassa

"O governo está obcecado com a narrativa de vitória, mas essa narrativa não tem fundamento, não há como justificar essa narrativa com o que está a acontecer no terreno em Niassa", afirmou em declarações à Lusa a investigadora da ACLED - Armed Conflict Location and Event Data Project, uma organização não-governamental especializada na recolha, análise e mapeamento de dados relativos a conflitos em África.

O Presidente moçambicano, afirmou na sexta-feira que o "terrorismo e o extremismo violento afetaram brutalmente alguns distritos de Cabo Delgado", norte do país, mas a ofensiva militar em curso está a permitir o regresso gradual à normalidade.

Filipe Nyusi disse que a ofensiva conjunta das Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas, da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e do Ruanda reduziu a ação de grupos armados em Cabo Delgado e "congratulou-se" com o desempenho destas ao "conseguirem, gradualmente, repor a tranquilidade nos locais afetados pelo terrorismo".

"O Presidente tem que dizer estas coisas para transmitir confiança, mas o que acontece no terreno é o aumento do medo, as pessoas já começam a deslocar-se para Lichinga, a capital da província de Niassa. Nyusi pode fazer as afirmações que entender, mas não passam de frases políticas, não colam com a realidade", acrescentou Opperman.

"Contabilizámos já mais de uma vintena de ataques em Niassa e Cabo Delgado nas últimas semanas, número que mostra que o governo não tem a situação sob controlo. Eles não sabem quem perseguem, não têm a capacidade de perseguir os insurgentes, sobretudo em Niassa", ilustrou a analista.

Segundo Opperman, a recente sucessão de ataques na província de Niassa "não são surpreendentes". Os insurgentes estão a adotar uma tática que "conhecem bem", que passa por recuar e alargarem o campo de batalha. "Já vimos isto, mesmo em Cabo Delgado. Logo que atacavam deslocavam-se para sul, tornando as contraoperações extremamente difíceis. Niassa é dez vezes mais difícil" afirmou.

"Há células insurgentes ativas em Nissa há mais de dois anos", afirmou.

"Atualmente há quatro células, ainda que seja difícil dar um número exato, mas há pelo menos quatro células em movimento e a garantir que as forças no terreno saibam da sua presença", acrescentou.

Jasmine Opperman considera que os insurgentes não estão a tentar estabelecer-se em permanência em Niassa e assume mesmo ter "dúvidas" de que venham a atacar Lichinga, a capital da província. "Não é o objetivo deles", diz.

Os insurgentes "têm vindo a espalhar ataques em Niassa desde Mecula até quase à fronteira com o Maláui e, ao fazerem isto, as forças contrárias têm enormes problemas em cobrir toda a área", afirmou a analista, para quem a tática permite antecipar uma "intensificação de ataques em Cabo Delgado em escala, em magnitude e em frequência".

"Esse mantém-se como o objetivo final destes grupos. Não me parece que procurem obter uma ocupação em Niassa como a que tiveram em Palma ou Mocímboa da Praia. Ficariam muito vulneráveis, tanto pelo lado da Tanzânia como do Maláui. Por outro lado, Lichinga não é uma cidade fácil de manter sob ocupação", disse.

Jasmine Opperman antecipa ainda uma terceira fase da insurgência, que por ataques terroristas a cidades de outra dimensão e cada vez mais afastadas de Cabo Delgado, como é o caso de Nampula, a segunda maior cidade moçambicana.

"A questão não é se vão fazê-lo, mas quando é que vão atravessar essa linha. Mas vão fazê-lo, de certeza, sabendo como operam, isso vai acontecer", afirmou.

"Os insurgentes estão a ajustar-se. As indicações que recebo nesta altura é que estão a desenvolver táticas com as quais estão familiarizados, mas temo que chegue esse tempo em que passaremos a ter casos clássicos de terrorismo", disse.

Para já, no entanto, a estratégia de guerrilha da insurgência parece passar pelo alargamento do campo de batalha, quebrar ou enfraquecer as ligações entre as forças oponentes, tudo de forma subversiva e com apoio da população no terreno, na descrição de Opperman, que é alienada em cada bombardeamento que sofre por parte do exército moçambicano ou das forças aliadas, da SADC ou ruandesas.

"O combate aos insurgentes está a ser feito cada vez mais através de bombardeamentos. Isto não pode continuar a acontecer em Niassa, porque não sabem quem estão a atacar. A população civil vai voltar-se contra estas agressões", afirmou a analista.

E isso, segundo Opperman, está a acontecer. "Os próprios locais confiam mais nas forças ruandesas porque estas falam suaíli. E a mensagem é simples: os locais não confiam no que vem do Governo moçambicano, que continua obcecado com projeto de Gás Natural Liquefeito e o tem como objetivo prioritário".

Se nada for feito de diferente por Maputo, diz a analista, "daqui por cinco estar-se-á ainda a falar da insurgência em Cabo Delgado e nessa altura o Estado Islâmico estará presente com uma posição bastante mais forte".

"Mas tenho dúvidas de que o governo em Maputo tenha Cabo Delgado junto ao coração. Foram expostos pelo que correu mal ao longo de décadas, e esta é a idade desta insurgência, ela está a desenvolver-se há décadas", considera Opperman.

"A região enfrenta uma ameaça que não percebe, que não conhece, mas no momento em que essa presença estiver institucionalizada não se livrarão dela tão cedo. Olhe-se para o Sahel, para a Somália, Nigéria, para a Aliança das Forças Democráticas na República Democrática do Congo", alertou.

"Em cinco anos essa será a realidade em Cabo Delgado, e Niassa oferece essa possibilidade, porque o tempo está do lado dos insurgentes", conclui Jasmine Opperman.

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