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Noura escolheu Portugal para fugir ao medo. "É impossível paz em Gaza"

Noura Abukumail tem 42 anos, é de Gaza, mas escolheu Portugal como lar, depois de ter cá estudado e concluído que "não conseguia viver naquelas condições: falta de água, eletricidade, emprego, condições sanitárias, bombardeamentos e medo".

Noura escolheu Portugal para fugir ao medo. "É impossível paz em Gaza"

O mais recente reacendimento do conflito israelo-palestiniano, que dura há várias décadas, provocou a morte a pelo menos 232 palestinianos em Gaza, entre os quais 64 menores, e 1.620 feridos. Em Israel, as autoridades contabilizaram a morte de 12 pessoas, entre as quais dois menores, e 340 feridos.

Noura Abukumail veio de Gaza para Portugal em 1997 para estudar Medicina Dentária. Voltou a casa depois de terminar o curso, mas acabou por ficar muito pouco tempo. "Percebi que não conseguia viver naquelas condições", conta ao Notícias ao Minuto, recordando o período em que passava noites seguidas sem dormir e de janelas abertas para que os vidros não atingissem a cama em resultado das explosões.

Passadas tantas décadas de conflito, Noura mantém viva a esperança na resolução do conflito, mas tem cada vez mais dúvidas. "Uma paz duradoura necessita de verdadeiras ações para uma solução justa para os milhões de palestinianos refugiados e para os que vivem em condições não humanas", diz.

Falámos com Noura dias após o cessar-fogo. Entretanto, Israel tem um novo primeiro-ministro, Naftali Bennett, terminando o ciclo de 12 anos de poder de Benjamin Netanyahu. "Bennet não esconde o ódio" e "é  a favor da limpeza étnica", comenta Noura.

Qual a sua história e como é que Portugal surgiu no seu caminho?

Tenho 42 anos. Sou de Gaza. Vim para Portugal em 1997 para estudar, quis tirar o curso de Medicina Dentária e na altura não havia faculdade de Medicina Dentária em Gaza. Surgiu a oportunidade de estudar em Portugal com bolsa de estudo.

Depois de acabar o curso voltei para Gaza. Fiquei alguns meses, mas depois percebi que não conseguia viver naquelas condições: falta de água, eletricidade, emprego, condições sanitárias, bombardeamentos e medo.

Houve um período em que passei noites seguidas sem dormir, a apanhar sustos a cada hora com falsas explosões provocadas pelos aviões israelitas, tudo tremia (passávamos noites com janelas abertas para não partir e espalhar o vidro em cima de nós). O único objetivo nesse caso era assustar as pessoas. Então decidi voltar para Portugal. 

De que forma é que o conflito Israel/Palestina marcou a sua vida e moldou a sua personalidade?


Não sei lhe dizer como moldou a minha personalidade. Mas se eu não fosse palestiniana estaria agora a viver próximo da minha família. A minha irmã mais nova viveu em Gaza até há pouco tempo e eu estava em estado de alerta constante, sempre com medo.

Eles sentiam muito medo, principalmente quando chegava a noite. Alguns até se despediam de nós a cada noite a pensar que não iam sobreviver 

Em criança, já tinha noção do problema? E isso determinou, por exemplo, as suas amizades? Que episódios pode contar?

Eu não nasci em Gaza. Os meus pais emigraram à procura de melhores condições. Desde que me lembro eles falavam da Palestina. Lembro-me de ver as imagens da primeira intifada na televisão e sentir-me impotente e triste.

Quando os meus pais decidiram voltar, eu tinha 12 anos e apanhei uma parte da primeira intifada. Senti muita confusão com as condições em que as pessoas viviam lá e sentia medo ao ver os jipes das tropas israelitas e os confrontos nas ruas.

Não havia misturas em Gaza nem na Cisjordânia, eramos só palestinianos, os israelitas viviam em colonatos onde nós não nos podíamos aproximar. Lembro-me dos soldados a revistarem a nossa casa a qualquer hora sem razão nenhuma. Era apenas uma forma de impor força e provocar medo. O recolher obrigatório era frequente. Lembro-me de ter ficado 40 dias sem poder sair de casa. Quem saía arriscava perder a vida. Havia checkpoints dentro de Gaza, em sítios que nem sequer eram estratégicos, só com o objetivo de humilhar os palestinianos que ficavam parados durante horas sem justificação.

O que é que sentiu ao ver o mais recente ciclo de violência?

Senti como nas outras vezes: angústia, tristeza e impotência.

Tem familiares e amigos em Gaza? O que lhe relataram dos mais recentes episódios?

Os membros da minha família foram dos sortudos que conseguiram sair aos poucos à procura de melhores condições de vida. A minha irmã foi a última a sair. Ela assistiu à invasão de 2014 altura em que ia perder o filho em dois episódios de bombardeamento. Eu nessa altura não conseguia dormir. Lembro-me de ter perdido o contacto com ela durante dois dias e foram dos piores dias da minha vida. Ela contou que chegou a sentir que preferia morrer que passar por tanto sofrimento naquela altura. Neste momento, tenho tios, primos e amigos. Alguns perderam as suas casas. Eles sentiam muito medo, principalmente quando chegava a noite. Alguns até se despediam de nós a cada noite a pensar que não iam sobreviver.

Faz-me confusão aceitar a desculpa da "legítima defesa" de um estado que ordena as suas tropas a atacar Gaza como se tratasse de videojogos

Acha que a comunidade internacional tem agido da melhor forma perante este conflito? 

Os líderes de forma geral só condenam a violência de ambas as partes, colocando os opressores e os oprimidos em equivalência, como se tivessem a mesma legitimidade e a mesma força. Faz-me confusão aceitar a desculpa da “legítima defesa” de um estado que ordena as suas tropas a atacar Gaza como se tratasse de videojogos (a expressão de videojogos foi de soldados que decidiram falar da sua experiência em Gaza).

E Portugal em concreto?

Relativamente às pessoas em Portugal e no resto do mundo, notei diferença ao longo dos anos. Antigamente só recebíamos notícias através dos canais de televisão oficias, que infelizmente contam a história de uma forma enviesada, mostrando Israel constantemente como vítima, ignorando os palestinianos. Atualmente, graças aos ativistas e aos vários canais de comunicação social existe uma melhor compreensão da causa palestiniana e maior solidariedade.

Houve cessar-fogo, mas neste preciso momento há famílias ameaçadas de serem expulsas das suas casas,  a esplanada das mesquitas continua a ser invadida e continua a haver ataques aos civis  Acredita que o cessar-fogo trará uma paz duradoura?

De facto houve cessar-fogo, mas neste preciso momento há famílias ameaçadas de serem expulsas das suas casas em Silwan e Sheikh Jarrah (Jerusalém), a esplanada das mesquitas continua a ser invadida por colonos israelitas que atacam palestinianos durante as suas orações e continua a haver ataques aos civis na Cisjordânia e em Jerusalém.

É claro que não podemos esquecer que, apesar de não haver bombardeamento e sangue, Gaza com os seus 2 milhões de habitantes, continua cercada sem permissão para a entrada das ajudas humanitárias. Continua a não haver água, luz, medicação e abrigo para os que perderam as suas casa e emprego. As fronteiras estão fechadas e Gaza está em ruínas. Há uns dias evacuaram um prédio porque está em risco de ruir, devido às forças dos bombardeamentos nas suas imediações, e de certeza haverá muitos mais.

Uma paz duradoura necessita de verdadeiras ações para uma solução justa para os milhões de palestinianos refugiados e para os que vivem em condições não humanas. Nas condições atuais é impossível haver paz.

E as feridas na sociedade? Será possível sará-las?

Para sarar as feridas é preciso primeiro parar os ataques e arranjar uma solução justa. Mas com a continuação da hostilidade e com a construção de colonatos à custa da expulsão dos palestinianos das suas casas não me parece fácil.

Bennett não esconde o ódio. É  a favor da limpeza étnica (já mencionou que matou muitos árabes, sem problemas) e da anexação de grande parte da Cisjordânia 

Acredita que Israel e a Palestina estão dispostos a resolver o conflito de vez?

Já acreditei, mas agora tenho dúvidas.

Como classifica a postura de Benjamin Netanyahu - que esteve 12 anos no poder?

Netanyahu é igual a qualquer outro líder. A cara muda, mas a política é igual. Israel tem como objetivo aumentar o seu terreno a qualquer custo e humilhar os palestinianos.

Não deposita então expectativas em Bennett, o novo primeiro-ministro?

Bennett não esconde o ódio. É  a favor da limpeza étnica (já mencionou que matou muitos árabes, sem problemas) e da anexação de grande parte da Cisjordânia. Não reconhece o direito da autodeterminação do povo palestiniano e nega que houve despejo e apropriação de terras dos palestinianos. Com uma mentalidade assim não me parece que seja possível haver diálogo. 

Acredita num futuro risonho e esperançoso para Gaza, apesar das feridas? Gostava de lá voltar?

A esperança é a última a morrer, mas infelizmente tenho dúvidas. Voltar para viver com estas condições não. Mas tenho muitas saudades de estar lá, apesar dos momentos tristes que vivi.

Leia Também: Hamas convoca Dia da Ira para amanhã em resposta a marcha israelita

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