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Moçambique. Etnia maconde está a ajudar combate a jihadistas

O investigador português Fernando Jorge Cardoso disse hoje que os progressos alcançados nas últimas semanas na "guerra" contra os 'jihadistas' na província moçambicana de Cabo Delgado devem-se também à mobilização de combatentes de etnia maconde, a do Presidente Filipe Nyusi.

Moçambique. Etnia maconde está a ajudar combate a jihadistas

"Há um conjunto de grandes lideranças maconde que mobilizaram a etnia para (...) acabar com a ameaça dos 'jihadistas' radicais", afirmou em entrevista à Lusa, Fernando Jorge Cardoso, professor e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE -- Instituto Universitário de Lisboa, um estudioso e analista de assuntos africanos.

Por isso, há uma intervenção étnica na "guerra" em Cabo Delgado, com "unidades de macondes, antigos combatentes [alguns já com uma idade avançada], que caçam nas matas os 'jihadistas'. Isso está a acontecer no último mês e os progressos são absolutamente fundamentais", adiantou.

Avanços esse que, "de certa maneira, não são controlados pelo poder central" que têm riscos, porque "num tipo de guerra como esta há muitos civis que sofrem as consequências", sublinhou.

Segundo o investigador, esta "intervenção étnica na guerra foi provocada pelo ataque às terras macondes" por parte dos 'jihadistas', "o que levou a uma sublevação geral por parte dessas pessoas", numa referência aos distritos de Mueda e Muidumbe.

Os maconde estão "no ADN da Frelimo", partido no poder em Moçambique, desde a independência do país, e o Presidente da República, Filipe Nyusi, é daquela etnia, além de muitos outros dirigentes do partido e governantes.

O analista, sublinhou, porém, que o conflito em Cabo Delgado é anterior "à guerra" e aos investimentos para a exploração do gás na região, um dos maiores em curso neste momento em África, que permitirá a Moçambique recolher as receitas necessárias para recuperar a sua economia e desenvolver-se.

O conflito de que fala "tem a ver com a ocupação, por parte de elites locais, de terras e recursos naturais, para proveito próprio, e que, de certa maneira, o fazem com ligações a elementos em Maputo, ou seja, ao nível do poder central", afirmou.

Por isso, a guerra pode resolver-se a curto prazo, mas o conflito ainda está longe do fim.

Esses problemas internos terão contribuído também para que o país não tenha solicitado ajuda internacional mais cedo para resolver a situação de conflito na região, admitiu.

A Frelimo mudou, mas há "algumas tradições que se vão mantendo ao longo do tempo, e uma delas é uma renitência muito grande à intervenção de poderes externos, que possam afetar a soberania interna", afirmou o professor.

"Esta é uma das razões, independentemente dos negócios, que existem de facto, e unem o poder", sublinhou.

Para o investigador, a existência de tropas externas no terreno "significa que o conhecimento da situação local, inclusivamente dos problemas económicos, sociais e políticos passa para fora, para os órgãos de comunicação social e isso é algo que não interessa a muita gente ao nível do poder".

Quanto à possibilidade de traficantes de droga poderem ter interesses na guerra em Cabo Delgado, Fernando Cardoso, afasta essa possibilidade: os traficantes "não estão interessados em publicidade" e são agora "objeto de muito maior controlo e perseguição".

Grupos rebeldes em Cabo Delgado, Norte de Moçambique, realizaram ainda esta terça-feira dois ataques simultâneos no distrito de Palma, um dos quais nas redondezas dos megaprojetos de gás natural em Afungi.

Os ataques ocorreram precisamente um dia depois de o presidente moçambicano, Filipe Nyusi, ter pedido às Forças de Defesa e Segurança "máxima prontidão" face ao "silêncio do inimigo".

A violência armada em Cabo Delgado começou há três anos e está a provocar uma crise humanitária com mais de duas mil mortes e 560 mil deslocados, sem habitação, nem alimentos, concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

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