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Depressão. Vamos falar, "sem rodeios", de uma doença incompreendida

Em tempos de pandemia tornou-se ainda mais importante falar sobre uma doença "incompreendida e estigmatizada" que afeta milhares de portugueses. Falamos, sem rodeios, da depressão, uma doença que não escolhe idades. O diagnóstico precoce é preponderante, assim como o papel do médico de família. E quem melhor do que um humorista, que passou por uma depressão, para desmitificar o tema?

Depressão. Vamos falar, "sem rodeios", de uma doença incompreendida

A saúde mental teve, até à chegada da pandemia, uma visibilidade secundária na sociedade. Muitas vezes incompreendida ou desvalorizada, e tantas vezes escondida por vergonha, o facto é que a depressão é um dos problemas de saúde com mais incidência no mundo, afetando cerca de 350 milhões de pessoas. E Portugal não é exceção. Há cerca de 700 mil portugueses que vivem com sintomas depressivos, e os confinamentos impostos pela pandemia só agravaram estes números.

Dados revelados pela Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), e que constam no relatório 'Saúde Mental em Tempos de Pandemia', mostram que em janeiro deste ano, 27% dos inquiridos indicaram ter sintomas moderados a graves de ansiedade e 26% sintomas de depressão. Valores que se tornam ainda mais "preocupantes, tendo em conta que Portugal é o segundo país da Europa com as taxas de prevalência mais elevadas em doenças psiquiátricas”, alerta a SPPSM.

É, por isso, importante estar atento aos sinais, que não são "de debilidade nem de fraqueza", mas de alerta para uma doença como tantas outras e para a qual "existe tratamento". Muitas vezes, a depressão é ultrapassada "sem voltar a ter recaídas", mas para tal é "importante que a pessoa sinta que as suas queixas são ouvidas e valorizadas. O respeito e a empatia pelo seu sofrimento são a maior ajuda, para que tenha motivação para procurar ajuda médica, essencial para o sucesso do tratamento”.

Agir é fundamental. A pensar nisso, a SPPSM, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), a FamiliarMente, a associação Manifestamente, e a farmacêutica Lundbeck, juntaram-se e lançaram a campanha 'Depressão sem Rodeios'. E quem melhor do que o humorista António Raminhos para ser o embaixador de uma campanha focada em reduzir o estigma e a desvalorização associados à doença e alertar, sem rodeios, para a necessidade de procurar ajuda.

Para saber mais sobre a depressão e a campanha, que arrancou no passado mês de junho e decorre até outubro, o Notícias ao Minuto falou com Beatriz Lourenço, psiquiatra e vice-presidente da Manifestamente. O objetivo é "informar, reforçar as mensagens e estratégias de autocuidado", quebrando o "estigma associado à doença mental".

- A depressão não escolhe idades. Mas os sinais variam de acordo com as faixas etárias? Há diferenças entre jovens e adultos, homens e mulheres? Ou, pelo contrário, há sinais e sintomas comuns?

A depressão pode surgir em qualquer idade e em qualquer pessoa. Podem existir diferenças na apresentação dos sintomas da depressão, não só consoante a idade e o sexo, como também do seu contexto sociocultural. Contudo, apesar desta variabilidade, existem sinais e sintomas característicos que permitem que um médico ou psicólogo consiga fazer o seu diagnóstico e iniciar o tratamento adequado.

- O presidente da APMGF destaca o papel do médico de família na identificação da doença. Estão os médicos de família, ou seja de Medicina Geral e Familiar, aptos para esse diagnóstico? Como é feito esse diagnóstico, que sinais têm em conta, e o que deve ser recomendado ao paciente?

Os Cuidados de Saúde Primários são a porta de entrada do SNS e os médicos de Medicina Geral e Familiar têm todas as competências necessárias para diagnosticar e iniciar o tratamento da depressão. Os sintomas mais comuns da depressão são a tristeza, o choro fácil, a falta de energia e prazer (para fazer coisas que antes tinha energia e prazer, por exemplo), cansaço e também alterações do sono e do apetite. É importante que se perceba que estes e outros sintomas devem estar presentes durante, pelo menos, duas semanas. O tratamento e as recomendações serão feitas pessoa a pessoa, consoante os sintomas que apresenta, e dependerão, naturalmente, das características do caso em questão. Mas o tratamento proposto deve sempre ser discutido com o próprio doente e escolhido de acordo com as suas preferências também.

- Qual é a principal barreira a um diagnóstico precoce? A dificuldade/vergonha em assumir que temos um problema? A falta de identificação do problema que por, por vezes, associamos a momentos de mais stress?

Um grande estudo epidemiológico nacional sobre saúde mental em 2014 mostrou que no caso da depressão, as pessoas chegam a demorar seis anos até pedirem ajuda especializada e, sem dúvida que o estigma associado à doença mental é uma das razões mais importantes. Na tentativa de evitar ter um diagnóstico de uma doença mental, as pessoas adiam a procura de ajuda, mantendo-se em sofrimento e causando o agravamento dos seus sintomas. As pessoas têm muita falta de informação sobre a depressão, o que também não facilita o reconhecimento dos sintomas e sinais de alarme, que podem guiar as pessoas a consultar um médico ou psicólogo.

- A situação nacional agravou-se em algum momento em particular? Atravessamos uma pandemia, um período que obrigou ao isolamento de muitos de nós por longos períodos de tempo. Foi uma agravante? Como podemos agora recuperar esse tempo "perdido"?

Vários estudos mostram que a pandemia e as contingências a ela associadas, tiveram impacto no bem-estar das pessoas, em particular durante os períodos de confinamento mais rigorosos. Este sofrimento psicológico não significa que estas pessoas venham a desenvolver alguma doença mentala maioria das pessoas recuperará o seu funcionamento pré-pandemia, quando esta terminar. [Mas] é uma boa oportunidade para reforçar as mensagens e estratégias de autocuidado junto da população em geral

Campanha 'Depressão sem Rodeios' destina-se não só às pessoas que estão com depressão, mas a toda a população que deve estar mais informada sobre esta doença"

- A escolha de António Raminhos para dar a cara pela campanha teve um propósito especial?

Sabemos que o testemunho de pessoas com doença mental é das estratégias mais eficazes no combate ao estigma. Uma figura pública que esteja disposta a dar o seu testemunho é ainda mais poderoso, pois a sua mensagem tem outro alcance e impacto junto das pessoas. O António Raminhos tem ainda duas características que merecem ser referidas: é um humorista, o que traz a leveza necessária ao tema e é um homem. Tem sido difícil [fazer] chegar mensagens sobre depressão aos homens, provavelmente devido a constrangimentos culturais. Acredito que o António Raminhos dar a cara pela depressão irá ajudar bastante a desmistificar a ideia da depressão no sexo masculino

- O que esperam alcançar com a campanha? Qual o principal público alvo e qual a principal mensagem que querem que chegue às pessoas?

A campanha 'Depressão sem Rodeios' destina-se não só às pessoas que estão com depressão, mas a toda a população que deve estar mais informada sobre esta doença, pois a depressão não escolhe idades ou géneros e pode afetar qualquer pessoa em qualquer momento da sua vida.

Combater o estigma associado à depressão e contribuir para uma maior informação ao público sobre esta doença [é o propósito] e a principal mensagem que queremos passar é a de que é possível que os doentes recuperem e voltem a ser as pessoas que eram antes da tristeza e da apatia invadirem as suas vidas. Queremos ainda que todos percebam que o tratamento existe e que deve ser procurado junto do médico de família ou de um psiquiatra, e que a depressão deve ser vista como qualquer outra doença, das quais falamos sem rodeios. 

- Que atividades estão previstas para a campanha 'Depressão sem Rodeios'?

Temos previstas várias atividades como o lançamento de um podcast com vários especialistas que falem sem rodeios sobre este tema e o lançamento de mini curtas metragens que espelhem os testemunhos de todos os que já viveram com depressão. Vamos ainda lançar um vox pop que espelha a perceção que alguns portugueses têm sobre a depressão. 

Leia Também: OMS avisa para "impacto prolongado" da pandemia na saúde mental mundial

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