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"Vejo pessoas sem formação a fazer telenovelas. Acho injusto"

O nome de Hana Sofia Lopes pode causar estranheza entre o público português, mas a atriz está a dar cartas lá fora com várias participações em filmes, novelas e séries internacionais. Hana Sofia conversou com o Notícias Ao Minuto partilhando um olhar crítico e fresco sobre a representação que por cá se faz.

"Vejo pessoas sem formação a fazer telenovelas. Acho injusto"
Notícias ao Minuto

09:20 - 11/01/19 por Rita Alves Correia 

Fama Hana Sofia Lopes

As raízes são portuguesas, mas a alma é do mundo. Hana Sofia Lopes tornou-se conhecida do grande público com as participações nas novelas 'Mar Salgado' e 'Coração d'Ouro', da SIC. Entretanto, apostou uma carreira internacional. 

Tem 28 anos, estudou no Conservatório de Paris, fala seis línguas, está sempre entre 'cá e lá'. E é de lá que vai acompanhando o que por cá se faz.

Em conversa com o Notícias Ao Minuto, a atriz confessou-nos que é no desafio de estar em constante mudança que alimenta a sede de ser artista. Um futuro inteiramente vivido em Portugal? Para já, está fora de questão e conta-nos porquê.

A representação sempre foi um sonho?

Descobri a representação com 15 anos, quando comecei as aulas de teatro. Depois de dois ou três meses percebi logo que era o que queria fazer o resto da vida. Foi muito claro desde o início.

Participou em duas novelas em horário nobre da SIC, ‘Mar Salgado’ e ‘Coração d’Ouro’. Como recorda esses projetos?

Fiz as novelas logo após terminar o Conservatório de Paris, que é mesmo teatro clássico. Foi uma viragem de 180 graus. Inicialmente, quando me convidaram para fazer o ‘Coração d’Ouro’, tive de pensar um bocado sobre se realmente queria enfrentar o desafio. Eram 300 episódios, um ano e meio a viver em Portugal… Para mim, era uma responsabilidade.

Não gostava de fazer só novelas. Admiro muito os colegas que conseguem ir de uma telenovela para a outra. Em termos de cansaço e esgotamento emocional, deve ser bastante duroO facto de ser uma novela também pesou nessa decisão?

Não, essa parte achei sempre super interessante. Tanto que, desde que entrei para a L’Agence, que insistia com a minha agente para ver se havia maneira de fazer uma novela. Pelo desafio de ter o trabalho com a câmara. Fiz quatro anos de conservatório, em Lisboa, depois fui para Madrid e a seguir Paris, e nessas escolas não há muito trabalho com a câmara e eu queria esse desafio. A novela é um trabalho muito intenso, são muitas horas, por isso achei que ia ser um bom exercício. Não como o auge da minha carreira, a coisa mais importante, mas como uma transição achei super interessante. Por isso queria tanto, mas não gostava de fazer só novelas. Admiro muito os colegas que conseguem ir de uma telenovela para a outra. Em termos de cansaço e esgotamento emocional, deve ser bastante duro.

O que é que esse trabalho contínuo exigiu enquanto atriz e pessoa?

Serem tantos episódios foi um estímulo. Só o simples facto de decorar tanto texto… E a agravante da língua. Sou portuguesa e falo português, mas já tinha passado alguns anos sem viver cá. Parecendo que não, não penso em português. Fazer tantas cenas todos os dias foi super difícil. Depois tem a ver com o grupo, a sorte ou a má sorte dos colegas que nos calham.

Em ‘Coração d’Ouro’ contracenava, sobretudo, com o Miguel Guilherme, a Rita Blanco e o João Baptista.

Ainda agora, quando penso que a minha primeira experiência foi ser ‘filha’ do Miguel Guilherme e da Rita Blanco, é espetacular. Uma pessoa não pode sonhar melhor. Tinha cenas com a Rita de que ainda hoje me lembro, ela era tão extraordinária… É como uma espécie de viagem durante aquelas cenas, está-se noutra dimensão. Mas tenho outros exemplos, como a Diana Chaves e a Mariana Monteiro, que hoje são minhas amigas.

Cada pessoa, quando nasce, recebe umas cartas… O lado bom do meu baralho é que falo seis línguas e nessas seis consigo trabalhar, o que me dá muitas oportunidades de trabalhoPassou por vários países, trabalhou em vários meios, com que meio artístico se identifica mais? Em que é que Portugal se distingue?

Colocam-me essa questão imensas vezes. Não noto assim tantas diferenças na hora de trabalhar. Nos valores, noto os mesmos níveis de exigência. Às vezes noto um pouco de preconceito, por exemplo no Luxemburgo ou em França, com as telenovelas. Acho é que as pessoas não têm noção do grau de dificuldade que é fazer uma telenovela, não têm mesmo. Pelas horas, pela quantidade de texto e pela exposição, porque a vida muda completamente.

Como lidou com essa exposição?

Tenho de admitir que não via a telenovela todas as noites, precisava dessa distância. E como não via não tinha essa perceção nem pensava bem que havia milhões de pessoas a ver. Depois foi muito estranho porque, pouco a pouco, fui cada vez mais [começando a ser reconhecida]. Ao início, uma pessoa sente-se bem, faz bem ao ego - se dissesse o contrário, era mentira. Era o primeiro trabalho, estava à procura de reconhecimento e encontrei-o nessa altura. Mas depois percebi que não há um botão ‘on’ e ‘off’...

Nesses momentos, reage de forma mais ‘assustada’ às abordagens do público?

Não, tenho muita distância disso. Estou em Portugal, mas depois regresso para o Luxemburgo onde ninguém me conhece ou se conhecem não manifestam tanto. Aqui percebe-se logo, são muito mais expressivos nesse sentido. Acho essa distância muito saudável porque nos faz ter os pés assentes na terra.

Vejo pessoas a fazer telenovelas com pouca formação, ou nenhuma até, mas são muito mais giros e por isso estão a trabalhar. Acho isso injusto e é estar a gozar com o trabalho de ator Imagina-se a ‘trocar’ essas idas e vindas por uma estadia permanente em Portugal?

Acho que cada pessoa, quando nasce, recebe umas cartas… O lado bom do meu baralho é que falo seis línguas e nessas seis consigo trabalhar, o que me dá muitas oportunidades de trabalho. Vejo-me, talvez,  a comprar uma casa, construir um futuro com outra pessoa, mas trabalhar só em Portugal não. Porque o que acho mais desafiante no meu trabalho é estar sempre a mudar. O ano passado fiz uma rainha nos ‘Ministérios do Tempo’ (RTP), logo a seguir fiz uma médica numa sitcom luxemburguesa e depois uma espécie de vampiro num filme canadiano. Isso é que é o desafio. Mas se amanhã tivesse um convite para fazer uma novela e estivesse disponível, fazia com todo o prazer. Mas só isso, não.

Estando fora e ao assistir ao que é feito em Portugal, considera que ainda se escolhem os mesmos atores para os mesmos tipos de papéis?

Sim, é uma coisa que ainda é muito recorrente. Sobretudo porque os atores têm contratos de exclusividade, ficam nas estações e vão de uma novela para a outra. Acho que isso não é saudável para ninguém.

E há outra coisa que noto quando vejo telenovelas - não é uma crítica, é só o que eu constato - que é: Tenho amigos que são super bons atores, um talento gigante, e que não estão a trabalhar e estão em bares ou restaurantes. E vejo outras pessoas a fazer telenovelas com pouca formação, ou nenhuma até, mas são muito mais giros e por isso estão a trabalhar. Acho isso injusto e é estar a gozar com o trabalho de ator.

Considera que nesse parâmetro a força das redes sociais e do número de fãs também pesam?

Completamente. Acho que isso é triste porque já ouvi isso de produtores - é mesmo verídico - que se estiver indeciso entre dois atores igualmente bons, opta-se por aquele que tem mais seguidores. Isto é assustador, uma pessoa pensa onde é que isto vai parar.

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