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"Conseguimos mostrar a um país inteiro que temos o nosso valor"

Jéssica Silva é uma das jogadoras portuguesas mais promissoras do momento. No último dia de estágio antes da partida para a Holanda, onde Portugal viria a disputar o primeiro campeonato europeu da sua história, sofreu uma lesão. Ainda assim, e apesar da distância, Jéssica não deixou de acompanhar a seleção nacional.

"Conseguimos mostrar a um país inteiro que temos o nosso valor"
Notícias ao Minuto

08:32 - 01/08/17 por Francisco Amaral Santos c/ Carlos Pereira Fernandes

Desporto Jéssica Silva

O futebol feminino em Portugal cresce dia após dia. Depois de uma temporada onde a final da Taça de Portugal foi disputada no Jamor, sendo também alvo de transmissão televisiva na estação pública, a seleção nacional marcou, pela primeira vez na história da modalidade, presença num Campeonato Europeu.

Jéssica Silva é uma das maiores craques da formação das quinas mas não marcou presença na competição por um duro revés. No último treino da seleção em solo nacional, durante o estágio de preparação para o Euro'2017,  a extremo de 22 anos lesionou-se, falhando assim a presença na primeira competição internacional com participação lusa. 

Ainda assim, e apesar da distância que separa Portugal de Holanda, Jéssica Silva nunca deixou de acompanhar a seleção das quinas garantindo que falou "todos os dias" com as companheiras. 

Em entrevista ao Desporto ao Minuto, Jéssica Silva fala sobre o desenvolvimento do futebol feminino no nosso país, deixa elogios à forma como a Federação Portuguesa de Futebol tem apostado na modalidade e revela ainda o que a levou a aceitar o convite do Levante - equipa espanhola pela qual assinou este verão - depois de ter brilhado ao serviço do Sporting de Braga na última época.  

A jogadora natural de Vila Nova de Milfontes conta ainda de que forma acompanhou a campanha portuguesa no Euro'2017 sublinhando que foi duro ficar de fora pelos piores motivos. No entanto, Jéssica Silva enaltece o desempenho das companheiras e diz estar "orgulhosa" pela prestação portuguesa na Holanda. 

"Sentir toda esta envolvência de fora não é assim tão positivo"

Antes de começarmos. Que balanço faz da participação portuguesa no Euro'2017?

Eu não estive lá com muita pena minha, mas todos os dias falava com elas. Fizeram questão de me fazerem sentir lá. Acho que foi uma presença muito positiva para uma seleção estreante na competição, porque conseguimos mostrar a qualidade e o valor que nós temos. Acabamos por mostrar que a seleção tem mentalidade e valor. Saímos do Euro com um sabor amargo porque podíamos ter ido mais longe. Estivemos realmente perto [de continuar] e fizemos por isso.

Foi complicado ficar de fora por lesão?

Claro que sim. Estaria a mentir se dissesse que tentei ver o lado positivo das coisas. Acaba por ser uma frustração muito grande, principalmente nos dias dos jogos. Custa bastante ver os jogos do Euro pela televisão, sobretudo os de Portugal. Custou-me sentir toda aquela atmosfera por fora e pela televisão e não estar perto delas é um pouco frustrante. Mas por outro lado, acho que tive muito apoio delas, por parte das minhas colegas e elas foram extraordinárias, não só pelo desempenho mas como me faziam sentir, antes e depois dos jogos. E também nos outros dias, elas faziam questão de me dizerem as coisas e de ir falando comigo.

Mas vai ser sempre diferente de outro Europeu, porque o primeiro é especial. E lá está, eu sempre acreditei que nós tínhamos uma palavra a dizer e não iríamos ser os 'bombos da festa'. O grupo todo sabia disso. Confiamos muito no nosso trabalho. Sentir toda esta envolvência de fora não é assim tão positivo, eu podia ter estado lá. Eu estive quase lá e isso custa bastante. Embora esteja muito feliz, e estou super orgulhosa, acaba por ser um misto de sensações. É um pouco agridoce. Mas, no fim de tudo, o sentimento de orgulho e felicidade acaba por afastar tudo o resto que correu mal.

Pelo meio teve a experiência de assumir o papel de comentadora no jogo de Portugal diante da seleção escocesa. Como foi estar do outro lado do espetáculo?

Acho que é muito complicado para uma jogadora... teres estado integrada no grupo e teres uma ligação forte com as pessoas que estão lá dentro… Eu tentei ao máximo controlar-me. Muitas das vezes tinha que desligar o microfone e dizer: ‘Vai Diana, vai!’, porque este era o comentário que faria naturalmente [risos]. Não dava para ser imparcial, é impossível sê-lo para uma jogadora. Eu sinto muito as coisas, acabei por, na altura dos golos, os dois que marcámos, festejar efusivamente, não dava para controlar. Acabou por ser uma experiência muito positiva, e foi uma forma de participar na história e fiquei muito feliz pelo convite da Eurosport. Foi um momento inesquecível. Foi diferente mas bom e senti-me muito bem por estar a comentar um jogo tão importante para Portugal.

"Conseguimos mostrar a um país inteiro que temos o nosso valor"

Esta primeira presença internacional pode ser o passaporte para uma participação portuguesa mais regular neste tipo de competições?

Sim, tenho toda a certeza que sim. Esta presença vai projetar a nossa seleção para outras fases finais. Acho que nós conseguimos mostrar aquilo de que somos feitas: além de jogar bem, temos um sentido de superação, de sacrifício e de amor à camisola, uma coisa muito grande. Nós fazemos o que todas as seleções deviam fazer. O facto de estarmos a jogar contra equipas de grande nível, com realidades completamente diferentes da nossa, muito mais à frente da nossa, com vários lugares acima de nós no ranking - nós [Portugal] éramos a seleção menos cotada - acaba por mostrar a nossa identidade e deixa claro que temos tudo para continuar nestas grandes competições. Temos qualidade para estar lá. Qualidade e amor, muito amor por esta camisola. Acho que isso ficou bem patente, porque jogar contra uma Inglaterra não é a mesma coisa que jogar contra Montenegro.

O que fizemos acabou por encher de orgulho os portugueses e mostrámos ter qualidade. Acho que era isso que as pessoas deviam entender e perceber. Existiram alguns comentários pouco positivos, negativos até, após o jogo contra a Espanha [Portugal foi derrotado por 0-2]. Disse, sugeri mesmo, que toda a gente continuasse a ver os jogos de Portugal porque nós tínhamos qualidade. Conseguimos mostrar a um país inteiro que temos o nosso valor e que merecemos estar lá. Sabemos o percurso que temos vindo a traçar. Isto não é de agora, já vem de algum tempo atrás. Isto é um trabalho que tem vindo a ser feito, pelo menos, desde da chegada do novo treinador [Francisco Neto]. É um acumular de trabalho. Esta prestação é uma recompensa do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido. Temos muito a mostrar aos portugueses, só queremos que acreditem e que nos continuem a apoiar.

O futebol feminino tem ganho cada vez mais praticantes. Estamos à assistir ao reflexo da evolução da modalidade?

Sim, claramente. Há um crescimento muito grande mesmo. O número de atletas acaba por ser mais um fator positivo no futebol feminino. E há outras coisas. Sinto que os clubes procuram dar mais e melhores condições às atletas. Isso é muito bom e é um dos motivos que levam as mulheres a quererem praticar futebol. Existe uma aposta muito forte por parte da Federação Portuguesa de Futebol no futebol feminino. A Federação tem feito um trabalho incrível… Mas quer os clubes, quer os treinadores... todos os intervenientes têm feito tudo para dar mais e melhores condições às atletas. É o resultado da aposta que está a ser feita pela Federação, Associações e clubes. O crescimento é notório a todos os níveis.

"A certa altura olhava à minha volta e pensava: 'Não acredito que isto está a acontecer'"

A Federação Portuguesa de Futebol tem feito um trabalho notável para promover o futebol feminino. A final da Taça de Portugal – na qual esteve presente, ao serviço do Sp. Braga - foi disputada no Jamor e foi alvo de transmissão televisiva por parte da RTP. Foi especial jogar no Jamor?

Foi muito bom. Já tinha disputado outras finais da Taça mas esta foi, de facto, especial. Pela envolvência, pelo número de adeptos presentes, pelo ambiente criado pelas massas adeptas do Sporting e do Sp. Braga. Foi muito especial sem dúvida, foi um dia bonito para o futebol feminino. Ainda que tenha saído o Sporting vencedor, foi escrita uma bela página no Jamor. Fico contente pelo número de pessoas que se deslocou para ir ver um jogo de futebol feminino. Fiquei muito feliz. A minha época ficou marcada não só pelo regresso após lesão, mas por ter fechado desta maneira tão boa a nível de clube.

Estavam à espera de tamanha adesão? O que lhe passou pela cabeça quando entrou para o relvado para realizar os habituais exercícios de aquecimento? 

Eu estava um bocado expectante mas não estava à espera que fossem tantos [adeptos]… Não estava à espera de estar em campo e estar a ouvir os adeptos do Sporting e Sp. Braga assim tão alto. A certa altura olhava à minha volta e pensava: 'Não acredito que isto está a acontecer'. Realmente eram muitos, era a final da Taça num sábado mas foi muito especial. Muito mesmo. Não estava à espera assim de tanta gente, foi muito bom aquilo ter acontecido e tenho a certeza que vai voltar a acontecer. Penso que isto lança um desafio às outras equipas e fazer com que apareçam mais, não só na Taça, mas nos outros jogos dos futebol feminino.

Leia a segunda parte desta entrevista aqui

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