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"Tem condições para um dia treinar o FC Porto? Não tenho a mínima dúvida"

O Desporto ao Minuto esteve à conversa com António Folha, ex-técnico do Portimonense e das camadas jovens do FC Porto, e que almeja um dia chegar à cadeira de treinador principal do plantel azul e branco.

"Tem condições para um dia treinar o FC Porto? Não tenho a mínima dúvida"

António José dos Santos Folha é um dos nomes que aparece indubitavelmente associado à história do FC Porto. Como jogador, mas depois como treinador das camadas jovens, até chegar à equipa B, o portuense, natural de Vila Nova de Gaia, não esconde a ambição de um dia chegar ao banco de maior destaque no estádio do Dragão.

Ser técnico da equipa principal do FC Porto é um objetivo, assim como almejar uma das principais Ligas europeias. António Folha, agora sem clube, depois de abandonar o Portimonense no decorrer da última época, não esconde também o desejo de regressar ao ativo.

Numa conversa com o Desporto ao Minuto, o técnico de 49 anos saiu ainda em defesa de Jorge Jesus, no capítulo da formação, e deixou uma consideração importante do que seria a criação de uma Superliga europeia: "A morte da I Liga".

Depois de mais de uma década a treinar de forma ininterrupta encontra-se agora sem clube. Como é que está a viver este interregno?

Da forma mais tranquila possível. Já eram uns aninhos a treinar sem interrupções. Agora estou a ter oportunidade para fazer as coisas para as quais antes não tinha tempo, mas também não escondo que estar parado nunca é bom. Encaro tudo com naturalidade e acredito que o próximo projeto vai surgir quando tiver de surgir.

Pensa regressar ao ativo já no próximo ano? 

Aliás, já podia ter acontecido, até porque recebi alguns convites, mas, se calhar, não era o momento, e acabei por recusá-los.

Falamos de convites só no âmbito nacional?

Também recebi convites do âmbito internacional, mas é como disse... achei que não era o momento e, por isso, de uma forma tranquila saberei quando for altura de regressar ao ativo.

E pode saber-se o 'código-postal' de algum desses emblemas? 

[risos] Por respeito às instituições, não seria de bom tom dizer quais foram os clubes...

Mas a recusa de António Folha em aceitar esses convites deveu-se a questões financeiras ou pelo facto de serem projetos pouco aliciantes do ponto de vista desportivo?

Entroncou nas duas vertentes. Primeiro de tudo não quis aceitar um convite, porque surgiu logo no início da pandemia e estávamos na altura a entrar em confinamento, e depois deveu-se ao tamanho do projeto. Aliciava-me mais outro tipo de desafios e, neste momento, também estou a pensar muito no estrangeiro. 

O António Folha ainda tem o sonho de treinar numa das cinco principais Ligas?

Sim, claramente. Enquanto treinador propus-me sempre em estar ao mais alto nível e evoluir em clubes que me permitam ser, a cada dia que passa, um melhor treinador. Não há dúvida, mesmo não estando a trabalhar, quero e tenho a ambição de almejar desafios ainda maiores na minha carreira. Quero e desejo estar ao mais alto nível numa das grandes Ligas.

 Este ano, e sem público, talvez até seja um bem maior o Sporting não ter público nas bancadasTendo em conta a evolução do treinador português e um maior número de profissionais a trabalhar neste ramo, sente que pode, de alguma forma, ser um mercado com uma rivalidade cada vez maior e tornar-se cada vez mais difícil de entrar?

Não vejo muito as coisas por aí. Estou completamente de acordo em dizer que o treinador português é dos melhores à escala mundial. A nossa Liga, ao nível dos treinadores, é das mais competitivas do planeta. E noutros campos a nossa Liga também consegue ombrear com as melhores, muito por culpa do trabalho que o treinador português consegue fazer com um jogador a atuar  no nosso país. Não acredito que haja uma saturação do mercado ao nível de treinadores, mas acredito que existam muitos treinadores com competência sem trabalho.... e mais. Às vezes tenho a sensação que existe uma 'bolha' e para conseguir treinar é preciso estar dentro dela. 

Quando me fala em "bolha" estamos a falar de uma ligação estratégica entre treinadores e empresários?

[pausa] É normal... o mercado está assim. Em termos profissionais acho que os processos deviam ser bem consolidados por quem comanda e ver que tipo de treinador querem para as suas 'casas'. Devemos olhar única e exclusivamente para as suas competências...

E isso acontece sempre ou muitas das vezes é o interesse dos empresários que prevalece?

É normal que os empresários trabalhem em torno dos seus representantes e queiram fazer o melhor por eles. São as circunstâncias do futebol. Às vezes temos de nos habituar às circunstâncias e termos de ser nós (treinadores) a correr para estar dentro dessa bolha.

Eu posso dizer que Sérgio Conceição é o melhor, todavia há outros que se apresentam a um excelente nívelO treinador continua a ser, e a história assim nos relata, o primeiro alvo a 'abater' quando há uma sucessão de maus resultados. Esse paradigma algum dia vai mudar?

É mais fácil que seja assim. Esse paradigma é muito difícil de mudar, mas talvez seja possível melhorar. Acredita-se pouco no trabalho dos treinadores e devíamos trabalhar um pouco mais nisso. Talvez seja necessário subir os níveis de paciência e conhecer melhor o trabalho dos treinadores, a filosofia e os métodos que eles aplicam. Muitos julgam só pelo resultado, esquecendo quais são os métodos e as filosofias de cada um. O mais fácil é despedir e colocar um ponto final na relação, sem querer entender mais nada.

Há pouco o António Folha falava do nível da I Liga no que diz respeito à classe dos treinadores. Agora pretendia que estendesse um pouco mais essa análise a uma vertente mais global, tendo em conta até as circunstâncias que estamos a viver neste campeonato tão peculiar.

Claramente que, pelo que temos visto, verificamos que a falta de público tem-se traduzido, nomeadamente para os três grandes, numa quebra evidente do seu rendimento como equipa. O público que essas equipas puxam dá uma galvanização e um 'boost' de energia suplementar e que, noutras épocas, estava sempre lá. 

A classificação seria diferente da atual caso não estivéssemos em ano de pandemia?

Possivelmente. Posso estar errado, afinal não sou bruxo, mas na minha opinião podia estar diferente...

Todavia esta pandemia afecta mais a uns do que a outros. Como se explica o caso do Sporting (líder da classificação com 19 pontos)?

Face à instabilidade que o Sporting vivia nomeadamente ao nível da relação entre claques e a atual direção, às vezes, até se torna mais difícil jogar com público. No ano passado o Sporting sofreu bastante, até porque não é nada agradável ter os adeptos contra a sua equipa. Este ano, sem adeptos, talvez até seja um bem maior o Sporting não ter público nas bancadas.

Se a tão aclamada vacina não surgir tão cedo como se prevê e continuarmos sem público nas bancadas, esse factor pode condicionar o futuro campeão e quiçá sair da esfera dos vencedores das últimas duas décadas?

Sim, claramente que podemos. Este campeonato tem mostrado que Benfica e FC Porto estão a perder pontos onde não seria previsível. À margem disso, temos também um Sporting cada vez mais forte e um Braga que já é uma equipa tremendamente consolidada. Aliás, o Braga não esconde o objetivo de ser campeão e, nestas circunstâncias, acho que ainda se torna mais forte.

As deficiências dos três grandes ficam mais a nú sem público nas bancadas? 

Eu não diria deficiências, mas em situações mais adversas os futebolistas dos três grandes conseguem mostrar um 'plus' de qualidade por culpa do público. Os adeptos ajudam os futebolistas a transcender-se e a resgatarem um último pingo de esforço. A equipa une-se ainda mais e consegue derrubar as dificuldades com maior facilidade e não havendo público tudo fica mais difícil. Não nos esqueçamos que nós escolhemos entrar nesta modalidade por culpa do público, são eles que alimentam o futebol.

O António Folha já teve oportunidade de jogar no FC Porto, treinar as camadas jovens do emblema azul e branco e até chegou à equipa B. Falta apenas orientar a equipa principal. Ainda tem esse sonho? 

Qualquer treinador quando escolhe esta profissão tem o sonho de almejar um dia os maiores clubes e o FC Porto está nesse lote. Agora, sabemos nós, como treinadores, que são muito poucos os que lá chegam. Toda a gente sabe que eu cresci e joguei ao mais alto nível no FC Porto e não posso esconder o carinho que tenho por aquela casa.  Se me perguntar, se acredito que tenho condições para lá chegar? Não tenho dúvida nenhuma que as tenho.

Numa análise que possa fazer a outros treinadores que já passaram pelo FC Porto, acredita que já passaram treinadores com menos valências no comando técnico da equipa principal dos dragões?   

Olhando aquilo que foi a carreira sim, mas isso não invalida nada. Há treinadores que não tinham currículo antes de chegar ao FC Porto e que tiveram muito sucesso depois. Mas isto também se trata de uma questão de oportunidade e eu acredito que um dia posso chegar às melhores equipas. Se isso chegará? Não me compete a mim decidir. 

António Folha teve oportunidade de jogar ao lado de Conceição entre 1996 e 1998. Como era a sua relação com ele no balneário azul e branco?

Além de colegas, somos compadres. É muito fácil falar e lidar com o Sérgio. Ele como jogador sempre teve muito mau perder, mas isso é porque ele é uma pessoa que sempre quis subir a pulso. Falamos de um trabalhador nato, alguém que como treinador se copiou a papel químico de como era jogador.

Imagina Sérgio Conceição a romper o acordo que tem com o FC Porto para rumar a outro clube?

Há ciclos que se fecham e é raro um treinador ficar muito tempo à frente de uma equipa. Na minha opinião, o FC Porto tem muita sorte em ter o Sérgio Conceição, afinal ele conseguiu transformar os homens que lá estavam a jogar numa equipa muito competitiva.

Sérgio Conceição é o melhor treinador da I Liga?

É difícil responder a essa questão. Se olharmos para os que ganham direi que sim, se olharmos para as competências de cada um também direi que sim, mas também há outros muito bons. Eu posso dizer que ele é o melhor, todavia há outros que se apresentam a um excelente nível. Isso é como a eterna discussão entre Messi e Ronaldo, em que não se pode dizer que um é melhor do que o outro. 

A verdade é que nós dizemos que há certos jogadores que pertencem a uma elite que poucos almejam, como são os casos de Messi e Ronaldo. E o que é preciso um treinador para ser diferente dos demais e entrar nessa esfera tão especial?

Na minha opinião há um factor que pesa na balança. Nós olhamos para dois treinadores, há um que ganha e outro não, o que ganha vai ser sempre mais elogiado do que o outro. Nos treinadores não basta ter fantásticas qualidades, afinal também é preciso ganhar. E quem ganhar mais vezes vai ser considerado pela crítica melhor treinador. Quem ganha mais faz a diferença.

A sua última etapa foi no Portimonense. O que é que falhou na missão algarvia?

Foi normal e natural o que sucedeu. A equipa pode até estar muito perto de ganhar, mas quando não o consegue durante alguns jogos acaba por acontecer o inevitável. Claramente que fizemos um primeiro ano extraordinário, em que em dezembro estávamos perto dos lugares cimeiros. O Portimonense, nessa época, fez um excelente campeonato e potenciou os jogadores de uma forma incrível. Falamos de uma temporada (2018/19) que foi muito proveitosa. No segundo ano as coisas não aconteceram dessa forma. Todos tentámos dar o nosso melhor e quando os resultados não acontecem, o fim já está traçado. É a vida de um treinador.

A competência é o que impera no futebol e não acredito que Jesus discrimine lançar alguém por ser da formação ou pela idade que tem no bilhete de identidadeAceitou a demissão com tranquilidade ou, ao invés, sentiu um sentimento de injustiça?

Aceitei bem, afinal as coisas são como são. É fácil para mim aceitar este tipo de situações. Os treinadores não podem ser entraves, mas soluções para os clubes. Obviamente que não fiquei com mágoa de nada, afinal este tipo de situações, infelizmente, são normais. Depois de uma primeira volta muito difícil e um ponto abaixo da linha de água, a direção preferiu acabar um ciclo para iniciar outro. 

António Folha acredita que é mais fácil conduzir o dito 'pequeno' à salvação ou um dito 'grande' à conquista do título?

[risos] Acho tremendamente difícil tanto uma missão como outra. É mesmo muito difícil um objetivo ou outro. Só os melhores conseguem almejar esses objetivos e também é necessário ter um plantel com um grande espírito de sacrifício. Um espírito de sacrifício que não pode aparecer afastado do prazer. Estas duas armas são fundamentais para conseguir trabalhar nas melhores condições com um plantel, dia após dia, treino após treino. 

Saindo da esfera nacional e virando agulhas para um dos temas que domina o panorama internacional. Fala-se muito da criação de uma Superliga europeia e que reuniria os principais clubes das grandes Ligas do Velho Continente. Imaginando essa competição e uma I Liga sem os três 'grandes'  o que seria dos demais? 

Isso seria a morte da I Liga. Seria a riqueza de quem gere isso, afinal o lado económico sobrepõe-se ao lado desportivo. Se essa ideia avançar mais vale fecharem as portas do campeonato nacional, porque os outros clubes não têm capacidade para superar esse golpe. Tirar a essência maior da nossa I Liga e acabar com essa rivalidade, a I Liga nesse dia deixa de ser o que é e passa a ser um campeonato nacional de séniores.

As receitas são efetivamente o que permite à máquina dos clubes continuar ligada à corrente. Receitas que a médio e a longo prazo vêm do aproveitamento que se faz da formação. Quem tem para si o melhor 'berço' em Portugal?

É muito subjetivo responder a essa questão. Não interessa quem tem a melhor, mas quem sabe aproveitar melhor os seus recursos e nesse aspeto FC Porto e Benfica partem à frente dos restantes. O Sporting este ano também mostrou saber aproveitar bem os frutos da formação.

Jorge Jesus é muitas vezes criticado pela pouca aposta que faz na vertente interna do clube em prol de reforços já calibrados do panorama internacional...

Tem-se criado esse rótulo ao mister Jorge Jesus desde o caso Bernardo Silva, mas uma andorinha não faz a primavera. Na altura ele também potenciou muitos outros jogadores e que geraram uma receita brutal ao Benfica. Às vezes há talentos que escapam, mas isso acontece a todos os treinadores. Não o conhecendo pessoalmente, acredito que Jesus tendo um jovem de 19 anos da formação o vai pôr a jogar. Se o jovem for melhor do que o futebolista experiente não tenho a mínima dúvida de que o miúdo vai ganhar essa batalha. A competência é o que impera no futebol e não acredito que Jesus discrimine lançar alguém por ser da formação ou pela idade que tem no bilhete de identidade.

Pelas suas mãos já passaram centenas de jogadores, muitos dos quais na formação do FC Porto. Recorda com saudade alguns e que hoje já estão no panorama internacional?

Dalot e Rúben Neves são dois casos que não me esqueço e muitos mais. Outros até que estão no FC Porto como o Diogo Queirós e o Diogo Leite. Quando estes meninos chegam a estes patamares e os vejo a alcançar os seus maiores sonhos de carreira é um orgulho incomensurável que cresce no coração de um treinador. Participar nesse crescimento é algo que fica...

E pelo contrário? Guarda desilusão por algum talento que passou pelas suas mãos e se perdeu?

Há sempre talentos que se perdem e vão haver sempre. Há alguns casos, e como já vai algum tempo, não me lembro de muitos, mas houve jogadores com um talento acima da média que depois se perderam. Para estar no topo é preciso ter várias vertentes a top, nomeadamente a vertente psicológica. Além da componente técnica, física e táctica é preciso ter cabeça e muitos desviaram-se do seu caminho, porque não tinham força mental. E quando não se tem uma vertente psicológica forte perdem-se muito talentos. Por muitos psicólogos que os jogadores tenham, há futebolistas que têm muitas dificuldades em progredir. A cabeça devia apenas guardar o prazer do que se faz lá dentro, mas há várias influências externas que condicionam a chegada de um atleta ao topo.

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