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"Messi e Ronaldo? Acima de Maradona não há nada"

O lançamento do terceiro livro de Luís Freitas Lobo, ‘O futebol com que sonhei’, foi o pontapé de saída para uma interessante conversa sobre o desporto-rei e algumas figuras incontornáveis da história do futebol. O conhecido comentador desportivo analisou com o Desporto ao Minuto alguns temas da atualidade e não se escusou a criticar alguns "personagens" que, como o próprio indica, continuam a matar a sua paixão pelo futebol.

"Messi e Ronaldo? Acima de Maradona não há nada"
Notícias ao Minuto

08:33 - 03/12/19 por Ruben Valente 

Desporto Luís Freitas Lobo

'O futebol com que sonhei' é o terceiro livro de Luís Freitas Lobo. Um dos mais conhecidos comentadores desportivos em Portugal colocou no papel algumas das suas histórias mais pessoais e revelou muitos dos seus ídolos, dando também a conhecer ao grande público aquilo que mais o apaixona no desporto-rei.

Foi com base no lançamento da obra que o Desporto ao Minuto conversou com Luís Freitas Lobo, que não se escusou a responder a nada. Do ídolo Maradona, ao campeonato desnivelado que deveria ter apenas 16 equipas, o comentador desportivo contou-nos ainda que está triste com o “grau zero” que se atingiu no comentário desportivo em Portugal e que não descarta um cargo na estrutura de um clube, caso apareça a proposta certa. 

Aos 52 anos, o Luís lançou o seu terceiro livro, que se segue a ‘Os Magos do Futebol’ e ‘O planeta do futebol’. Para quem ainda não comprou ‘O futebol com que sonhei’, o que se pode esperar de diferente?

Este é um livro pessoal. Os outros eram livros de futebol noutras vertentes. Este tem a ver comigo, com a forma como eu comecei a gostar de futebol, a forma como vejo o jogo, os jogadores preferidos ao longo dos tempos, as viagens… É um lado pessoal. O livro começa antes de eu nascer. Porque eu nasci 17 dias antes de uma final da Taça dos Campeões Europeus (risos).

Vem no próprio prefácio que o Luís só não pensa em futebol durante 24 horas porque tem de dormir. Isto é literalmente assim?

(Risos) Não, claro que não. É uma brincadeira. Quem pensa só em futebol não consegue perceber o futebol. O futebol tem várias componentes que estão para lá do jogo em si. Envolve o comportamento humano e, para perceberes de futebol, tens primeiro de perceber de pessoas.

Neste livro fala de várias figuras do futebol que o foram marcando ao longo dos anos. Nem sempre se refere aos mesmos como jogadores de top mundial, mas por uma ou outra razão mereceram lugar de destaque no livro. Se tivesse que destacar apenas um, quem elegeria como o jogador que mais o marcou?

Tem de ser sempre o Maradona, é incontornável. No livro falo em muitos nomes, muitos deles se calhar desconhecidos do grande público, mas que me marcaram até hoje. Mas, claro, o Maradona foi o que mais me marcou a todos os níveis. Ele já deixou de jogar há 20 ou 25 anos e é lembrado todos os dias. É um Deus humano do futebol, sobretudo porque erra como todos e comete os maiores pecados. É como nós e não há nenhuma sublimação da perfeição. Agora, dentro do campo… ninguém jogou como ele, ninguém fez coisas como ele.

Nem Messi?

Não, nem coisa que se pareça. Acima de Maradona não há nada. O Messi e o Ronaldo são dois monstros na resistência que têm [ao mais alto nível] durante tantos anos. Acho impressionante, é brutal! Todos os jogadores de que gostei duraram três, quatro, cinco anos no topo. Até o próprio Maradona, a vida dele é e foi um circo. Porém, enquanto esteve no auge… Até o próprio Pelé. Não há  comparação possível. Eu adoro o Messi, mas não há comparação possível. Todos os dias são dias de Maradona, como escrevi no livro.

Pegando neste exemplo, o Luís fala também no livro em alguns jogadores que já terminaram as respetivas carreiras. Se pudesse trazer um de volta, no topo da sua forma, quem traria de regresso aos relvados? Se calhar agora já ficámos a saber a resposta...

Olhe, traria o Pelé, porque o Pelé não o vi jogar. O Maradona acompanhei a carreira toda. Tenho os jogos todos em Mundiais do Pelé, mas era mais para o ver ao vivo. Só por isso.

Notícias ao MinutoA capa do livro 'O futebol com que sonhei' © Contraponto

Na capa do livro encontramos o Riquelme. Há alguma razão em especial para isso?

Primeiro, o Riquelme a beijar a bola. Podia também ter sido a foto da segunda página do livro, onde está o Ronaldinho também a beijar a bola. Tinha de ser um jogador a beijar uma bola, isso estava definido. Depois, dentro disso, tinha de ser um jogador dentro do meu lado mais romântico de ver o jogo. Mas também incompreendido. E o Riquelme foi daqueles 10 que foi um pouco incompreendido. O futebol dele foi como se viesse de outro tempo. Quando ele veio para a Europa não o entenderam. O Van Gaal colocou-o a jogar na esquerda no Barcelona, depois foi para o Villarreal, uma equipa pequena, e meteu-a na meia-final da Liga dos Campeões. Depois falha o penálti que levava a equipa para prolongamento antes da final. É aquele número 10 incompreendido, à moda antiga, que para jogar bem não precisava de correr muito. O Riquelme, para mim, é o lado romântico do jogo e, simultaneamente, o lado incompreendido. A mim não me atraem muito as histórias de sucesso. Gosto das histórias de heróis, que por vezes não são eleitos os melhores do mundo, embora ele tenha ganho muito.

Além dos principais intervenientes, os jogadores, é também um apaixonado pelo jogo em si. Gosta de olhar para tudo o que envolve o processo tático das equipas, por isso pergunto-lhe: Como viu, desse prisma, o trabalho de Jorge Jesus no Brasil?

Vi, sobretudo, aquilo que esperava. A minha única dúvida era se lhe iam dar tempo, porque sabia que o início ia ser difícil e foi. Às vezes falo com ele e aquela altura foi mais complicada. Foram aqueles jogos com o Emelec, que ele perdeu, com o Bahia, que ele também perdeu. Se ele caía ali, acabava tudo. Portanto, ele precisava de tempo e só tinha de passar aquela fronteira de dois meses iniciais que eram terríveis. A partir daí, não tinha dúvidas de que ele ia marcar a diferença. Os métodos dele, a forma de treinar. Em comparação aos treinadores brasileiros – que também existem bons, atenção – há uma diferença grande e vi com naturalidade o sucesso dele. Não esperava uma diferença tão grande, isso não. Mas vi com naturalidade o sucesso e, além disso, o Flamengo hoje em dia tem umas condições de trabalho que são incomparáveis com os outros clubes do Brasil.

E no futebol português, que treinador é, no seu entender, o mais forte taticamente?

Não consigo dizer assim um nome. Cada um tem as suas características e qualidades e todos ganham e perdem. Os treinadores portugueses têm uma escola muito parecida, na linha da estratégia, de pensar o jogo. Os treinadores dos ‘grandes’ e, se quisermos, também o Sp. Braga, o Vitória SC ou o Rio Ave, são todos muito equivalentes. Posso ter uma preferência, pelo modelo de jogo, mas é pessoal e não pela avaliação de competências.

Acho que nós temos demasiadas equipas na I Liga e com diferenças de orçamentos brutais

Têm existido algumas críticas em relação à forma de jogar das equipas portuguesas esta temporada, principalmente no que diz respeito aos ‘grandes’. Concorda que o nível de futebol apresentado em Portugal está nivelado por baixo?

Se entendermos que o nível é o das equipas grandes, se elas estiverem a jogar a um nível baixo, aí posso dizer que sim. Mas equipas como o Famalicão, o Sp. Braga, o Vitória SC, o Rio Ave são equipas que têm uma boa ideia de jogo e aí não está nivelado por baixo. Não é pelos grandes estarem pior, neste momento em concreto, que se está a nivelar por baixo. Acho que se repete muito isso, mas nem por baixo está nivelado, porque continuamos a ver grande diferença entre as equipas. Acho que temos demasiadas equipas na I Liga e com diferenças de orçamento brutais. Depois há uma diferença enorme nas equipas em campo.

Deveriam, então, existir menos equipas no campeonato?

Eu gostava que tivéssemos condições para ter 18 equipas de nível de I Liga para formar um campeonato forte, mas não as há. Será que um campeonato com 16 equipas resolve? Não resolve, mas melhora um pouco. Não é só no campeonato principal, nas divisões inferiores também é uma confusão que ninguém percebe. Tantas equipas e depois acabam a decidir quem sobe a jogar aos penáltis. É uma coisa que não faz sentido nenhum. O quadro competitivo, na minha opinião, está desajustado da realidade social, desportiva e económica.

O que dizer de Bruno Fernandes? É um dos jogadores que vai deixar saudades de ver em Portugal?

Sem dúvida nenhuma, um craque a todos os níveis. Durante a maior parte do tempo, é o melhor jogador em Portugal, em alguns dias ou alguns jogos pode não ser o melhor, mas a maior parte do tempo do campeonato é ele o melhor. Ele até ultrapassa a própria equipa, acho que ele faz coisas a mais.

Notícias ao MinutoBruno Fernandes ao serviço do Sporting© Global Imagens

E o Raul de Tomas? Alguns adeptos definiram-no no início como o melhor avançado do Benfica, mas é o que até aqui soma menos minutos…

Eu escrevi muito sobre ele o ano passado e já o conhecia bem. É um jogador com um remate potente, um jogador com muita qualidade e que tem golo. Não entrou bem no nosso futebol, nem no Benfica. Mas, por amor de Deus, a época começou há três meses, estamos na 11.ª jornada… Hoje em dia o Gabigol é a grande estrela do Flamengo e passou por aqui meio ano. Nós aqui achamos que os jogadores são um flop com uma velocidade incrível. O Cristante, por exemplo, chega a Itália e joga nas melhores equipas, na seleção. Aqui, as pessoas acham que tem de se entrar e marcar logo quatro ou cinco golos. Não conheço a cabeça dele [Raul de Tomas], mas qualidade tem e se continuar a jogar vai marcar golos. Se não marcar 20, pode marcar 12 ou 13. Não tenho dúvida alguma sobre a qualidade dele. Se eu só visse o RDT que jogou cá em Portugal, dizia: ‘mas o que é isto?’. Como o conheço bem, sei que ele é um bom jogador e o Benfica também sabe.

Nakajima é talvez o mais tecnicista do FC Porto, um jogador que procura o espaço vazio e com uma visão de jogo acima da média. No entanto, parece ter pouco espaço no onze de Conceição, à semelhança do que aconteceu com Óliver, um jogador também ele de técnica muito apurada. Que opinião tem sobre isto?

Pede-se ao Nakajima para ir recuperar bolas, para ir atrás defender e fazer carrinhos. Mas, quer dizer, não vamos pedir ao Danilo para ir lá à frente, fintar três e fazer um remate ao ângulo. É que aos artistas exigem-se coisas que… têm de defender, é certo, mas no caso do Nakajima ou do Óliver não se sabe se o jogador se adapta a um estilo que não é o dele. Estar a pedir para ele fazer carrinhos, ir atrás defender e depois elogiá-lo muito? Para isso não comprava o Nakajima, ia buscar outro jogador, um operário ou um Gattuso qualquer. Custa-me entender os elogios a Óliver pelas recuperações que fazia… O jogador era bom é a fintar e a destacar-se no passe. Quero lá saber que ele agora seja um soldado. Fizeram de um artista um operário... grande coisa. Acho o Nakajima um grande jogador, mas não está a ser bem utilizado.

De uma forma mais geral, há ainda espaço para os jogadores mais técnicos, para aquele desígnio do ‘número 10’?

Acho que já não há espaço. Aquele médio centro que jogava quase de mãos nos bolsos, já não há espaço. No entanto, o espaço onde ele jogava continua lá. Se as equipas ocuparem o espaço de outra maneira, com jogadores a correr de um lado para o outro, com a língua de fora, a fazer carrinhos ou a marcar o pivot adversário, é uma opção.

Notícias ao MinutoRui Costa no Benfica, após o seu regresso de Itália© Reuters

Imagine, por exemplo, o Rui Costa sai hoje, em 2019, das escolas do Seixal, no Benfica. Iria conseguir fazer a mesma carreira?

Eu gosto sempre de dizer que o talento encontra sempre uma saída. Agora que iria ter mais dificuldades e se calhar iriam colocá-lo a jogar na esquerda, era bem provável. A maior dos jogadores que podiam jogar a número 10, hoje em dia são colocados a jogar sob o flanco. Mas acho que iria ter a mesma carreira, aquele espaço no campo continua lá. Falámos há pouco no Bruno Fernandes e ele, por exemplo, frente ao PSV, jogou quase a ‘10’ e foi uma coisa de outro mundo. Esse tipo de jogador tem de jogar mais perto da área adversária do que da sua própria área.

Este ano parece que os comentários de dirigentes sobre assuntos extra-futebol tem acalmado. Ainda assim, acha que todo o burburinho extra-campo é prejudicial ao jogo e ao espetáculo em si?

Claro que é. Sobretudo pela promoção que se faz. Há alguns programas que temos que atingem o nível zero, a nível de comentário desportivo em Portugal. Ainda há algumas ‘aldeias gaulesas de resistência’, ou seja, alguns programas de qualidade, mas acho que atingimos o grau zero. Vejo personagens a aparecer na televisão que é um susto. Na televisão, nas redes sociais, na rádio, em todo o lado. Debaixo de uma pedra sai um. Atingimos o nível zero a dar palco a pessoas que não gostam do futebol, que fazem mal ao futebol.

Isso pode estar relacionado com a falta de cultura desportiva que há em Portugal?

Nem é falta de cultura desportiva. É falta de cultura, ponto. Se as pessoas falam tão mal disto, que vão fazer outra coisa. São parasitas do futebol. São desonestos, caluniam, mentem.

Enquanto as coisas estiverem assim no nosso campeonato, nem quero conversa

No final da época passada disse, e passo a citar: “estão a matar a minha paixão pelo futebol”, e deixou de comentar jogos em direto entre equipas portuguesas. O que lhe pergunto é se ao dia de hoje esse seu pensamento ainda perdura?

Aquilo que disse na altura foi sucinto e é isso mesmo. Estão a matar minha paixão porque atingimos o nível zero. Depois não há como fugir aos critérios editoriais das televisões que vão atrás dessas pessoas. Atenção, não estou a falar do adepto anónimo, estou a falar de responsáveis de clubes e algumas televisões. Enquanto as coisas continuarem assim, estou fora. As pessoas podem concordar ou não com o que eu digo, não sou dono da verdade. Agora, estar num sítio em que não há o mínimo de respeito… Prefiro comentar o Tottenham, a Juventus, as equipas portuguesas nas ligas internacionais, seleção. Enquanto as coisas estiverem assim no nosso campeonato, nem quero conversa.

É um dos mais conhecidos comentadores desportivos do nosso país, mas chegou a confirmar que Bruno de Carvalho o convidou para diretor desportivo do Sporting. Acabou por não ir. Porquê?

Não foi bem para diretor desportivo. Foi para a estrutura de futebol que ele estava a montar. É verdade, isso foi público, falámos várias vezes. Achei que não estavam reunidas as condições. Gostaria muito de ter ido, sim, mas achei que a conjuntura que estava criada não era a indicada para aplicar as minhas ideias, com todo o respeito pelas pessoas que lá ficaram, com quem continuo a dar-me muito bem. Não deu, tive muito pena, porque também falávamos de um grande clube.

E será que ainda o vamos ver do lado de ‘dentro’? Isto é, na estrutura de um clube?

Não sei, não coloco de lado essa hipótese. Era uma coisa que podia fazer sentido na minha vida, um desafio interessante se aparecesse. Mas uma coisa é certa: a ir, vou com as minhas ideias. Ganhar ou perder, mas com as ideias dos outros não. Se me aparecesse uma coisa interessante, ponderando tudo, era um desafio sim.

Antes de terminarmos, o livro que apresentou foi o seu terceiro. Já está a pensar ou já tem ideias para um próximo livro?

Ideias tenho. Mesmo quando estava a trabalhar neste, já tinha ideias para outro. Ideias tenho sempre… Tenho é de ter tempo, que é aquilo que não controlo.

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