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Abdulrazak Gurnah escreve pela necessidade de manter a memória do passado

O escritor Abdulrazak Gurnah começou a escrever por prazer, nas salas de aula da sua infância, mas, anos mais tarde, durante um período de pobreza em Inglaterra, as memórias traumáticas do passado colonial impuseram-se e o prazer transformou-se numa tarefa.

Abdulrazak Gurnah escreve pela necessidade de manter a memória do passado
Notícias ao Minuto

20:41 - 07/12/21 por Lusa

Cultura Escritor

O Prémio Nobel da Literatura deste ano proferiu hoje uma conferência sobre literatura, promovida pela Academia Sueca, transmitida em 'streaming', em que falou do seu processo de trabalho e da forma como a sua infância, a sua vida e a história política e social da sua terra natal, Zanzibar, na Tanzânia, marcaram e moldaram a sua escrita.

Nesse discurso de aceitação do prémio, Abdulrazak Gurnah começou por recordar como na infância escrever sempre foi um prazer, mesmo nos tempos de escola, quando "aguardava com maior expectativa" as aulas em que podia escrever histórias.

Nessa altura, "não havia qualquer desejo de dizer algo em particular, evocar uma experiência memorável ou expressar uma opinião fortemente sustentada" e a experiência da escrita não requeria outro leitor para além do professor, que tinha como única intenção melhorar as capacidades discursivas dos alunos.

"Eu escrevia porque era instruído a escrever e encontrava prazer nesse exercício".

Anos mais tarde, quando ele próprio se tornou professor, teve a experiência reversa, mas mesmo nesta altura a escrita não era, como se lhe afigurou mais tarde, "conduzida, dirigida, trabalhada, reorganizada infinitamente".

"Neste esforço, escrevi em linha reta, por assim dizer, sem muitas hesitações ou correções, com uma total inocência. Também lia com um certo abandono, similarmente, sem qualquer direção, e não sabia, na altura, quão conectadas estas atividades estavam".

No entanto, recorda como a escrita e a leitura que vieram mais tarde se tornaram "um uso e não um prazer - gradualmente tornaram-se um tipo diferente de prazer".

"Não me apercebi disso completamente até viver em Inglaterra. Foi lá, com saudades de casa e entre a angústia de uma vida mais estranha, que comecei a refletir em muito mais coisas que nunca tinha considerado anteriormente. Foi durante esse período, esse longo período de pobreza e alienação, que comecei a desenvolver um novo tipo de escrita. Tornou-se claro para mim que havia algo que tinha de dizer, havia uma tarefa a cumprir, lamentos e mágoas que tinham de ser extraídos e considerados", contou o escritor.

Num primeiro momento refletiu sobre o que deixara para trás.

Abdulrazak Gurnah nasceu (em 1948) e cresceu em Zanzibar.

Após a libertação pacífica do domínio colonial britânico, em dezembro de 1963, Zanzibar passou por uma revolução que, sob o regime do Presidente Abeid Karume, levou à opressão e perseguição de cidadãos de origem árabe, e à ocorrência de massacres.

Abdulrazak Gurnah pertencia ao grupo étnico vitimizado e, depois de terminar a escola, foi forçado a deixar a sua família e a fugir do país, a recém-formada República da Tanzânia. Tinha então dezoito anos de idade, e só em 1984 lhe foi possível regressar a Zanzibar.

"Um profundo caos caiu sobre as nossas vidas nos anos [19]60, em que o que era certo e errado estava obscurecido pela brutalidade imposta pela revolução em 1964: tensões, execuções, expulsões intermináveis indignidades e opressões".

Gurnah reconhece hoje que no meio daqueles eventos era impossível pensar com clareza sobre as implicações históricas do que estava a acontecer.

"Foi só nos primeiros anos em que vivi em Inglaterra que fui capaz de refletir sobre esses assuntos, de me debruçar sobre a fealdade do que éramos capazes de infligir uns aos outros, revisitar as mentiras e ilusões com que nos confortámos. A nossa História é silenciosa sobre muitas crueldades, a nossa política foi racializada e conduziu diretamente às perseguições que se seguiram à revolução, quando pais foram assassinados à frente dos seus filhos, e filhas foram atacadas em frente das suas mães".

"Viver em Inglaterra, longe destes eventos, e ainda assim profundamente perturbado por eles na minha mente, pode significar que estava menos capaz de resistir ao poder dessas memórias do que se estivesse a viver entre as pessoas que ainda estavam a viver essas consequências", acrescentou.

Mas Gurnah sentia-se também perturbado por outras memórias, que não estavam relacionadas com estes eventos: crueldades que os pais infligiam aos seus filhos, a forma como era negado às pessoas a possibilidade de se expressarem plenamente por causa de dogmas sociais ou de género, a iniquidade que tolera a pobreza e a dependência.

Abdulrazak Gurnah começou então a escrever sobre algumas destas reflexões, "não de uma forma ordenada ou organizada, só pelo alívio de clarificar um pouco algumas das confusões e incertezas" na sua mente.

"Com o tempo percebi que algo mais profundo estava a acontecer. Eu sabia que a história estava a ser construída, transformando e até mesmo obliterando o que aconteceu, reestruturando-se para servir as variações do momento".

Por isso, tornou-se-lhe "necessário recusar essa história, que desconsiderava os objetos materiais que testemunham os tempos anteriores, os edifícios, as conquistas e a tenacidade que tornou a vida possível".

Muitos anos mais tarde, quando regressou a Zanzibar, caminhou nas ruas da cidade onde cresceu, e viu "a degradação de coisas e lugares e as pessoas que lá viviam e que perdiam a memória do passado".

"Tornou-se necessário fazer um esforço para preservar essa memória, escrever o que lá havia, resgatar os momentos e histórias que as pessoas viveram e através das quais se compreendem a si próprias. Foi necessário escrever sobre as perseguições e crueldades, as quais os autoelogios dos governantes ameaçam limpar da nossa memória", considerou.

Mas havia ainda um outro entendimento da história necessário compreender, que se tornou claro para o escritor em Inglaterra, mais ainda do que quando passou pela sua "educação colonizada" em Zanzibar.

Assinalando que todos os da sua geração foram crianças do colonialismo, de uma forma que nem os pais nem os que vieram depois são, Gurnah recorda que cresceram e foram educados naquele "período de alta confiança imperial, quando a dominação se disfarçava com eufemismos" e todos concordavam "com esse subterfúgio".

"Os que vieram depois de nós, na era pós-colonialista, talvez não vejam tão claramente como o colonialismo transformou as nossas vidas, como a desgovernação e a corrupção são parte desse legado colonial".

Abdulrazak Gurnah contou que muitas destas coisas se tornaram claras em Inglaterra, porque ganhou um maior entendimento sobre como alguém como ele figura em algumas histórias, "tanto na escrita como no discurso casual, nas piadas racistas na televisão, na hostilidade gratuita sentida em encontros, em lojas em escritórios, no autocarro".

"Eu não podia fazer nada quanto a essa receção, mas à medida que comecei a conseguir ler com maior entendimento, cresceu um desejo de escrever e recusar o egoísmo de pessoas que nos desprezaram".

Para Gurnah, a sua escrita é, no fundo, sobre a vida humana, e daí emerge a crueldade, o amor, a fraqueza, a ternura e a capacidade de bondade.

"Milagrosamente, uma parte do prazer em escrever, de que falei no início, ainda está lá ao fim de todas estas décadas".

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