Meteorologia

  • 23 OUTUBRO 2021
Tempo
16º
MIN 13º MÁX 25º

Edição

História das revoltas contra o império dão outro lado da memória colonial

Um novo livro concentra histórias da resistência contra o colonialismo português, uma obra coordenada pela historiadora Mafalda Soares da Cunha, que quer ajudar rever a historiografia tradicional, baseada apenas nas virtudes do império.

História das revoltas contra o império dão outro lado da memória colonial
Notícias ao Minuto

10:08 - 28/09/21 por Lusa

Cultura Literatura

O objetivo é juntar, numa série de pequenos artigos, a "visão dos sem voz, das personagens mais anónimas, menos reconhecidas pela historiografia tradicional", explicou à Lusa a historiadora, reconhecendo que a obra se inscreve numa tendência da historiografia recente de dar uma perspetiva mais abrangente que a tradicional, marcada pelo lusotropicalismo e pelo discurso da excecionalidade do império português.

A opção por obras com a visão dos subjugados "não é por causa do reino do politicamente correto ou da importação de agendas de investigação de outros países", explicou a historiadora, docente na Universidade de Évora. Contudo, "eliminar ou não incorporar na análise dos processos sociais e históricos" -- os subjugados ou o outro -- faz com que "perca precisão, rigor e também a complexidade".

Para a investigadora e coordenadora de um projeto de investigação europeu sobre a resistência aos impérios ibéricos, o olhar centrado em quem foi derrotado permite outro tipo de análises da "maior complexidade e interdependência dos atores históricos".

Estes novos olhares da historiografia portuguesa, em linha com o que sucede noutros países, também está a acontecer nas ex-colónias do império: "Os países de expressão portuguesa estão a fazer a sua análise e têm hoje uma maior perceção da complexidade da sua história", reconheceu, embora admitindo que esse "trabalho está bastante menos desenvolvido do que aqui em Portugal".

Mafalda Soares da Cunha admitiu que este olhar alternativo traz também novas críticas e os "historiadores são acusados de antipatriotismo e de quererem desfazer a grandiosidade do passado pátrio". Ora, "problematizar e acrescentar complexidade não significa desqualificar o que foi feito".

Mais do que novas fontes, este tipo de historiografia procura olhar para a documentação com outro olhar: "os arquivos são espaços de memória construídos pelo poder dominante" e "há que reler num treino que os historiadores vão tendo de que a mesma fonte pode ser lida de múltiplas maneiras".

Adicionalmente, cruzam-se outros olhares transdisciplinares, como a arqueologia ou a etnologia.

Sobre o livro, Mafalda Soares da Cunha espera que a obra tenha aceitação, porque inclui "temas muito diversificados" e "pode ser uma leitura agradável, com entrada em vários grupos de leitores".

O livro "Resistências -- Insubmissão e Revolta no Império Português" chega hoje às livrarias e inclui 50 histórias de insubmissão ou rebeldia ocorridas em territórios sob domínio português entre 1500 e 1850.

"Os protagonistas destas páginas são pessoas discriminadas em função do seu género, religião, etnia, raça, ou nível de riqueza, revelando Portugal e o seu império como um espaço onde circulavam leis e formas institucionais, mas também ideias subversivas, ao longo de três séculos e meio", refere a editora Leya.

Revoltas de escravos e indígenas, perseguições a judeus, hereges ou cristãos, protestos de mulheres e de colonos ou os primeiros ensaios independentistas são retratados na obra, que inclui a assinatura de três dezenas de historiadores de vários países.

PJA // VM

Lusa/Fim

Recomendados para si

Seja sempre o primeiro a saber.
Quinto ano consecutivo Escolha do Consumidor para Imprensa Online.
Descarregue a nossa App gratuita.

Apple Store Download Google Play Download

Campo obrigatório