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Confinamento foi "um privilégio para fazer aquilo que mais amo: criar"

Paulo Praça é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto e o seu mais recente livro-disco, 'Onde', o tema desta conversa.

Confinamento foi "um privilégio para fazer aquilo que mais amo: criar"
Notícias ao Minuto

09:35 - 30/10/20 por Andrea Pinto 

Cultura Paulo Praça

Nasceu em março de 2017, num quarto de hotel em Nova Iorque, a ideia de lançar um projeto em homenagem à sua terra natal. Dali, a quilómetros de distância de casa, escreveu aquele que seria o espoletar de um projeto multifacetado, que fala sobre Vila do Conde, mas que poderia falar sobre outro sítio qualquer.

‘Onde’, de Paulo Praça, é o projeto mais "identitário" do artista, conhecido também pela participação no projeto 'Amália Hoje' ou pela colaboração com os The Gift. No novo trabalho a solo, o músico fala sobre memórias, sentimento e saudade, aquela saudade que sentimos quando estamos longe do sítio onde nascemos, crescemos e vivemos. E Paulo, por andar sempre com a sua vida numa mala, sabe bem o que isso é e nunca se esquece de levar nela um pouco daquilo que é também seu: Vila do Conde.

O projeto, a que a pandemia veio dar o tempo necessário para torná-lo em algo que transcende tudo o que Paulo Praça tinha imaginado, conta com uma mão cheia de contributos, de José Régio a Valter Hugo Mãe, passando por José Cid, Fausto Bordalo Dias, Cesário Alves e Paulo Pinto.

Confira a conversa que Paulo Praça teve com o Notícias ao Minuto e conheça melhor este projeto.

Lançou recentemente o videoclipe do tema 'À Beira-mar', mas vamos recuar um pouco a setembro, ao lançamento do livro-disco ‘Onde’, da qual faz parte esse tema. Em que é que consiste este projeto e como é que nasce?

Nasce num quarto de hotel, em Nova Iorque, em março de 2017, com uma guitarra que levo sempre comigo quando ando em digressão. Foi aí que escrevi o refrão do romance de ‘Vila do Conde’, que é um dos poemas mais emblemáticos sobre a cidade de Vila do Conde, assistido pelo José Régio. E é aí que, quando regresso a Portugal, começo a pensar na ideia de poder inspirar-me na cidade. Isto porque nos últimos dez anos tenho passado muito tempo fora - porque toco com os The Gift e eles têm muitas digressões no estrangeiro - e sempre que regressava, o sentimento que ia ganhando era um sentimento de me sentir apaixonado no regresso. Ou seja, quando voltava, a vontade era sempre muita e o sentimento de estar de volta era sempre bom. E, nesse dia, ganhou forma a ideia de poder avançar para um disco ou pelo menos fazer uma série de canções inspiradas na cidade.

A partir daí, comecei um trabalho de pesquisa em que facilmente cheguei ao Ruy Belo e ao José Coutinhas, porque queria também perspetivas diferentes [sobre a cidade], porque o José Régio foi alguém que nasceu e cresceu aqui, e tem um poema bastante descritivo, com uma força poética incrível, tanto que um dos momentos de que eu mais gosto [no álbum] é logo aquele início em que o Fausto (Bordalo Dias) canta “Abria de manhãzinha, As vidraças de par em par, Entrava o mar no meu quarto, Só pelo cheiro do ar”, porque efetivamente Vila do Conde é mesmo assim, o cheiro do mar entra-nos pela casa dentro. E depois, como é óbvio, chego também ao meu colega de sempre, o meu parceiro Valter Hugo Mãe, que também já tinha um poema que se chamava ‘Vila do Conde, Vila do Conde’. Depois, com uma pesquisa cheguei ao Renato Maia e depois fiz duas encomendas, curiosamente, que foi o ‘À Beira-mar’ e ‘A Minha Terra’ - uma ao meu Simão (Praça) e outra ao Jorge Cruz

Entretanto, as letras e os poemas acabam por ganhar uma vertente visual.

Quando começo a perceber que a poesia ocupava um espaço grande quis privilegiá-la e achei que não fazia sentido fazer só um CD. Ter só aqueles poemas ali não lhes dava aquilo que eles mereciam e aí parti para a ideia de um livro. E quando isso acontece, e porque gosto muito de fotografia, falei com um amigo de longa data, o Cesário Alves, que é um fotógrafo que tem o melhor dos dois mundos porque está ligado ao arquivo municipal de Vila do Conde e ao mesmo tempo é alguém que tem uma vertente experimental. E aí partimos para a ideia de o livro não ser só um livro. Era um disco, que passa a ser um livro, mas não só de poesia como também de fotografia. Para além das imagens de Cesário, tem imagens de arquivos, imagens da minha família, e fizemos umas experiências na casa José Régio em Vila do Conde e não só.

E depois, isto ainda ganha uma dimensão maior, que aí me transcende e me ultrapassa, quando por sugestão do Cesário decidimos documentar as experiências que andávamos a fazer. É então que surge o Paulo Pinto e acabamos por evoluir para um video-disco, porque ele quando documenta cada canção é como se criasse uma poesia visual para acompanhar cada uma.

Há uma coisa para mim muito importante, sinto-me privilegiado todos os dias, e o que mais me motiva é o ato de criar. Só isso para mim é maravilhoso

Diz que este é um dos projetos mais bonitos que fez até hoje - em termos estéticos e artísticos. Tem a ver com esta questão que acabou por o transcender? O que é que o distingue dos restantes?

O que este álbum tem mais de distinto dos anteriores é que acaba por ser, por um lado, um regresso ao passado, e por outro, é seguramente o álbum mais identitário que fiz até hoje. Há uma canção que é o ‘Amor num acordeão’ que acaba por ser biográfica, porque descreve um dia na minha infância, e ao mesmo tempo é uma dicotomia que eu vivi com a religião católica, porque eu tive uma educação profundamente católica em que os meus pais me obrigavam a rezar o terço todos os dias e, ao mesmo tempo, davam, aos domingos, o almoço a um senhor ceguinho, que era o senhor Sebastião. Ele era religioso, almoçava connosco e tocava acordeão. E lembro-me de essa imagem me ter marcado. 

Este álbum tem uma grande carga emocional. Há uma coisa para mim muito importante e é o que mais me motiva que é o ato de criar. Só isso para mim é maravilhoso. E quando esse ato consegue mexer com a parte emocional, mexer com as memórias - e este disco também é muito feito de memórias essenciais - é aí que a verdade, aquilo que eu mais prezo na arte, atinge uma dimensão maior e que se difere dos outros. Na verdade, a essência é a mesma: é um disco de canções. Mas onde se pode dizer que é diferente é na questão de ser identitário.

Nós somos, de alguma forma, da terra de onde somos e de onde habitamos. Por acaso, é Vila do Conde mas podia ser o Porto, Lisboa, Nova Iorque (...) Por isso é que chamo o álbum de ‘Onde’, precisamente porque pode ser sobre outro sítio qualquer

Tratando-se de um álbum tão identitário e sendo as músicas tão descritivas sobre a cidade, como é que o público em geral se pode identificar com este trabalho, mesmo não sendo ou não conhecendo Vila do CondeQuando o produziu pensou nisso ou quis focar-se essencialmente no público da sua terra?

Não, porque acho que este sentimento é um sentimento universal. Aquilo que Valter Hugo diz no prefácio faz todo sentido: Nós somos, de alguma forma, da terra de onde somos e de onde habitamos. Por acaso, é Vila do Conde mas podia ser o Porto, Lisboa, Nova Iorque… uma cidade qualquer. O sentimento – que pode ser de alguém que nasceu, cresceu ou que veio viver para cá – é um sentimento que passa a ser alguma coisa cardíaca, uma coisa que entra dentro de nós e que acaba por ser um sentimento único e que eu acho que nós só sentimos quando nos identificamos com um sítio. Por isso é que eu o chamo ‘Onde’, precisamente porque pode ser sobre outro sítio qualquer.

O Paulo conta que este projeto nasceu a partir de um quarto de hotel, em Nova Iorque, e curiosamente conta com a participação de José Cid, artista que há anos dizia “que havia neve em Nova Iorque, e que lhe fazia falta o seu país”. É uma coincidência ou há de facto uma saudade que nos inspira quando estamos longe?

É curioso. É uma questão muito pertinente porque curiosamente nevava no dia em que eu estava naquele dia em Nova Iorque. Já tive o privilégio de ir várias vezes a Nova Iorque e curiosamente a única vez em que nevou foi dessa vez. Eu estava no quarto, e estava a gravar uma versão do “I’ll be you’re mirror’, dos Velvet Underground, para disponibilizar no meu Instagram, e depois disso lembro-me de olhar para a neve a cair e veio-me `a memória a minha cidade, a minha Vila do Conde. É curioso porque quando passamos muito tempo fora, há uma altura, sobretudo quando estamos sozinhos, em que fazemos isso. E foi o que aconteceu: eu estava a contemplar a neve, que é uma imagem muito bonita - estou a falar e a lembrar-me perfeitamente da imagem do manto branco que estava nesse dia… E é curioso porque nunca tinha pensada nisso… 

Até porque o José Cid chega aqui até de uma forma diferente. Ele chega a este disco pelo amor e paixão que eu tenho pelos Beatles. O tema ‘Amor no acórdão’ é aquele que mais se identifica com os Beatles e o Cid chega aqui por causa disso e por causa do Sr. Sebastião porque eu associei Beatles – Sr. Sebastião – José Cid. Mas é curioso essa questão da cidade de Nova Iorque…

Apesar de a minha vida ser uma mala, eu levo sempre comigo pedaços de Vila do Conde para todo o lado e acabo por trazer de volta aquilo que vou vivendoPrecisamente porque é uma cidade arrebatadora e mesmo estando nela sentimos saudades do nosso canto, às vezes tão pequenino, como neste caso Vila do Conde.

Exatamente, é aquela ideia de que, apesar de a minha vida ser uma mala, eu levo sempre comigo pedaços de Vila do Conde para todo o lado e acabo por trazer de volta aquilo que vou vivendo, pelos sítios por onde passamos.

E as memórias que nos transmite neste livro-disco são apenas boas?

Quando falo nessa dicotomia que vivi é uma má memória. O facto de ser obrigado a rezar o terço não era uma coisa boa. Na altura, não tinha hipótese de fazer nada, ainda por cima aquilo era quase uma experiência traumatizante porque chegava da escola às 18h, fazia os trabalhos de casa, tinha uma hora para ir para a rua brincar e depois tinha de ir rezar o terço, mas continuava a ouvir os miúdos a brincar. O mais traumatizante era isso: eu era o único que tinha de ir para casa para rezar. Tentava que aquilo fosse algo estimulante e na verdade posso dizer que ainda hoje sei os mistérios todos de cor.

Mas já não reza o terço?

Já não. Aliás, desliguei-me completamente da religião católica. Tenho um respeito enorme pelas crenças individuais mas desliguei-me completamente, que acho que seria o mais natural.

Voltando ao álbum e a algo que já referiu anteriormente, o prefácio de Valter Hugo Mãe. Nesse texto ele dirige-lhe palavras elogiosas, referindo que consigo “o trovar voltou a ser belo e que as suas canções são as palavras de muitos, mas que só o Paulo tem a capacidade de as dizer em melodias límpidas”. É isso que sente quando canta?

Fiquei muito lisonjeado com a descrição e essas palavras porque eu tenho aquela ideia de que quando faço as canções elas deixam de ser minhas, elas são para as pessoas que acabam por alguma forma por se identificar com elas ou por marcar algum momento especial da vida delas. É esse o efeito que as canções têm em mim. Ainda hoje, quando oiço canções que me marcaram, e foram muitas, sei exatamente onde é que estava quando ouvi determinada canção e o que é que ela me fez, está sempre associada a uma memória. E essa imagem que o Valter cria é maravilhosa e muito gratificante para mim, por saber que ele me tem nesse lugar e que sentiu as canções dessa forma.

O desafio é sempre chegar a um sítio onde não estive ou atingir a perfeição que sei que nunca vou atingir. E acredito que o facto de ter estado confinado pode ter beneficiado a arte e o processo criativo (...). Este projeto acabou por se tornar tão ambicioso porque havia uma disponibilidade que não costuma existir

‘Onde’ é um Livro-CD, que tem um vídeo-disco e que em setembro foi apresentado num filme-concerto. O Paulo é um artista que não se contenta com pouco naquilo que faz e por isso é que este é também um projeto tão multifacetado?

Eu, como artista, tento sempre, de alguma forma, transcender-me. O desafio é sempre chegar a um sítio onde não estive ou atingir a perfeição que sei que nunca vou atingir. E acredito que o facto de ter estado confinado pode ter beneficiado, nesta altura, a arte e o processo criativo porque tive uma disponibilidade e um foco que nunca tive a esse nível. E este projeto acabou por se tornar tão ambicioso porque havia uma disponibilidade que não costuma existir.

Por exemplo, costumo passar o verão todo a tocar. E este verão isso não aconteceu. Eu tive de semear e ao fazê-lo tive um foco. Aliás, sou muito focado naquilo que faço e sou muito perfecionista, no bom sentido, não no sentido técnico mas artístico e estético. E quando tenho o privilégio de ter pessoas que têm um domínio incrível na sua arte, que é o caso do Cesário Alves e do Paulo Pinto, e depois ainda o Hélder Luís, que fez um design impressionante com este livro-disco, tenho a felicidade de ter uma banda incrível e ainda o alto patrocínio da Câmara Municipal e da fundação GDA. Isso permitiu-me levar este projeto a um sítio incrível.

E o filme concerto acontece porque cheguei a uma altura em que pensei: se há uma vídeo-disco então pode fazer sentido eu cantar, se não a maioria das canções, pelo menos algumas, ao vivo. E no dia em que foi o lançamento assim foi, fizemos um filme-concerto e gostámos tanto que esse será o formato em que vamos apresentar agora este livro disco.

Este álbum ajudou-o a superar o confinamento?

Definitivamente. Não havia outra forma de o fazer. Acho que quando as coisas acontecem devemos tentar tirar o melhor proveito delas. E posso dizer que nunca tinha passado tanto tempo nas férias com a minha filha como fiz este ano. Acabou por ser um prazer e privilégio ter este tempo para fazer aquilo que eu mais amo, que é criar.

'Onde' foi lançado em setembro, e agora lança o videoclipe 'à ‘Beira-Mar’. Refere neste tema que “Não lhe falta nada quando ando à beira mar”, este foi um dos seus refúgios durante a pandemia?

Foi definitivamente. É sempre! Se há uma coisa que me revitaliza é o mar. Passear à beira-mar ou só sentir o mar já é incrível. Há uma altura em que, efetivamente, o vento faz entrar o mar nas nossas casas, mas quando isso não acontece, só um passeio à beira-mar já me faz sentir que não me falta nada. Felizmente, e apesar das águas aqui no Norte serem um pouco frias, sempre que posso, pode ser só meia hora do meu dia, banho-me no mar porque é uma sensação única e nada me dá o que um banho no mar de Vila do Conde me dá. E essas palavras são mágicas porque o Jorge também foi alguém que nasceu em Aveiro, à beira-mar, e ele conseguiu trazer para este livro-disco essa sensação única. E no fundo, o videoclipe acaba por refletir isso. Não deixa de ser mais do que uma contemplação à grandiosidade e ao poder que o mar tem.

Comecei a pensar neste disco muito antes de isto ter acontecido mas acho que esse sentimento acaba por estar presente porque definitivamente esta pandemia veio mostrar-nos que é nas coisas simples que está a beleza e a essência daquilo que somos e do que é efetivamente importanteHá quem diga que esta pandemia ajudou-nos a perceber o que é realmente importante. É também por isso que este disco fala tanto sobre o amor à terra natal, à forma como nos sentimos no sítio onde crescemos, e no bom que é regressar sempre a esse lugar?

Acho que sim. Comecei a pensar neste disco muito antes de isto ter acontecido mas acho que esse sentimento acaba por estar presente porque definitivamente esta pandemia veio mostrar-nos que é nas coisas simples que está a beleza e a essência daquilo que somos e do que é efetivamente importante. E veio mostrar-nos que o mais importante disto tudo é sermos bons uns com os outros e não deixar ninguém para trás.

Fico feliz com o sucesso dos meus colegas. Sempre que algum colega meu ou artista consegue abrir uma porta, está a abri-la para mim também e acho que isso é essencialNuma altura particularmente delicada para todos os artistas, e em que se acusa o Governo de estar a dar poucos apoios à área, significa isso que os artistas devem estar mais unidos e apoiar-se mais nesta fase?

Sempre vivi nesse espírito de partilha e entreajuda. Fico feliz com o sucesso dos meus colegas. Sempre que algum colega meu ou artista consegue abrir uma porta, está a abri-la para mim também e acho que isso é essencial. Se eu puder, com este disco, fazer muitos concertos, em muitos teatros do país,  vou estar não só a levar cultura a muitas pessoas como a pôr a minha equipa a trabalhar, equipas de teatro a trabalhar e a pôr o meio a rolar, que isso é que é importante. Os apoios são sempre bem-vindos mas tenho sempre uma postura na minha vida que vem dos meus avós, que sempre me disseram que era "preciso semear para colher". E por isso não fico à espera dos apoios, embora os considere importantes.

E o que se segue agora? Que novos projetos e que novas formas de se reinventar tem em mente para continuar a fazer arte neste novo panorama social em que vivemos?

Neste momento, estou agora a começar a marcar os concertos. Fiz uma apresentação no auditório de Vila do Conde, porque queria que fosse feita num ambiente mais íntimo. Em dezembro, vou fazê-lo no Teatro Municipal e neste momento estou já a enviar propostas para vários teatros para tentar levar a maior vila às cidades que estão ligadas ao José Régio, que é o caso de Coimbra, e Portalegre, mas quero levá-lo também a Lisboa, Porto, a Braga, Vila Real, e a todas as cidades que tenham espaço e em que faça sentido apresentar isto. Espero levá-lo ao máximo de lugares possível.

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