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Setor livreiro nos Açores mantém proximidade com leitores pela Internet

As vendas de livros, nos Açores, já eram um desafio antes da covid-19, mas a pandemia veio piorar o panorama de um setor que vive da proximidade, agora procurada através da Internet.

Setor livreiro nos Açores mantém proximidade com leitores pela Internet
Notícias ao Minuto

12:35 - 17/05/20 por Lusa

Cultura Covid-19

É de pequenas editoras e livrarias que é feito o mercado nos Açores, um arquipélago em que "as únicas ilhas que vendem livros são a Terceira e São Miguel," já que "não há livrarias nas outras [sete] ilhas", aponta à agência Lusa o gerente da editora Companhia das Ilhas, Carlos Alberto Machado.

As dificuldades não são novidade no setor do livro, garante, admitindo, no entanto, que a situação "piorou com a covid-19, quer para editores, quer para livreiros".

Segundo o editor, "mesmo antes desta crise, as livrarias, em geral, tinham um problema de falta de pagamento atempado dos livros que os editores colocam nas livrarias, à consignação. Isso causa um problema de tesouraria terrível para os editores."

Até ao momento, calcula não ter feito "50% das vendas" previstas, apesar de estar a vender 'online' e de ter adotado o sistema de pré-venda, para "cativar os leitores que querem adquirir o livro a um preço mais razoável e tê-lo antes da chegada à livraria".

Quanto às dificuldades sentidas, "além das não vendas, há o problema da dívida, que é o problema mais grave".

"Não se vendem livros, e, depois, quase 100% daquilo que nos devem não entrou. É uma tempestade perfeita", afirmou.

Com 200 títulos diferentes, o empresário tem esperança de receber "a totalidade dos apoios" que lhe caberão. Os cinco mil euros avançados pelo Governo são "um remendozinho", que cobre apenas "o custo da edição dos livros", mas serão importantes para uma editora em que os únicos trabalhadores são os dois sócios-gerentes, e que não pode aderir ao 'lay-off'.

A Companhia das Ilhas não recorreu aos mecanismos legais disponibilizados para as empresas, nem "àquela patranha do crédito".

"Se vamos pedir dinheiro, vamos ter de o pagar e, se o dinheiro não entra, não temos como", explicou.

E pagar não será fácil: "Pela nossa parte está tudo a zeros", afirma, sublinhando que, "se isto continuar assim, as editoras fecham. Se bastantes livrarias não pagam o que já está para trás, a situação das editoras fica muito complicada."

Para a Letras Lavadas, uma editora com mais de dez anos, que, há menos de um ano, abriu uma livraria no centro de Ponta Delgada, "apesar dessa espécie de remédio", que são as vendas 'online', "a quebra é muito significativa", adianta Luís Rego, responsável pela comunicação da empresa.

"O impacto é muito grande, a diferença de ter uma loja a funcionar normalmente, onde as pessoas entram e circulam com tranquilidade, é muito diferente para o momento em que fechámos as portas. As vendas são residuais, em relação ao que havia antes", afirma.

A editora, que já lançou mais de 300 livros, destaca a "rápida adaptação" da empresa ao tempo de confinamento social, com o reforço da presença nos meios digitais, com a criação de um prémio literário e conversas semanais.

O objetivo é marcar "presença e [ganhar] notoriedade junto dos nossos públicos", salienta, ressalvando, contudo, que "nada disto vende livros, atenção".

Ainda assim, considera que é "extremamente importante" manter essa presença, já que não tem "a expectativa de [no futuro] abrir a porta e as coisas quase retomarem onde ficaram".

A editora, que, "para o que era, está praticamente parada", recorreu ao dispositivo de 'lay-off' de trabalhadores, mas prepara o regresso e conseguiu "lançar alguns títulos, como a [revista literária] Grotta e um livro de crónicas de Paula de Sousa Lima", refere Luís Rego.

A livraria SolMar, em Ponta Delgada, começou a fazer entrega de livros ao domicílio, um serviço que admite continuar depois da reabertura, "porque, eventualmente, nos primeiros tempos, as pessoas poderão não ir à livraria com a confiança que era habitual", explica o proprietário, José Carlos Frias.

Ainda que não compense as perdas das vendas em livraria, esta opção "ultrapassou um bocadinho" o que era esperado, adianta o empresário.

"Notamos que houve da parte dos nossos amigos, clientes, leitores, quase uma solidariedade em termos de não quebrar o vínculo. Houve aqui uma coisa que ultrapassou em larga escala a relação de clientes-empresa. Tanto da parte dos leitores, como dos escritores... E uma necessidade de manter a relação com o livro, nomeadamente com os livros novos", prossegue.

"Fechámos no dia 13 de março e, de lá para cá, tirando vendas ao domicílio, não mais vendemos. Temos de nos agarrar a esses sinais positivos, que vieram dos amigos da livraria."

Para José Carlos Frias, "tem sido também interessante descobrir que se pode trabalhar de outras formas. Muitas vezes se dizia que a Internet é inimiga do livro. Não, não é".

A SolMar, que edita sob a chancela Artes e Letras, recorreu ao 'lay-off' para as duas trabalhadoras da livraria, mas considera que os apoios anunciados pelo Governo são uma "esmola" e lembra que, "da forma como os apoios estão desenhados, há uma margem que vai para os editores, e que pode ir para os editores grandes".

"Como temos edições próprias, vamos avançar [com o pedido de apoio] com edições próprias. De qualquer das formas, não foi o que estávamos a reivindicar", apontou.

O livreiro queria ver implementados apoios à tesouraria e a possibilidade de renegociação das rendas, antes da sugestão de compra de livros por entidades como bibliotecas, ou, neste caso, para Rede de Ensino de Português no Estrangeiro e Rede de Centros Culturais, especificou.

Para o futuro próximo, José Carlos Frias deixa um apelo a que se reconheça que "a cultura ajudou muito, mas muito, a passar esta quarentena, e deve ser recompensada por isso".

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